O plano-sequência - sobre "Zootrópio"

15 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Alexandre Marinho 


Se acreditarmos na confissão de Tiago Rosa-Rosso na apresentação da sua curta-metragem inserida na Competição Nacional do 24ª Curtas Vila do Conde, Zootrópio (2016) não foi originalmente pensada em referência o aparelho homónimo, apesar da analogia ser duplamente perceptível, tanto do ponto de vista etimológico – “vida que gira” – como formal. Embora o título deste filme tenha sido atribuído, segundo o realizador, a posteriori, não deixamos, de facto, de visualizar a vida de quatro personagens, dois homens e duas mulheres, cujas existências rotineiras se assemelham a um monótono eterno retorno.

Aceitarmos o carácter imotivado da analogia entre esta curta-metragem e o aparelho pré-cinematográfico autoriza-nos a especular acerca dela, perscrutar através das frinchas do zootrópio, do interstício de dois fotogramas, a presença de algo que nos permitirá atribuir um significado à linguagem formal do filme. Imaginemos que nos deparamos perante um Jano cujos rostos, um virado para o passado e outro para o futuro, opõem-se e “fitam-se” sucessiva e simultaneamente do mesmo modo que as personagens. Este Jano é o binómio vida-filme. As personagens interpelam-se, estabelecem um diálogo de analogias de janela a janela, de fotograma a fotograma. Elas perpetuam um discurso auto-referencial acerca da “imagem movimento” e da sua metáfora, a vida.

 

Porém, das suas janelas, esses “zoótropos” estão condenados a contemplar através da chuva os seus reflexos em contra-campo, os seus anagramas. Ao invés do cinematógrafo, a sucessão de imagens do zootrópio não é vertical, mas horizontal. Enquanto o aparelho dos irmãos Lumière perpetua um movimento transcendente mas finito, o movimento de William George Horner é circular, logo infinito. O tédio existencial das personagens é sintomático da rotina mecânica na qual elas estão presas – não a de um plano-sequência, mas a de uma espécie de sequência-plano. Personagens becketianas à espera de algo que lhes é impossível alcançar. Talvez, a finitude cinematográfica, ou seja, a morte. Mas, recordemos: esta leitura é meramente de foro especulativo. Provavelmente a de outro filme com poemas de Éluard.  

 

Texto revisto por Jorge Mourinha

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