Heróis - Sobre "I was a Winner"

16 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Natacha Moreira


Nesta animação documental sueca de Jonas Odell, somos introduzidos num ambiente gráfico de jogo de computador onde personagens,  através das suas personas digitais, avatares, descrevem-nos a iniciação aos jogos de computador e o seu crescente vício, num filme que mistura documentário e animação, numa fronteira entre géneros que tem explorado ao longo da sua obra.

Apesar das vestes de guerreiros, vamos percebendo a fragilidade à medida que ouvimos as histórias, surgindo, por debaixo da aparência de super-heróis, as angústias e frustrações da vida real que desencadearam o vício do jogo de computador e as consequências que o jogo trouxe às suas vidas e consequente isolamento. A solidão que determina a procura do jogo, o jogo de computador como entretenimento para crianças sem cuidador, a solidão no acto de jogar (juntos no mundo virtual mas separados por uma cadeira na vida real). O jogo apresentado como busca  no mundo virtual de uma comunhão que não se tem no mundo real.


As personagens contam as suas histórias num misto de angústia e conformação, explorando a ideia de uma reconfiguração das relações – familiares, amorosas, afetivas – na era das tecnologias digitais, no paradoxo do isolamento dentro de um mundo cada vez mais global e, supostamente, solidário.


Está sempre presente o especial versus o vulgar, como são especiais no jogo não o sendo de outra forma; vencedores no mundo virtual e perdedores no mundo real, também num contraste masculino/feminino em que a personagem feminina, longe do ambiente de lutas e guerras, surge sempre em ambientes mais “caseiros” num paralelo com o machismo da vida real, numa fuga da realidade para o jogo no qual, de facto, se imita a vida. Na vitória sentem-se como heróis, como Zlatan Ibrahimovic a marcar 4 golos à Inglaterra. Mas quando perdem, sentem o que o craque sueco eventualmente sentiria se não marcasse aquele golo de bicicleta de outro mundo.


Com a solidão se iniciam, na solidão no jogo se conseguem(?) redimir na, afinal,  natural busca pelo outro e pelo colectivo.


Porque, na verdade, no jogo somos todos vencedores, mas cá, no mundo real, só poucos são heróis nacionais, tal como um Ibrahimovic, ou, já agora, um Éder.

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