Resta-nos manter a dignidade

20 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Pedro Henrique

O cinema não tem de ter funções ou agendas sociais, não tem como missão educar a sociedade nem chamar a atenção para dramas da sociedade. Contudo, esta arte é composta por pessoas que vivem numa realidade e numa sociedade em particular. Assim, os filmes abordam questões que rodeiam essas pessoas e preenchem a tela com a luz que emana do que se vive. Os dois filmes que encerraram a sessão número cinco da competição internacional do Curtas, Los Desheredados de Laura Ferrés e Manodopera de Loukianos Moshonas, focaram-se em quotidianos de pessoas que ficaram sem o emprego, no primeiro caso, e de um trabalhador que reconstrói uma casa, enquanto um coro grego de jovens discute a realidade europeia no telhado.

O filme espanhol resiste contra o status quo através do Senhor Ferrés, um homem de 53 anos que se vê na iminência de encerrar o seu negócio devido à conjuntura (palavra-buraco negro, de onde nada se escapa) económica e social e apercebe-se que está naquela idade fatídica em que um novo emprego se afigura difícil. Poderia ser um Daniel Blake na Catalunha, uma vez que a sua personalidade não se compadece com o oxímoro económico que atravessamos. Pelo contrário, Ferrés resiste sendo cada vez mais honesto com ele próprio, tornando-se comicamente irascível com o que o rodeia, praguejando, insultando, abandonando os seus clientes a meio da viagem ou divertidamente atirando uma bola de neve à sua idosa mãe.

O título do filme helénico dá o mote para o que literalmente se vê: uma mão de obra, absolutamente indispensável, mas aparentemente menos valorizada, à qual a expressão, pela qual é denominada é enganadora, uma vez que também se constrói como uma mente de obra. As suas personagens destroem e reconstroem paredes, mas também pensam a Europa do alto de um telhado, para melhor serem ouvidos, por um poder longínquo. Conversa-se a céu aberto, na esperança que o Olimpo os ouça e resolva os seus problemas terrenos, não com receitas multinacionais, mas antes com uma fisioterapia social idiossincrática de cada nação.

Filmam-se aqui dois retratos de dignidade. Uma dignidade que em Manodopera se revela no cuidado com que Andi, um trabalhador, com um carinho manual usa uma máquina de polir para retirar resquícios de cimento de tijolos que serão reaproveitados para uma nova construção, uma metáfora daquilo que necessita ser realizado a nível político. Em Los Deshederados, a dignidade apresenta-se à mesa de jantar através de uma conversa entre mãe e filho, entre o bom senso maternal e uma irreverência juvenil. Os planos nos dois filmes são um convite para nos sentarmos com as personagens e, antes de mais, ouvirmos e vermos. Um assento para lhes dar o mínimo possível, a nossa atenção integral.

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