“HD helps us come closer to the spiritual beings we long to meet”

16 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Pedro Dourado 


Painting with history in a room filled with people with funny names 3
(2015), de Korakrit Arunanondchai, é o epílogo de uma trilogia de videos iniciada em 2012. Artista plástico, actualmente a trabalhar entre Nova Iorque e Banguecoque (a sua cidade natal), Arunanondchai problematiza no seu trabalho temas como a história, a autoria, a auto-representação e o turismo, a partir do ponto de vista de alguém radicado noutro lugar (numa espécie de transplante cultural). Para o cineasta, a experiência da obra é resultante da confluência entre diferentes média, e estilos, mas capazes de, colectivamente, construir um território artístico em comum (“mixed media”). 

Ainda que Painting with history in a room filled with people with funny names 3 tenha sido apresentado originalmente como uma instalação em contexto de galeria, no Curtas Vila do Conde podemos ver um dos elementos constituintes dessa obra — um filme, com o mesmo título, que apresenta o próprio artista encenando uma personagem ficcional, um jovem pintor tailandês vestido de ganga. Korakrit Arunanondchai cria-lhe uma narrativa auto-biográfica, explorando a construção da sua imagem enquanto artista identidade e realidades sociais, enquanto comenta simultaneamente as ramificações consequentes da globalização visíveis na Tailândia actual.


Uma das qualidades mais notórias desta curta é a plasticidade que Arunanondchai aplica na concepção dos planos; aliás, toda a mise-en-scène construída neste filme é balançada entre cenários reais e virtuais, numa tentativa de simbiose entre o homem, o artista e a máquina, a um nível tanto espiritual como social. Uma conjugação de factores que são pontuados por uma estética reflexiva sobre a cultura digital e a cultura de massas; uma viagem espiritual pelo questionamento da essência metafísica tanto do ser humano como da máquina tecnológica, como se a ambos fosse possível atribuir um consciente, uma voz, uma memória — não será certamente uma novidade na cultura artística contemporânea: em Portugal destaca-se Gabriel Abrantes com Dreams, Drones and Dactyls (2015), por exemplo — criando, ao espectador, um exercício de significação e interpretação em diferentes camadas, no contexto político, económico e social. Se, por um lado, tenta dialogar com o espectador através de escolhas de montagem e produção semelhantes às últimas tendências do vídeo musical (uma mistura entre cinema e o vídeo musical coreografado, como no álbum Lemonade de Beyoncé), por outro, Arunanondchai canaliza a forma para um dispositivo discursivo que questiona a essência desta ligação social e espiritual que temos com outras culturas, tendo em conta a economia global e neo-liberal em que vivemos.


Em Painting with history in a room filled with people with funny names 3, a curta, tanto esse jovem pintor tailandês e um drone comunicam com uma figura espiritual (Chantri) criada pelo artista, e ambos falam de um imaginário colectivo, da memória, de uma Tailândia que testemunhou diversas tensões — a imposição da cultura materialista ocidental num país carregado de uma tradição espiritual ou os conflitos sociais e políticos entre as populações e o governo —, e tenta criar um espaço para essa identidade tradicional espiritual e cultural para as gerações tecnológicas futuras.

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