O experimental, o acidente e o espectador

27 Julho 2018
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 3.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 26.º Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

por Rebeca Bonjour

Chama
(2018), do multifacetado artista finlandês Sami van Ingen, é um filme experimental feito a partir dos únicos pedaços de película existentes de Fallen Asleep When Young(1937), um melodrama épico do realizador Teuvo Tulio, também ele finlandês. O filme tinha sido dado como perdido após um incêndio devastador, até a Cinemateca Francesa ter conseguido encontrar uma parte da película danificada, em 2015. Dos cerca de 20 minutos de película recuperados, Ingen aproveitou cerca de dois, que multiplicou através da câmara lenta e de uma série de efeitos visuais que ajudam no processo de manipulação e ressignificação das imagens e da narrativa original do filme de Tulio.   

O filme de Sami van Ingen abraça este acidente, explora-o e expande-o. No ecrã, um homem aproxima-se de uma mulher, naquilo que parece ser um jardim. As imagens sucedem-se em câmara lenta, deixando-nos em suspenso por cada um dos seus movimentos, tanto inesperados como expectáveis. De repente, a face da protagonista começa a mover-se. Não a cara; não como se mudasse a direção do seu olhar, mas antes como se a sua pele tentasse ganhar vida e fugir do corpo a que pertence. Vira, revira, retorce-se e transforma-se numa mancha epidérmica que ocupa gradualmente o ecrã. Estes são, em parte, efeitos causados na película pelo fogo e pela degradação temporal, em parte efeitos de manipulação que o realizador acrescentou. As faces dos atores vão assim aparecendo e desaparecendo sob estas formas, revelando-se ou apagando-se sob o peso dessas imagens danificadas e manipuladas.

Aliados a uma melodia lindíssima, estes efeitos transportam-nos para o campo do hipotético, do onírico, do sonho. Através das imagens à nossa frente perdemo-nos nas nossas próprias memórias e reflexões, como se de repente entrássemos no próprio mecanismo do pensamento, onde as imagens se vão dobrando e metamorfoseando, passando de umas ideias a outras, por vezes com significados muito precisos, por vezes sem qualquer sentido. 


No final, deixamos de ver qualquer vestígio do filme de que Sami van Ingen se apropriou. Chama transforma-se numa outra coisa, uma narrativa mutável e dinâmica que propõe novas leituras e interpretações a imagens concertas, imagens narrativas que deixam de o ser. O acidente passa de defeito a inerência. 

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