Morte e vida em forma de parábola

15 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Denise Liege


A realizadora grega Konstantina Kotzamani está no Curtas em dose dupla, com dois filmes – Yellow Fieber (2015) e Limbo (2016), ambos na Competição Internacional –, onde o universo simbólico, repleto de referências religiosas, é bastante complexo. Em Yellow Fieber, deparamo-nos com a doença e a morte na forma de uma praga que assola uma cidade, outrora feliz, onde os moradores são surpreendidos por uma névoa que os deixa doentes. O medo faz com que os habitantes dessa cidade tranquem dentro das casas os seus doentes, marquem as residências com palmeiras e com o passar do tempo não saiam mais à rua. A cidade torna-se vazia de pessoas, mas o rei, sobrevivente, aprende a falar a língua das palmeiras.

Neste tom distópico, a narrativa é realizada através das vozes das personagens, enquanto vemos imagens que reforçam a ideia geral do filme sem, no entanto, serem meros suportes das informações recebidas. A matriz religiosa judaico-cristã encontra-se presente na forma das pragas do Egipto e na utilização de palmeiras que também são chamadas de árvores da vida. A morte das palmeiras é a morte da vida, mas a epidemia é sobretudo social.


Em Limbo, a realizadora aprofunda as questões da teologia católica. No plano inicial, percebemos no canto inferior esquerdo da tela a aproximação de um menino branco, com uma respiração ansiosa que chama a atenção para um clima tenso. Este filme volta a trazer diversos símbolos cristãos: o barro que envolve os corpos dos meninos (Deus criou o homem do barro); peixes (os cristãos usavam-nos em encontros como marcas de locais e é um acróstico que significa Jesus Cristo, filho de Deus, salvador); a baleia ou peixe grande que engoliu Jonas e mantém restos humanos e que pode respirar fora da água, em alusão a salvação pelo cristianismo; e são mostrados 12 meninos (12 apóstolos) em diversos planos gerais com composições simétricas em que seus corpos e casas são refletidos na água (o batismo é realizado com água que, ao retirar o pecado venial, insere a criança no catolicismo) e intercalam-se com planos próximos de rostos apreensivos sobre sua situação de espera.


Um clima de medo, ansiedade e apreensão estabelece-se por todo o filme, suportado pela banda sonora que institui com muita precisão esse clima de questionamento que envolve os conflitos. O filme apresenta dois tempos distintos: um tempo de ação onde a câmara se movimenta com mais liberdade entre as personagens e um tempo de espera onde os planos gerais são frequentes. Estes mostram uma certa imobilidade das personagens como se o tempo estivesse em suspenso, que é reforçado pela composição interna dos planos, onde personagens, objetos e reflexos colocados em simetria reforçam o estado de suspensão do tempo e do movimento.

 

Texto editado por Jorge Mourinha

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