Sexo, moscas e rock'n'roll

27 Julho 2018
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 3.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 26.º Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Isadora Libório

O realizador alemão Wolfgang Lehmann, cujos filmes já participaram diversas vezes do Curtas Vila do Conde, regressou ao festival em 2018 para apresentar a média-metragem Dragonflies with birds and snake(2011-2017), uma sucessão vertiginosa de imagens científicas de insetos que, expandidos à escala cinematográfica, comem(-se), copulam e proliferam-se. Sexo explícito entre moscas e libélulas: um verdadeiro pornô do reino animal. O filme, concebido inicialmente como uma experiência silenciosa, foi acompanhado ao vivo pelo trio português de rock psicadélico Black Bombaim e o percussionista João Pais Filipe, que improvisaram ritmos de acordo com a cadência acelerada das imagens.

Apesar de serem todos experientes em suas áreas, o filme-concerto foi uma grande estreia para todos. Antes do início da sessão, o próprio Lehmann confessou-se apreensivo e curioso para assistir pela primeira vez ao seu filme com banda sonora. E não era qualquer música,pois tratou-se de um verdadeiro concerto de rock psicadélico. Nada de esconder os músicos no fosso do teatro nem de fingir que o som partia das imagens: os artistas e seus instrumentos estavam em local de destaque ao centro do palco e suas sombras projetavam-se sobre o ecrã, de forma a modificar a própria imagem do filme. Suas presenças “incomodavam”,porque interferem na imagem e fazem barulho, e os compassos acelerados das improvisações musicais continuaram a ritmar os passos dos espectadores até muito depois do fim do filme-concerto. Por sua vez, o corte cirúrgico das sequências, a sucessão acelerada dos planos e a sobreposição de fotografias em néon ficaram gravadas nas retinas como quando olhamos muito tempo para o sol e continuamos a ver seu contorno mesmo de olhos fechados.

Justamente por estar em perfeita conformidade com a pulsação eletrizante do filme, é quase impossível dissociar a experiência sonora da visual. Uma vivência completa, holística, e, devido ao seu caráter efêmero e irreproduzível, tão difícil de analisar. Ouvir um álbum dos Black Bombaim (e até mesmo ir a um concerto do grupo) ou assistir ao filme de Wolfgang Lehmann em um outro contexto não equivaleriam ao momento compartilhado com centenas de outras pessoas, que transformou a caixa escura do cinema em uma profusão de cores e ritmos.

Uma experiência, como diria o músico brasileiro Tom Zé, “capaz de mexer com você todo, com aqueles os ouvidos que estão localizados nos intestinos, nos órgãos genitais, na bunda, todos esses ouvidos disseminados pelo corpo”. Todos saímos da sala baratinados, mas com a sensação de termos expandido nossos sentidos à escala cinematográfica, tal qual os insetos do filme. 

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