Ensinar a ausência - Sobre James White, de Josh Mond

13 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Maria Inês Castro e Silva 



O cenário de uma Nova Iorque contemporânea é o lugar onde a personagem principal se move, numa vida boémia e sem pausas nesta que é a primeira longa-metragem de Josh Mond – James White (2015). Para além deste filme, Mond é também um dos produtores de Martha Marcy May Marlene (2011) e Simon Killer (2012). Integrado na produtora Borderline films, James White coloca em cena os actores Scott Mescudi (Nick), Cynthia Nixon (Gail White) e Christopher Abbott (James) numa tensa trama que se centra sobretudo na figura do protagonista. O ritmo acelerado fica desde logo vincado no início do filme com a câmara que convoca compulsivamente o espectador a participar da relação de White com a sua mãe.

O protagonista do filme é uma personagem complexa e em mudança: lida em primeira instância com a morte do pai e acompanhará o cancro da mãe, que é uma forma de morte ainda em vida. Se inicialmente equacionaríamos um filme sobre personagens perdidas na cidade, flâneurs dos tempos modernos, depressa encontramos um cativo da casa, acompanhando a doença da mãe de perto. Num filme que assenta, em grande medida, numa relação nem sempre pacífica entre mãe e filho, é possível encontrar a ausência anunciada. É, por exemplo, num longo momento do filme que James imagina cenas de uma vida feliz que nunca existiu e nunca existirá, suspendendo o tempo. Neste plano, que nos parece surgir isolado no filme, James ampara a mãe no exíguo espaço de uma casa-de-banho, criando imagens do passado e do futuro, construindo o imaginário de uma família feliz que nunca existiu e que nunca existirá como se procurasse de alguma forma adiar a morte da mãe e parar o tempo. Este é talvez uma das escassas sequências em que o espectador tem tempo para abrandar o ritmo acelerado que lhe é anunciado no início do filme.


Se no final pensávamos estar a caminho de uma câmara menos centrada em James, na presença de uma personagem completamente redimida, alguém que abandona a rua para ficar em casa com a mãe, James leva-nos de novo para o início: a mãe morre e é preciso sair de casa, ir para a rua. Voltamos à ausência inicial, ao sair para a rua como ficar em casa.

 

Texto editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas

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