Silly as fuck - Sobre "Crystal Lake"

5 Agosto 2016
Share on Facebook Share on Twitter

O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Alexandra João Martins

 

Jennifer Reeder, experienciada realizadora norte-americana, continua aqui o trabalho que tem vindo a desenvolver acerca das problemáticas feministas. Um filme teen hiper-produzido em que a luta íntima de uma adolescente que acaba de mudar de cidade se imbrica com a luta colectiva de um grupo de jovens que se auto-sugerem como skaters feministas (“feminine as fuck” lê-se numa das suas t-shirts). A invisibilidade a que se sente devotada a personagem principal surge então como analogia para a invisibilidade da mulher na sociedade contemporânea ocidental. Reeder vai mais longe ao criar esta personagem que é, simultaneamente, skater, feminista e muçulmana (visível na utilização da hijab). Minoria dentro da minoria. Porém, tentar desconstruir um estereótipo construindo outro é a principal falha de Crystal Lake.

Neste filme, o grupo de skaters ocupa – no sentido de domínio territorial – um half-pipe de um parque da cidade e expulsa veemente a presença masculina, segregando os rapazes: “zero boys!”. Em todos os momentos, estas raparigas são aparentemente agressivas, dominadoras e até opressoras, inclusive dentro do seu seio. A personagem principal é reprimida pela sua colega por estar a chorar e coagida a caminhar, com um saco na cabeça, até ao parque onde se reúnem para posteriormente se integrar no grupo. Não havendo nomes para cada uma das raparigas, o carácter subjectivo dissimula-se. Têm uma identidade colectiva.

 

A tentativa de Reeder de construir um argumento eminentemente ideológico, utilizando léxico e referências específicas (a black panther Angela Davis, por exemplo) acaba por se tornar vazia ao ser banalizado ou superficializado, e é marcado pelo simplismo da linguagem cinematográfica que apenas sustenta a história: diálogos em campo/contra-campo, linearidade, crossfades excessivos, música em crescendo e slow motion como recurso para adensar a emotividade dos planos. Além de recorrer a pequenos fait-divers infantilizantes, como a imagem da Pocahontas ou a tala colocada no dedo do meio numa alusão ao pirete. A necessidade de revelar tudo, inclusive num post-scriptum final que conta o futuro da rapariga, torna o filme impositivo e fechado, não deixando lugar ao espectador para o questionamento, numa espécie de representação absoluta deste campo de batalha das relações sociais. Um filme sobre feminismo não é necessariamente um filme feminista.


Editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas. 

ETIQUETAS