“Reenquadrar-se” – Sobre "Diário de um fotógrafo de casamentos"

20 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.  


Por Alexandre Marinho


Como não pensar no Mystery Man de Lost Highway (1997) de David Lynch – interpretado por Robert Blake – no comportamento sádico do protagonista de Diário de um fotógrafo de casamentos (2016), a última curta-metragem de Nadav Lapid vencedora do Grande Prémio da Competição Internacional da 24ª edição do Curtas Vila do Conde? Ambos são encenadores demiúrgicos providos da capacidade de influenciar os comportamentos daqueles que eles filmam. Tanto um quanto o outro assemelham-se a voyeurs de uma realidade inconsciente da sua ficcionalidade, quando não desejosa desta.

Acompanhamos a rotina de um antigo estudante de arte reconvertido em fotógrafo de casamentos, um homem desiludido com as relações humanas e com as suas pretensões artísticas, alguém, portanto, que migrou do idealismo para um pragmatismo cínico majorado de uma predisposição fetichista por noivas. Perscrutamos através da sua câmara o nosso carácter mitómano, a necessidade inconsciente de auto-ficcionar a nossa identidade e a nossa felicidade. Os planos do fotógrafo são constantemente reenquadrados conforme o imaginário que os noivos pretendem projetar, e isso ao ponto desses entrarem radicalmente em conflito com o cenário da realidade. Embora ele já tenha acompanhado cerca de setecentos casamentos, o primeiro, aquele em que ele não filmara por inadvertência os principais focos da cerimónia, continua sendo o melhor, o mais sincero.


As sessões fotográficas com os noivos surgem, assim, como oportunidades ideais de diagnosticar a angústia e as incertezas que antecedem a cerimónia (institucional) da ficcionalização do amor por excelência, o casamento. Sob a direção do fotógrafo-psiquiatra, os noivos “realizam” o contraste entre a realidade e a felicidade que lhes é pedida encenar e a que eles julgavam possuir. A constatação das suas identidades ficcionais concretiza-se numa fuga cujo desfecho pode, por vezes, revelar-se trágico.  


Presente na Semana da Crítica 2016 do Festival de Cannes, esta que é a quinta curta-metragem de Nadav Lapid reflete uma exploração irónica, perturbante e mordaz do materialismo da sociedade israelita já patente nas suas duas longas-metragens, The Kindergarten Teacher (2014) e O Polícia (2011), vencedor do Prémio Especial do Júri do 64º Festival de Locarno. Cineasta em ascensão, Nadav Lapid continua na senda de uma filmografia cáustica da nossa contemporaneidade.  

 

Texto editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas.  

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