A angústia da influência - Sobre "Personne"

16 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Luís Nogueira

As experiências visuais que envolvem os conceitos de autoria e de apropriação nas artes não são novas e muito menos pacíficas. Irrompendo pelo século XX com o Cubismo, essas experiências prosseguiram com os Ready-Made de Marcel Duchamp e as colagens dos seus compagnons de route dadaístas, tendo desenvolvimentos próximos nas experiências surrealistas. As questões da autoria e da legitimação da obra de arte (e a sua equivalente sabotagem) foram posteriores protagonizadas por inúmeros artistas, entre os quais Robert Rauschenberg e as suas Combine Paintings, que, desafiando as convenções artísticas herdadas dos séculos XVIII/XIX, lhes baralharam por completo o sentido. Em 1969, Michel Foucault profere a célebre conferência O que é um autor?, em que segundo uma grelha de análise aplicada à literatura, se propõe, entre outros tópicos, abordar a função do autor e as suas relações de apropriação. 

Vem esta introdução a propósito do objeto fílmico intitulado Personne, da autoria de Christoph Girardet e Matthias Müller, exibido na seção experimental do Curtas Vila do Conde, que, na sua aparente simplicidade, nos desenvolve estas questões, amplificadas pelo medium cinema. Com aproximadamente 15 minutos de duração, o filme põe em marcha um impressionante dispositivo conceptual, que se articula através da colagem de um sem número de excertos de filmes. As primeiras impressões conduzem-nos à ideia de labirinto, através do desfile de uma vasta sequências de planos sem aparente ligação entre si, pelo menos se observadas as regras narrativas que habitualmente gerem as noções de tempo e espaço no cinema. Percebemos imediatamente que estamos perante um objeto esquivo a interpretações demasiados formalistas, e que nos resta é mesmo deixarmo-nos ir.


O “vício” da interpretação impele-nos, contudo, a procurar um qualquer sentido encriptado no banquete de imagens servido por Girardet e Müller. E eis que as peças se começam minimamente a encaixar. Há em Personne uma imagem-chave (o punctum de que falava Roland Barthes) que parece ancorar toda a estrutura do filme. Falamos de La Reproduction Interdite, quadro de Magritte, que retrata um homenzinho banal que se observa ao espelho e que por sua vez o reflete de costas. Uma imagem de puro horror, que envia para a ideia de alienação do individuo. São convocadas então as figuras de vários atores, entre os quais Jean-Louis Trintignant e Gregory Peck, que corporizam uma busca identitária. Borboletas, aviões, garrafas e copos estilhaçados, polígrafos, teclas de piano, máquinas de escrever, bolas de bilhar, portas, muitas portas que se fecham, são os acessórios de um décor opressivo, que dialoga com os corpos em movimento sincopado, muitas vezes à deriva ou à procura de não se sabe bem o quê.


Este filme filia-se noutros projetos de Christoph Girardet e Matthias Müller, que também trabalham com found footage e com a manipulação e colagem de extratos de filmes de diversas proveniências, eventualmente combinados com outros materiais visuais e sonoros. Ken Jacobs, Vivian Ostrovsky e Peter Tscherkassky, para citar apenas exemplos de alguns autores com presenças no Curtas Vila do Conde, são nomes identificados com este tipo de processo.

Por vezes, na receção crítica a estes objetos, subsiste uma resistência inicial que se poderá genericamente explicar pelo sentimento de perda da aura da obra de arte. Quando Duchamp põe um bigode numa reprodução da Mona Lisa, não estava simplesmente a divertir-se ou a divertir-nos. Estava a antecipar em décadas coisas um pouco mais sérias: o pensamento aberto, a pós-história, o culto da intertextualidade, da paródia e do humor, o sentido do lúdico, servido por uma fragmentação assistemática, que parece ser o ponto onde nos encontramos.

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