A Iconoclastia de Bertrand Mandico - Acerca de "Há Alguma Virgem Ainda Viva?"

5 Agosto 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 


Por Alexandre Marinho

 

Existe uma espécie uma predileção do cinema pela figura de Joana d'Arc, como se este, inconscientemente, reconhecesse na paixão e nos êxtases da Pucelle aqueles que ele nos suscita. De facto, verifica-se uma fixação cinematográfica da – e na – mártir, dos primórdios do cinema aos nossos dias: Georges Hatot, os irmãos Lumière e Méliès – respetivamente com Exécution de Jeanne d'Arc (1898), Domrémy (1899) e Jeanne d'Arc (1900) – iniciaram um culto que havia de ser perpetuado, entre outros, por Cecil B. DeMille, Carl Theodor Dreyer, Victor Fleming, Roberto Rossellini, Otto Preminger, Robert Bresson, Jacques Rivette e Luc Besson.

Com Há Alguma Virgem Ainda Viva? (2015) – curta-metragem que assinalou o regresso de Bertrand Mandico ao Curtas Vila do Conde, onde ele já havia arrecadado o Grande Prémio da Competição Internacional da 19ª edição com Boro in the Box (2011) –, o realizador francês rompe radicalmente com a iconografia tradicional. Ele viola o ídolo religioso, chauvinista e cinematográfico. Como sublinhou, aliás, na nota de intenção que acompanha este projeto, Mandico desejou apoderar-se da personagem histórica, mítica e virtuosa constantemente representada pelo cinema de um ponto de vista demasiado respeitoso no intuito de lhe incutir um retrato turbo e bárbaro, mórbido, fantasmagórico e libidinoso.


Inspirado na primeira parte de Henry VI atribuída a Shakespeare, onde Joana D'Arc é descrita como sendo uma bruxa e uma meretriz, Bertrand Mandico moldou, de facto, uma personagem tenebrosa, sádica e ressentida. Não tendo padecido num auto-de-fé em Rouen, conforme as crónicas o relatam, Jeanne “the slut” foi condenada a vagueando como uma necrófaga pelos campos de batalha – após ter tido os olhos queimados e ter sido deflorada por um garanhão inglês – em busca da existência de virgens sobre as quais ela possa perpetrar a sua vingança. Composto como uma chantefable – fábula lírica medieval –, esta curta-metragem narra e canta a existência de Jeanne errando num limbo entre história e hagiografia, política e arte aguardando uma redenção que lhe será concedida, finalmente, pelo próprio realizador e criador.


Se, nas feições de Ingrid Bergman, Jean Seberg ou Milla Jovovich reconhecíamos uma heroína moral e sexualmente imaculada, luminosa, agora, perante a egéria de Mandico (Elina Löwensohn), confrontamo-nos a um ser maléfico, repulsivo e homicida – enfim, a sua antítese. É que a estética deste excêntrico realizador francês – patente na trilogia Hormona onde, a par de Prehistoric Cabaret (2013) e de Notre dame des hormones (2014), esta curta se enquadra – situa-se, de certo modo, no revés metafórico da película. Recorrendo às marcas do gore, do kitsch ou da série B mas também do barroco, do grotesto ou do expressionismo, Mandico vasculha, como a sua protagonista, o revés da realidade e do ideal. 

 

Editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas.

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