O diário eterno da existência efémera

23 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Teresa Vieira

A compulsão de registo da nossa presença na realidade, a vontade de captura dos momentos (mais ou menos) banais, dos momentos (mais ou menos) ideais da nossa experiência de vida mundana: estes são os impulsos que resultam de uma luta pessoal contra o esquecimento, personificados pelo avô de Luís Costa, que registou os mais diversos elementos que compuseram o filme que foi a sua vida. 

O Homem Eterno (2017) é uma obra que apresenta a vida do avô de Luís: um olhar sobre um outro olhar, uma visão de uma outra visão, uma herança memorial e afectiva que Luís Costa recebeu e que partilha, agora, com todos nós. Assim, com esta partilha, o registo individual e a memória familiar deste contexto específico extravasam os limites do (re)conhecimento e participa na construção da memória colectiva, contribuindo para o esboço da realidade dos tempos vividos e registados, para o retrato - singular e subjectivo - da identidade cultural e nacional.

Este é um filme da vida, da realidade; um ensaio que ilustra a eterna e inquietante questão da efemeridade da memória e da existência. Poderia ser sobre qualquer avô, sobre qualquer neto. Poderia ser sobre o meu avô, sobre mim. Tanto poderia ser, que o é: o (re)conhecimento da vida e do olhar do meu avô sobre ela foi-me transmitido - tal como o será para as vindouras gerações da nossa família - graças às suas gravações de Super 8, graças ao seu impulso de registo do mundo que o rodeava. Graças ao impulso de luta contra o esquecimento, de vontade de captura - ainda que não propriamente de exibição - da sua realidade - que representava, para si, algo da maior importância -, tenho hoje a possibilidade de observar as observações do meu avô, de olhar sobre o seu olhar, de ver o homem que o meu avô era. Assim, tive a oportunidade de (re)visitar as memórias que perdeu e que não teve a oportunidade de partilhar comigo. A sua luta pessoal contra o esquecimento resultou numa herança essencial para mim e para a minha família: a memória de quem a perdeu, a semente da realidade vivida de quem tudo esqueceu, e que germinará, aos poucos e poucos, dentro de todos aqueles que para ela olharem.

As reflexões de Luís Costa são da maior pertinência num momento em que tudo se procura registar, com um intenso medo de não se ser visto, de não se ser lembrado: de nos vermos perdidos e esquecidos num mundo de constantes partilhas, de constantes memórias, mas com um assolador e assustador grau de esquecimento. Dizem que a existência da memória depende do esquecimento. Mas é necessário, acima de tudo, manter viva uma memória à qual nos possamos agarrar. Cada vez mais, esta memória parece fugir da realidade e somos conduzidos a uma vivência superficial, (aparentemente) sem passado, sem ideias de futuro. Neste contexto, precisamos de memórias, precisamos de registos, precisamos de um cinema que nos mostre quem é o avô de Luís, que nos mostre o seu olhar e a sua vida, de forma a que possamos subtilmente construir a noção de quem somos, enquanto indivíduos e enquanto nação.

Este ensaio simples, de reflexão sobre uma vida, é essencial: pelo meu avô, por mim, pelo Luís, pelo avô do Luís, por todos os eles e elas que compõem o "nós" que somos. Pela eternidade do colectivo, necessitamos da eternidade (permanentemente fugaz) do indivíduo: necessitamos de um cinema da vida - no seu estado mais amador, mais simples, mais verdadeiro, mais puro.

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