Negros teus cabelos cobriam teu corpo - Sobre "O Dia do Meu Casamento"

21 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Luís Nogueira


Ao 7º dia do Curtas de Vila do Conde, deu-se um pequeno milagre na forma da projeção de O Dia do Meu Casamento, entusiasmante primeira incursão de Anabela Moreira na realização (acompanhada por João Canijo) e um filme surpreendente a vários títulos. Sendo uma dupla a assiná-lo, permitimo-nos, como metodologia de trabalho, e depois do privilégio de escutarmos Anabela Moreira na apresentação pública, considerar sobretudo o seu olhar, ainda que cumplicemente secundado pelo de João Canijo, que creditado como corealizador deste O dia do Meu Casamento, se sente como uma presença tutelar que aqui paira a vários níveis. Canijo tem de resto trabalhado com Anabela Moreira em inúmeros projetos (recorde-se a título de exemplo o filme Obrigação, encomenda do programa Campus do Curtas de Vila do Conde), desenvolvendo um forte sentido de parceria artística, aqui manifestado de uma forma evidente.

O Dia do Meu Casamento parte de uma ideia (aparentemente) simples: o registo das peripécias de uma noiva e do seu microcosmos específico, na manhã que antecede o seu enlace matrimonial. Esta é uma das primeiras sabotagens da obra, que se vai desenvolver em sentidos que ultrapassam a sua mera descrição factual. Filme com várias histórias dentro desenvolvendo-se em perfeita sincronia (a das crianças, a dos adultos e a dos animais), revela um notável ato performativo de as fazer pertenceram-se, fundamentalmente através do recurso a uma eficiente montagem, que as entrelaça sem perdas no fulgor narrativo.

As crianças ocupam aqui uma espécie de limbo: como que saídas do livro de William Golding, Lord of the Flies, agem sem supervisão parental, criando uma comunidade neurótica (o pato, sujeito a bullying por uma menina aparente inofensiva, é um verdadeiro achado!) que se vai afirmando em paralelo com o mundo dos adultos. E estes cumprem os papéis predestinados, perorando sobre tudo e sobre nada (temos até um malicioso ensaio sobre a profissão taxista), numa cacofonia que com a música Cara de Cigana compõe uma banda-sonora que nos devolve a nossa imagem de país de uma forma mais certeira que muita da ensaística sociológica. Os cães Nina e Rocky completam este dispositivo conceptual, que cria figuras-arquétipo, um sinal distintivo da grande arte ou do grande cinema.


As referências mais ou menos explícitas a quadros, fotografias e filmes são uma constante. Correndo o sério risco de falharmos o alvo, diríamos que por aqui andam os fantasmas do cineasta sérvio Emir Kusturica (o senhor imóvel que nos transporta ao universo de Gato Preto, Gato Branco, de 1998), da artista portuguesa Paula Rego (a cena da noiva, a própria Anabela Moreira, contorcendo-se para entrar na sua veste nupcial) ou do pintor francês Fantin Latour (a mesa com um jarro de flores brancas). Poder-se-ia ainda referir os nomes de fotógrafos como o inglês Martin Parr ou o alemão Thomas Struth, que a par de referências diversas, vão subtilmente pautando o tenso desenrolar da narrativa. O processo como Anabela Moreira acomoda todas as citações (misturando-as com uma forte autorreferencialidade) recorda-nos também, e salvaguardadas as devidas distâncias, o cinema de João César Monteiro ou o de Pasolini, que incorporavam camadas de uma vasta erudição literária e visual nos seus filmes, sem nunca parecerem aborrecidos ou pedantes.


A par com as alusões visuais à “alta cultura”, o filme manobra com igual inteligência e labor um vasto rol de referências que refletem o genius loci: o óleo Fula, os naperons, as rendas e bordados, o papel de parede, as cómodas, os bibelots, as colchas (a cheirar a vinagre), as reproduções baratas de pinturas nas paredes (sublinhe-se o bom gosto da escolha dos quadros do décor que inclui O Homem do Turbante Vermelho de Jan Van Eyck), os insufláveis ou o leitão sobre a mesa, são elementos que revisitam toda uma tradição dos lares portugueses, ligando-os com ironia ao ritual de um dia de casamento. A banda sonora recuperando o tema Cara de Cigana, de Mano Belmonte, exponencia esta diversão kitsch, esta paródia à alma lusa, realizada com uma profunda devoção e uma distância respeitosa, que nunca concedem que o filme resvale para o mau gosto.


Anabela Moreira está definitivamente em estado graça nesta sua curta. Aproximou a câmara aos seus atores (amadores e profissionais) e ao décor, filmando-os com a intensidade e paixão que só o excessivo voluntarismo de uma primeira obra poderia justificar. Perguntaram um dia a Picasso quanto tempo demorou a pintar um quadro. A resposta do mestre foi curta e enigmática: demorei o tempo que me levou a pintá-lo, mais todos os dias da minha vida. Este divertimento semântico pode ser com justiça aplicado a Anabela Moreira, que parece ter esperado quatro décadas pelo amadurecimento do seu olhar, oferecendo-nos então este inesquecível dia.


Editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas. 

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