Looking Back: Uma breve história da Competição Internacional do Curtas

26 Fevereiro 2020
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As curtas-metragens parecem estar outra vez na moda, com diversos autores consagrados a voltarem recentemente a este formato. Quer seja uma forma de experimentação com as possibilidades do cinema, quer seja como forma de contornar os constrangimentos de uma produção tradicional, ou o resultado imediato de uma crescente facilidade em partilhar uma obra com o público através das novas tecnologias, são vários os exemplos: desde as curtas de David Lynch e Paul Thomas Anderson para a Netflix, ao pequeno filme dos irmãos Safdie lançado na altura da estreia de “Uncut Gems”, a obras de Yorgos Lanthimos (“Nimic”) e Luca Guadagnino (“The Staggering Girl”) apresentadas em festivais, ou até o filme de Jonathan Glazer (“The Fall”) que interrompeu a emissão da BBC. Para muitos é um regresso a um formato que adotaram em início de carreira, um caminho das curtas à longa que faz parte do percurso normal de um realizador. É esse percurso que permite que as curtas sejam uma janela para o futuro dos seus autores, reflexo de uma altura de definição do seu cinema. 

O Curtas Vila do Conde, na sua competição internacional, orgulha-se de ter acompanhado vários nomes importantes do cinema mundial desde o início da sua carreira, e de oferecer a possibilidade de descobrir os autores exatamente nessa fase de ebulição da sua visão criativa. A história desta competição no Curtas é longa e fértil. É a competição que se mantém desde a primeira edição, em 1993, cujo objetivo sempre foi de dar a conhecer novos autores, numa fase inicial da carreira ou então apenas pouco conhecidos até aí do público nacional, como é afirmado no catálogo da primeira edição do festival: “Curta-metragem, curta-escala: são numerosos os grandes nomes de hoje que se forjaram nesta escola (...) assim, promover a curta-metragem é participar na construção do universo cultural presente, é preparar o universo cultural de amanhã”.

No campo da ficção, um dos nomes mais importantes que o festival acompanhou desde cedo é o cineasta de Taiwan, Tsai Ming-Lang: vencedor do prémio para melhor ficção em 2003 (“La Passarelle Disparue”) e em 2009 (“Madame Butterfly”), intercalava as suas longa-metragens com filmes de menor duração, muitas vezes repetindo personagens e temas, como forma de explorar novas variações para o seu cinema minimalista; outro exemplo notório será o tailandês Apichatpong Weerasethakul: alvo de uma retrospetiva no festival em 2006 que deu a conhecer o cineasta ao público português, e conhecido também como artista visual pelas suas instalações apresentadas na Solar - Galeria de Arte Cinemática, em 2009 foi exibida em competição a sua curta “A Letter to Uncle Boonmee”, um filme precursor da obra que venceria, um ano mais tarde, o Festival de Cannes - ilustrando assim a possibilidade recorrente de utilizar este formato para trabalhar um esboço do que poderá mais tarde ser uma longa-metragem. Hou Hsiao-Hsien é outro cineasta da “nova vaga” asiática que o festival também acompanhou, mas podemos também falar de outros nomes: desde o contingente americano, que deu a conhecer autores como Spike Jonze, Harmony Korine ou Sean Durkin, ou o recente período dourado do cinema romeno, que revelou nomes como Adrian Sitaru e Corneliu Porumboiu, ou a forte influência da produção francesa, desde Alain Guiraudie (premiado em 2002) a Louis Garrel (2011), a autores que hoje em dia redefinem a identidade do cinema francês, como Yann Gonzalez (premiado em 2006 e 2017) e Bertrand Mandico (Grande Prémio do Festival em 2011). Um dos exemplos mais recentes desta feliz coincidência de descobrir autores através da curta-metragem será o israelita Nadav Lapid, vencedor em 2016 do Grande Prémio do Curtas e recentemente galardoado com o prémio máximo do Festival de Berlim em 2019.


A animação sempre foi uma vertente fundamental deste formato, permitindo um maior contato com obras que de outra forma dificilmente seriam exibidas nas salas de cinema. Logo na primeira edição, em 1993, o festival premiou a obra de Aleksandr Petrov, cineasta russo que ganharia mais tarde em 1999 o Óscar para Melhor Animação. Na edição seguinte seria a vez de ficarmos a conhecer o trabalho de Nick Park, criador da série “Wallace and Gromit”, premiado esse ano pelo filme “The Wrong Trousers” (com o qual ganharia também o Óscar), seria novamente premiado pelo público do Curtas em 1996 com “A Close Shave” - com 4 prémios da Academia de Hollywood, é um dos nomes mais consagrados nesta área. O humor é uma das imagens de marca desta vertente do cinema e autores como o americano Bill Plympton, premiado em 2005 por “Guard Dog” e uma presença constante no festival desde 1997, ou a dupla belga Stéphane Aubier e Vincent Patar, autores da série “Panique au Village”, presentes no festival desde também desde 1997 (e premiados no festival em 2004, 2014 e 2019) são alguns dos autores que o Curtas acompanhou ao longo das suas várias edições. David O’Reilly é um autor que explora de forma original as possibilidades do 3D e a intersecção entre animação e videojogos, como é o caso de “Everything”, exibido em 2017 - além de várias presenças na competição, foi premiado em 2008 com o seu filme “RGB XYZ”. Ludovic Houplain, um dos autores de “Logorama”, galardoado com o Prémio do Público em 2009 e com o Óscar no ano seguinte, regressou em 2019 com “My Generation”, nova obra sobre os ícones do mundo moderno - é um acompanhamento dos seus “autores” que também faz parte da identidade do festival e desta secção competitiva.  


O documentário tem conhecido várias evoluções ao longo dos anos do festival, que tem acompanhado a crescente atenção dedicada ao formato e as tendências de diluição de fronteiras entre este género e a ficção. É algo que é refletido pelos autores que o festival tem dado a conhecer, como é o caso de Sergei Loznitsa, realizador ucraniano que alterna entre o documentário e a ficção e muitas vezes procura um equilíbrio entre os dois - foi premiado em 1999 pelo filme “Life Autumn” e em 2001 com “Polustanok”, e é um dos autores com mais presenças na competição internacional do Curtas. Outro nome importante que demonstra como o documentário e a ficção tem vindo a confundir-se nos últimos tempos é Nicolás Pereda, cineasta galardoado em 2009 (“Entrevista con la Tierra”) e 2014 (“El Palacio”). O documentário é também uma área abrangente, que oferece espaço a autores que exploram o lado experimentalista do formato, casos de Deborah Stratman (premiada em 2003 e com vários filmes exibidos ao longo dos anos) ou Thom Andersen (um dos autores que já trabalhou com o Curtas numa produção, e premiado em 2011 com “Get Out of the Car”), ou então o lado mais tradicional, como é o caso de Victor Asliuk, realizador bielorusso conhecido pelos seus retratos cândidos de figuras nas margens da sociedade. De um lado ao outro cabem diferentes definições e interpretações do que é o cinema, possibilidades imensas representadas por diversas cinematografias de vários países e culturas, e autores sempre por descobrir e à espera de nos surpreender com a imaginação do cinema. A verdade é que as curtas nunca deixaram de estar na moda.

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