Nós já vencemos! - sobre "E do mar nasceu"

16 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Pedro Henrique 


‘Não é no tempo em que os animais falavam’, nem no início das epístolas ‘Naquele Tempo’, mas houve uma era em Portugal na qual se criavam cooperativas para melhor distribuir os lucros e para uma organização mais justa do trabalho. E mais, houve uma equipa de cinema que a pedido da Direcção Geral de Educação Permanente para a Formação de Adultos foi até às Caxinas filmar esse período. A grande questão social da época centrava-se nos pescadores e nessa nova aventura de organização laboral, com o sentido de espalhar a palavra e mostrar ao resto do país, em 1977, depois do PREC, como era possível concretizar o sonho de uma revolução e documentar uma cooperativa de pesca que, com esperança e energia, se constituía com o título “Nós venceremos”.  

Ricardo Costa, autor de longas metragens como Avieiros (1975), Mau Tempo, Marés e Mudança (1976) incluídas na série televisiva Mar Limiar (1975-77) realiza com a colaboração de Acácio de Almeida e Solveig Nordlund, membros da Cooperativa Grupo Zero, um filme que pretendia ajudar a população e mostrar-lhes as potencialidades que então poderiam ter por diante.

A nível cinematográfico, o filme é organizado através de pequenos quadros alegóricos de diversos aspetos que caracterizam a disposição e sensibilidades dos habitantes da paróquia: ora através do humor inusitado pela promessa ao Senhor dos Passos e pela rapariga que namora com o sardinheiro; ora pela superstição das bruxas do mar; ora pela honestidade da divisão dos ganhos monetários após a faina; ou ainda pela liderança mostrada pela Comissão ‘Pó’ Progresso das Caxinas, Poça da Barca e Lugares Anexos, na comunicação dos objetivos alcançados e daqueles que se pretende atingir.


“E do mar nasceu” é um documento essencial para compreender como se desenvolveu a comunidade de Caxinas e como estava organizada durante o PREC, bem como para entender as dificuldades de uma geração que não está muito distante, numa época em que se pretendia incrementar a pesca como atividade económica (mal se sabendo então que uma década e meia depois iria haver um esforço concertado para destruir essa mesma frota). É um filme-manuscrito, no qual estão inscritas as ideias fundamentais de uma população que lutava por sobreviver, mas que não abdicava do quinhão para o Senhor, na divisão dos lucros; que imaginava uma escola de pesca, para os filhos não irem para o mar analfabetos e que lutavam por infraestruturas essenciais como escolas básicas e liceus para o prosseguimento de estudos, por habitação condigna e por acessos e arruamentos que valorizassem a sua paróquia, mais numerosa que a própria localidade de Vila do Conde.


Da mesma forma como termina o filme, com uma canção de embalar, ao longo deste somos encantados com esta melodia, que percorre a sala, de pessoas que acedem a imagens perdidas no Palácio da Memória de Santo Agostinho. Há uma sensação de familiaridade singular nesta sessão, uma fama fugaz como o frame da película. Nós, os que estivemos na sala, já vencemos por este filme ter sobrevivido ao tempo e por sermos espectadores privilegiados desse regresso. 

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