Não há lugar como a nossa casa - Sobre "Home"

20 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Ana Belo

 

Daniel Mulloy, realizador de Home (2016), filme a concurso na Competição Internacional do Curtas Vila do Conde 2016 e nomeado para os European Film Awards, afirmou, numa entrevista, estar interessado na possibilidade de se dizer uma coisa, significando, na realidade, outra. Home acompanha, num registo realista, uma jovem família britânica de classe média, cujo acordar abre o filme que adivinharíamos ser, à primeira vista, um drama familiar. Mulloy contraria expectativas e conduz o casal e os seus dois filhos, ainda pequenos, numa perigosa viagem rumo a um país desconhecido.

Ignoramos as suas exactas motivações – políticas, económicas? –, mas a ideia do realizador parece ser recriar de modo geral a difícil travessia de milhares de migrantes e refugiados, nomeadamente aqueles que têm vindo a protagonizar a maior crise migratória na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, introduzindo nessa recriação um elemento excêntrico – alguns espectadores talvez só esperassem ver uma família branca de classe média envolvida em semelhante fuga numa saga de ficção científica passada no dia anterior ao apocalipse.

 

O realizador constrói um simulacro para, através dele, interpelar os espectadores. Comovendo, pergunta implicitamente: “E se fosse contigo?”; dando-lhe, como diria alguém, “um murro no estômago”. Mulloy quer pôr em evidência o facto de o espectador ocidental se solidarizar quase de imediato com aquela família apenas por mais facilmente se identificar com ela. A propósito, importa destacar que o filme surge essencialmente como uma campanha de sensibilização – foi produzido com o apoio das Nações Unidas e teve estreia no Dia Mundial do Refugiado.

 

Nesse contexto, parece relativamente bem sucedido, ainda que os espectadores se dividam: por um lado, aqueles que submergem numa onda de empatia, que responde ao interesse do realizador; por outro, aqueles que acham que Mulloy foi longe demais (à semelhança de infelizes perguntas como “o que levaria consigo se tivesse de deixar o seu país como refugiado?”), por reconstituir situações graves que parece desrespeitoso, e até ingénuo, passar tempo, “por desporto”, a imaginar.

 

Há, numa produção como esta, um certo cinismo. Enquanto filme-campanha terá de existir em função do seu objectivo. Mas se o seu objectivo não é cumprido por mais do que 5 minutos, então o que verdadeiramente se fez não foi despertar consciências, mas inquietá-las levemente (nunca em demasia), para de seguida as adormecer – com o bónus de oferecer a uma massa entorpecida a presunção de que não o é.

 

O mérito desta curta-metragem é, pois, a forma como desdiz o seu realizador. A ironia que Mulloy celebrava está, não nele, mas no próprio objecto que criou. Ao tentar consciencializar os espectadores do seu filme, o implícito elogio da fraternidade não sobrevive ao que de mais terrível Home revela – e que, atendendo ao que até agora se escreveu sobre o filme, parece ter passado despercebido: a impossibilidade de uma pessoa se colocar na pele de outra torna falível a esperança de que a solidariedade entre povos ou comunidades possa basear-se num princípio de identificação com o vizinho. Por norma, é precisamente a não identificação que justifica a intolerância (resquícios de um atávico instinto de conservação). O próprio Mulloy, pelas suas opções, subscreve a ideia de que só protagonistas criados à imagem dos espectadores podem levar à compreensão do problema – aqui, a crise dos refugiados.

 

O choque que o filme provoca pode ser intenso, mas é, certamente, muito pouco duradouro (talvez porque quando se extirpa um mal, ou a sua iminência, se extirpa também a persistência desse mal na mente de quem o sofreu). Exercícios como os de Mulloy, não acompanhados de acções mais consistentes, pouco mais são do que boas intenções. Home é ainda assim, e considerando tudo isto, um filme valioso pela subtil contradição entre o que aparenta ser e aquilo que uma segunda observação revela.

 

Texto editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas.

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