Podia ser, mas… - Sobre "Valeria"

18 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Pedro Dourado


A grega Erin Vassilopoulos regressa ao Curtas Vila do Conde com Valeria, produzido em 2016, depois de ter deixado a sua marca na edição anterior do Festival com Superior (2015). Se em Retrospective, de Salla Tykkä, somos convocados a questionar a verosimilhança das imagens que retemos na nossa memória, em Valeria somos confrontados com uma ideia de rosto da memória, uma identidade física e psicológica de alguém, passível de ser transmissível a um corpo diferente; uma transferência, uma apropriação de todas as marcas que fazem cada ser humano diferente entre si, como se no final de contas a identidade individual, aquilo que torna possível o “eu”, fosse um apetrecho artificial, dessa grande massa uniforme a que chamamos identidade colectiva. 

Em Valeria, Vassilopoulos apresenta-nos os danos colaterais do que seria o sucesso de uma operação plástica (a reconstrução facial de uma rapariga, Eva, graças ao rosto de outra, depois de se suicidar) como metáfora para falar sobre a singularidade, ou não, da memória individual de cada humano. Eva não se reconhece naquele rosto, sente que o corpo é seu, mas há algo de particular nas feições que lhe provoca uma inquietação. Eva sente que a sua identidade é agora partilhada com a rapariga defunta. Não sabemos se tal acontecimento irregular é um acto de compaixão (ou fetiche) por aquela que se suicidou, mas podemos afirmar com clareza que Eva sente que deve algo a esta rapariga que se suicidou.


Percorremos com Eva os seus lugares reconhecíveis, nos subúrbios de classe burguesa americana, num ambiente a roçar entre o vitoriano e o kitsch; saltamos para uma mise-en-scène análoga à atmosfera de David Lynch, mas numa versão apática e com uma cenografia pós-Ikea. O filme começa por ter um ponto de partida interessante, mas o desenrolar da estória é estruturado por uma pobre plasticidade entre a arquitectura dos planos e o discurso narrativo dos corpos que enquadram o ecrã. O filme ressalva uma preocupação na forma (óptima fotografia), mas demonstra, apesar de disso, uma concepção redutora do discurso narrativo. Ainda que seja possível vermos planos aproximados de rostos, de corpos e interiores, Vassilopoulos cria uma tensão dramática cativada pela (in)expressividade das personagens, incluíndo Eva (a protagonista), que habitam aqueles lugares, resultando, no seu todo, num filme fácil de mastigar. 


Texto editado por Jorge Mourinha.

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