“Não somos nada para algumas pessoas, mas somos tudo para outras”

13 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Beatriz Ferreira

Esta frase, usada como título, expressa bem a mensagem de Clara Roquet, realizadora e argumentista da curta-metragem El Adios, que narra a vida duma empregada, Rosana, natural da Bolívia, que trabalha em Espanha há dez anos para a família Vidal. Nos argumentos de Clara Roquet, como 10.000km, existe sempre a preocupação de haver uma ligação entre os personagens, seja mais evidente ou coberta pelos temas que irão ser explorados. Há uma amabilidade que irá ser manifestada por Rosana quando promete, logo de início, um cuidar da falecida Angela.

Durante a curta toda, temos sempre a clara perceção de que há um dilema entre a família e Rosana: é evidente o distanciamento com Mercé, a filha de Angela. Não existem emoções nem compatibilidade entre estas. No dia-a-dia de Rosana, ela trabalha num ambiente muito calmo, mas quando Angela morre, há uma interrupção na sua rotina. Mercé acaba por dizer que a sua mãe gostava muito de Rosana, mas através de palavras cuidadosamente pensadas, marcadas e insípidas. No dia do funeral, Mercé obriga-a a trabalhar e não lhe permite fazer o luto, o que a deixa perdida naquela casa escura.

O filme cria um ambiente claustrofóbico que penetra os espaços onde se desenrola a ação, mostrados através da escuridão e dá-nos a sensação de que há sempre nevoeiro dentro de certos compartimentos da casa. Há por vezes o desaparecimento dessa névoa quando Rosana está em cena com Angela, seja quando lhe está a mudar de roupa ou quando está com Júlia, neta de Angela, no velório da sua avó. O espectador sente o peso que sai dos seus ombros e suspira de alívio porque, naquele momento, já não há quaisquer preconceitos de cultura e raça.

Com esta curta, a realizadora parece querer mostrar ao espectador que é possível viver para além dos preconceitos que nos rodeiam, mas que temos que saber lutar por eles e criar uma pequena revolução, mesmo que as pessoas sejam mais hostis.

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