Nadav Lapid

NADAV LAPID

 

O corpo de trabalho principal da Lapid tem um denominador comum: o retrato social de Israel a partir de uma classe média. Este retrato é feito a partir dos seus lugares mais inusitados: um fotógrafo de casamentos, um polícia de elite e uma educadora de infância. É a partir deles que se consegue perceber melhor uma espécie de ocidentalização da vida moderna, com as suas marcas geracionais. Em “O Polícia”, talvez o filme mais violento de todos, o protagonista está cercado de homens e mulheres bonitos: os comentários sobre os corpos e a sua própria conduta mostram essa tendência estética da sociedade. Trata-se de uma vida de aparência em que é mais importante aquilo que é visível. Em última análise, o que mais espanta nestes filmes é a profunda solidão das personagens, que parecem terem sido obrigadas a entrar num filme pré-escrito da sua vida. Mas elas parecem simplesmente que estão a tentar cumprir o que a sociedade lhes exige, e não a realizar as suas aspirações pessoais. Em “O Diário de um Fotógrafo de Casamentos”, por exemplo, a metáfora é demasiado evidente: nenhum dos casais que tiram fotografias acredita nos seus casamentos. O amor parece uma imposição exterior, que o fotógrafo tão bem compreende (apesar de ele próprio se enredar nessa espécie de paixão fátua e rapidamente consumida). Ainda assim, a ambivalência destes filmes dá sempre espaço a um rasgo de esperança, mesmo que ele surja a partir de algo contraditório: o polícia cumpre as suas funções, mas encarar a morte pode levar a mudá-lo, a educadora inventou para si um futuro, arriscou, e apesar de presa, abanou a “normalidade” da sociedade. Os filmes de Nadav Lapid são profundamente contemporâneos, vivem numa sociedade líquida, que nos impõe identidades que estão em constante transformação. Por isso, também são filmes sobre nós e isso coloca-nos numa posição incómoda. Mas olhar para nós é também exigir mais de nós. Lapid sabe disso.