Entre Mares: Diferença e Dignidade em Kaurismäki

10 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Gisela Leal

 

Desta vez é o Báltico o mar que abre o filme, visto do porto de Helsínquia, na segunda parte da trilogia que Aki Kaurismäki dedica àqueles espaços com O Outro Lado da Esperança (2017), depois de Le Havre de 2011. Aqui, Kaurismäki retoma a temática ali iniciada (embora possamos considerar que O Homem sem passado, 2002, tocasse já nalguns dos pontos centrais): o percurso errante e esperançoso dos migrantes pela Europa. De novo, o confronto entre aquela condição e a de um homem de idade avançada, ele próprio em momento de restruturação de vida. Um à procura de um espaço, em fuga da guerra, depois de ter perdido quase toda a família; o outro a quebrar todos os laços, profissionais e pessoais, incluindo com a companheira alcoólica, também ela a procurar renovação e limpeza, potenciada pela ausência do companheiro.

De facto, todos personagens do filme exalam mutação, processos contínuos de transformação, aspeto central no filme e que é também claramente objetificado no restaurante que os reúne e que muda constantemente de “nacionalidade”. Essa mudança é simbólica do cruzamento cultural que subjaz à temática, quase a dizer-nos que somos todos um pouco de tudo e, ao mesmo tempo, a apontar subtilmente uma arma ao coração do capitalismo e da sua capacidade de se readaptar para cumprir o seu objetivo primordial.

 

É, pois, um filme sobre movimento, sobre mudança – geográfica e psicológica, exterior e interior, forçada e voluntária –, onde se abordam as questões centrais da sociedade e da política contemporânea: o fenómeno da migração e as suas consequências, como a xenofobia, os nacionalismos e a violência associada. Como lidam não os Estados, mas os povos, os indivíduos, consigo próprios e com o outro – o estranho, o diferente – e o incluem ou rejeitam.

 

Poderia não parecer uma tarefa fácil à partida, pois os personagens são desconcertantemente monocórdicos, mas o humor é uma ferramenta utilizada pelo realizador com uma mestria invulgar nestas circunstâncias: podemos estar a partilhar a angústia e a nostalgia dos protagonistas para rir da sua desgraça (que pode também ser a nossa) e do maquiavelismo capitalista. Como exemplo, tanto a sequência de transação de dinheiro de mão em mão, como as relações negociais e de patrão-empregado associadas são transformadas em caricaturas do modelo socioeconómico atual. Mais uma vez, e a cada momento, a preocupação humanista do realizador revela-se no extremo cuidado com que trata a dignidade dos seus personagens.

 

O mesmo mar encerra o filme, que na realidade não tem fim. O refugiado sírio que vemos chegar no início, negro do carvão em que vem escondido, vai sendo lavado pelo humanismo que encontra no seu caminho. Até voltar a olhar o Báltico aonde chegou, já sem medo. Mas na brancura da sua camisa está também a mancha de sangue, marca de um percurso: marca do outro lado da esperança?

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