A magia da tecnologia

27 Julho 2018
Share on Facebook Share on Twitter

O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 3.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 26.º Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

por Diogo Lucena e Vale

The Rare Event
(2018) é a última colaboração entre Ben Rivers e Ben Russell. Os dois cineastas já antes tinham colaborado na longa A Spell to Ward Off the Darkness(2013) e partilhado a exposição Ruins/Rites/Runesna Solar – Galeria de Arte Cinemática, em Vila do Conde. Agora reencontram-se numa curta que toma como ponto de partida uma conversa entre diferentes filósofos.

O evento raro a que o título alude, é a magia, porventura a magia do cinema, na sua capacidade de encontrar ou produzir novas relações entre elementos da realidade. De facto, os temas discutidos pelos intervenientes do colóquio informam e refletem o trabalho que, por outro lado, Rivers e Russell desenvolvem a nível formal. No centro desta obra encontra-se um claro conflito entre os meios digital e analógico, pois não obstante The Rare Eventter sido filmado em película, o corpo verde de uma personagem batizada “The Green Man” serve de palco para as inconfundíveis estruturas tridimensionais, monocromáticas e digitais de Peter Burr, servindo de ponte entre digital e analógico, como uma interferência na verosimilhança que geralmente é associada à fisicalidade da película. A dada altura, vemos esta figura a contornar o círculo de interlocutores, numa sequência filmada num plano contínuo em que a câmara descreve igualmente uma trajetória circular entre as pessoas. Estas duas trajetórias cruzam-se várias vezes o que resulta num surpreendente contraste de texturas causado pela coexistência na tela do grão da película e das cores sólidas das imagens digitais. Chegamos então ao ponto em que o Green Man cobre toda a imagem: o plano, que, por força das limitações físicas do formato, não poderia continuar durante mais tempo, é continuado digitalmente. Vemos então a figura verde entre grandes formações de pixéis pretos e brancos, quiçá explorando um mundo novo.

O Green Man está presente, dizem-nos, para “gravar”. Contundo, cenas em que ele esteja mais próximo são caraterizadas por o som das vozes gravadas poder ser ouvido antes, e não depois, de serem proferidas pelos atores. Este homem de verde, então, enquanto símbolo do intrometimento do digital nos métodos analógicos, simboliza a possibilidade da disrupção da linearidade temporal e espacial.

Se é verdade que seria difícil com base neste trabalho dizer que Rivers e Russell veem no digital uma utopia cinematográfica, à semelhança de Peter Greenaway, eles parecem apontá-lo como algo que constituiu uma expansão do que anteriormente era possível. Um passo em frente que concomitantemente invoca o passado: a dupla parece ter encontrado uma forma de devolver ao cinema a sua magia primordial.

ETIQUETAS