Terra da memória - Sobre "There is a happy land further way"

5 Agosto 2016
Share on Facebook Share on Twitter

O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Alexandra João Martins 


Partindo de um poema de Henri Michaux, Ben Rivers constrói um filme híbrido sobre Vanuatu, uma ilha vulcânica localizada no sul do Oceano Pacífico, destruída em 2015 aquando da passagem do ciclone Pam. O realizador britânico documentou a vida no arquipélago antes da catástrofe e montou o filme posteriormente constituindo, por isso, uma espécie de retrato fantasma que nos chega pela voz de alguém distante e que nos mostra um passado muito recente de uma terra que já só resta na memória. Assim, Rivers curto-circuita a noção de tempo e de espaço porque o país de que ouvimos falar não é um lugar geográfico, porque o tempo histórico daquelas imagens não é longínquo.

Ao longo do seu trabalho, que no ano passado esteve em exposição na Solar – Galeria de Arte Cinemática (em colaboração com Ben Russell), o realizador tem revelado particular interesse na aproximação a certas comunidades alternativas e, por norma, isoladas, procurando um exercício ambivalente: etnográfico e poético. Sem imposições e sem causar alterações, o realizador integra-se nestes grupos filmando-os e desconstrói o olhar do outro, do estrangeiro.

 

Os versos “I'm writing you from a far-off country...” são ditos e reditos até ao limite por uma mulher, aparentemente desterritorializada como Michaux, que não domina o inglês e que, por isso, vai corrigindo certas expressões que se vão cravando na mente do espectador. Ouvimos também o próprio realizador (supomos) a intervir nesse sentido, denunciando o dispositivo cinematográfico. A inexistência de sons diegéticos, que evoca a inatividade de hoje da ilha, e a sua dessincronização face ao que vemos provocam um divórcio inequívoco entre imagem e som. Assim, a potência de cada plano sobrevive isoladamente, razão pela qual esta curta-metragem se poderia inscrever facilmente no circuito museológico, tanto enquanto filme como enquanto instalação. Apesar do filme constituir uma narrativa, em que o desenlace final é até bastante evidente e em que a  crescente actividade do vulcão nos guia, os planos fixos frontais dos nativos ou os grandes planos das paisagens existem per si, como elementos independentes que facilmente se fecham sobre si mesmos.

 

Contemplativo como habitualmente, Rivers acentua a diferença de escalas entre a figura humana e a natureza, filmando amplas paisagens escurecidas. O fumo anuncia a erupção do vulcão e logo depois veremos a lava jorrar do interior da terra. Que podemos contra a força da natureza? Nada, dir-nos-ão os planos finais em que, recorrendo a maquetas, é-nos apresentado um cenário de destruição e cabanas imersas. Ao optar por este tipo de encenação em miniatura, o realizador convoca o confronto de escalas e coloca em evidência a impotência humana. Simultaneamente, o espectador é colocado numa posição quase divina, num ligeiro picado, em que é convidado a manipular os pequenos elementos do cenário.

 

Este é um filme sabotado pelo despojamento técnico e conceptual do realizador. Quer através da deterioração material das imagens inerente à película, quer das interrupções constantes na narrativa oral, mas também pelo carácter destrutivo dos próprios acontecimentos. A sublimidade de “There is a happy land further away” reside lá onde Rivers inscreve a ausência de um lugar que era e jamais voltará a ser.

 

Editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas.

ETIQUETAS