Filmes Curtos para Dias Longos

8 Abril 2020
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Neste momento de recolhimento responsável e isolamento social, em que o mundo que conhecemos parece temporariamente suspenso, uma das coisas da qual sentiremos falta por esta altura será, entre muitas outras, a possibilidade de uma visita a uma sala de cinema e de nos deixar levar pela proposta de um filme. Enquanto esperamos pelo regresso aos dias normais, parece importante manter o contacto com esse hábito, mesmo que agora de uma forma virtual. A Agência da Curta Metragem tem levado a cabo uma iniciativa com o título “Filmes Curtos para Dias Longos” para ajudar precisamente a diminuir a distância em relação ao cinema como espaço comunitário e de partilha, apresentando num espaço virtual várias curtas-metragens de autores portugueses.

O Curtas Vila do Conde associa-se agora a essa iniciativa com um programa que celebra o formato e apresenta algumas das produções do Curtas ao longo dos últimos anos, de autores internacionais (títulos que serão disponibilizados na primeira semana do ciclo) e de autores nacionais (filmes disponibilizados na segunda semana), possibilitando assim a (re)descoberta dessas obras. Estes filmes contam como característica importante uma ligação à região norte de Portugal, e alguns deles têm mesmo uma relação directa com Vila do Conde, onde foram rodados. Este programa permite assim dar a conhecer não só conhecer parte da história recente do festival, como também da região onde este decorre. 

O Curtas anunciou recentemente o adiamento da edição deste ano para uma nova data, de 3 a 11 de Outubro, e esta será uma forma de manter o público cinéfilo do festival ligado aos filmes do Curtas, enquanto aguardamos por novidades. Os filmes serão colocados online neste espaço [https://vimeo.com/showcase/short-films-for-long-days], e os diferentes títulos serão divulgados nos próximos dias, juntando-se a esta lista. Esperamos assim contribuir de alguma forma para reduzir as saudades em relação ao cinema e manter as conversas em redor dos filmes, mesmo que não sendo à porta do auditório, para ficarmos todos mais perto. 

"O Sonho do Estivador" de Bill Morrison:
"Em 2015, o Curtas Vila do Conde juntou o cineasta Bill Morrison e a banda Lambchop para um projecto inédito de filme-concerto, feito a partir de pesquisas do realizador nos arquivos do ANIM. O resultado visual e sonoro dessa iniciativa e o sucesso do concerto levou à produção de uma curta-metragem. Kurt Vagner usufriu da oportunidade para explorar, numa longa canção intitulada “The Hustle”, sonoridades de krautrock e electrónica vintage até aí pouco visíveis na sua discografia. O filme foi também parte importante na promoção do álbum “FLOTUS”. (Miguel Dias)

"Noite Sem Distância" de Lois Patiño: 
"Filmado nas montanhas do Gerês, na fronteira entre Portugal e a Galiza, “Noite Sem Distância” parece situado ele próprio entre dois mundos, na fronteira entre a descrição vagarosa de uma prática que se repete desde sempre e um estranho sonho sensorial e hipnótico. A representação da passagem do tempo é precisamente um dos temas centrais da filmografia de Patiño, que aqui retrata uma noite igual a tantas outras, na qual o contrabando percorria aquela região, como uma sucessão de vários instantes que se alongam, retirando-lhe a especificidade do tempo e assim criando um carácter intemporal, quase sagrado, de uma beleza serena. O uso de um filtro de imagem negativa confere ao filme um aspecto transcendental e ilusório, porém serve também para transformar as personagens em vultos indistintos, como fantasmas-testemunhas da natureza, figuras que se confundem e entrelaçam com os elementos à sua volta ou “rastos de almas na paisagem”, como escreveu Teixeira de Pascoaes no poema citado no início do filme. Um percurso do real ao poético, esta é também uma pequena fábula sobre a resistência da memória." (João Araújo) 
 


Este filme foi produzido pelo Curtas Vila do Conde no âmbito do projecto CAMPUS, um programa de formação audiovisual no ensino superior com parcerias de várias universidades portuguesas da zona do Porto, que promoveu workshops e masterclasses com nomes importantes do cinema contemporâneo (nacionais e internacionais) e resultou na produção de filmes como este, com os realizadores a trabalharem com uma equipa composta por alunos do ensino superior.

"Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar" de Helvécio Marins Jr. e Felipe Bragança:
"Uma bela e cândida parábola sobre ideias pré-concebidas e amizades improváveis, "Fernando Que Ganhou um Pássaro do Mar", filmado entre o Bairro das Fontainhas, no Porto, e o Rio Janeiro, conta-nos a correspondência entre dois amigos que afinal não se conhecem, que começa quando Fernando, no Porto, recebe um pássaro enviado através do oceano. Esta troca de cartas, que é na verdade um monólogo no início, revela um curioso jogo de espelhos, no sentido em que começa por revelar ideias refletidas, possibilidades do que imaginamos estar do outro lado. Estamos em 2013 e Fernando, desempregado, divide o seu tempo entre um pequeno apartamento com poucas condições e o café da esquina, enquanto se queixa, por carta, do pássaro que não parece ser grande prenda mas que até ajuda a atenuar a solidão. Fernando imagina um Brasil paradisíaco, com as suas praias de água quente, sereias e índios nos seus palácios, e é exactamente isso que vemos do outro lado, a ideia fantasiosa de um Brasil imaginado aos olhos de um português à distância. Só mais tarde essa imagem é revertida para representar o Brasil contemporâneo, onde aflui dinheiro e pobreza ao mesmo tempo, criando enormes brechas. De repente o palácio transforma-se numa casa parecida à das Fontainhas e a metáfora, dissimulada no início, torna-se evidente: com a aproximação entre os dois pontos de partida, percebemos que os dois estão afinal mais perto do que poderiam imaginar." (João Araújo)


O filme, que teve a sua estreia internacional na secção Forum da Berlinale, é uma produção Curtas Metragens CRL, em co-produção com Duas Mariola, que assim estabeleceu uma ponte entre estruturas emergentes na produção de cinema em Portugal e no Brasil, num contexto de acentuada crise na Europa e na produção de cinema em Portugal. 

“O Milagre de Santo António” de Sergei Loznitsa:
"mi·la·gre (substantivo masculino): 
1. Facto sobrenatural oposto às leis da Natureza. 2. Portento, maravilha, prodígio. 
A benção dos animais que decorre todos os anos em meados de junho, na aldeia de Santo António de Mixões da Serra, no Gerês, tradição segundo a qual os agricultores locais levam os seus animais para a Igreja, parece em tudo um facto oposto às leis da natureza, com uma missa dedicada a estes animais. Pelo menos por uma vez os animais têm também direito a participar no culto, lado a lado com os santos, e o espectáculo insólito de uma procissão de cavalos a serem abençoados é uma pequena maravilha visual. Sergei Loznitsa, realizador ucraniano que alterna entre o documentário e a ficção e muitas vezes procura um equilíbrio entre os dois, é um dos autores com mais presenças na competição internacional do Curtas,  e premiado em 1999 pelo filme “Life Autumn” e em 2001 por “Polustanok”. Mais interessado nas pessoas e nos seus costumes do que propriamente no milagre enunciado, Loznitsa volta a explorar através de um olhar curioso as possibilidades de um filme focado em rostos anónimos, uma multidão de devotos que ganha assim relevo. Acompanhando este ritual de forma solene, este é um retrato sincero de como uma tradição ancestral é ainda hoje celebrada, reunindo a comunidade e os seus animais nas ruas desta aldeia na montanha." (João Araújo)


Este filme foi produzido pelo Curtas Vila do Conde no âmbito do ESTALEIRO, uma  plataforma contínua de programação cultural entre 2010 e 2012, que teve como objectivo criar um pólo de criatividade, agregando criadores e público em diferentes momentos. Durante estes dois anos, o ESTALEIRO produziu diversos filmes, organizou workshops e exposições, e proporcionou diversos concertos na cidade de Vila do Conde. 

Vila do Conde Espraiada” de Miguel Clara Vasconcelos:
"Na sequência da passagem do seu filme “O Triângulo Dourado”, prémio para melhor filme na competição nacional do Curtas em 2014, Miguel Clara Vasconcelos propôs-nos uma produção cuja base seria composta por arquivos pessoais e filmes amadores em super 8 ou 16mm, rodados em Vila do Conde, intercalados com uma parte ficcional filmada na actualidade. O nosso entusiasmo foi total: desde há alguns anos que falávamos sobre um projecto de pesquisa e digitalização de material com imagens da cidade, bobines esquecidas algures em sótãos e baús, mas ainda sem um destino concreto. Esta ideia do Miguel era a motivação que faltava para arrancar com esse projecto, que tomou a forma de uma residência artística a explorar em duas vertentes: um filme, que se viria a chamar “Vila do Conde Espraiada”, e uma exposição em forma de instalação audiovisual, integrada na programação da Solar – Galeria de Arte Cinemática, e que foi montada no Centro de Memória, chamada “Onde o Coração Se Esconde”, numa dupla referência a dois grandes escritores com uma ligação à cidade, José Régio e Ruy Belo. Segundo o realizador, “a memória de Vila do Conde é também a memória da minha mãe. Quando faleceu, tive uma vertigem. O tempo passado nessa vila-cidade parecia desaparecer bruscamente, escapar-me, morrer em mim. Na edição de 2014 do Curtas, percebi que era urgente trabalhar essa matéria sensível, mágica, que é a infância e que foi para mim Vila do Conde”.

 
“Vila do Conde Espraiada” reapropria esses pequenos filmes encontrados para, a partir daí, construir uma narrativa apoiada na revisitação de memórias da infância e da juventude, sobretudo da década de 1980. Trata-se de uma autobiografia ficcionada, alternando imagens do presente (ficção) e do passado (documental), onde a feliz opção por filmar em película 16mm fortaleceu a coesão entre as imagens. Também o fio condutor da narração é bastante cativante: a gravação de uma cassete de fita magnética, em forma de carta de amor com canções pelo meio, para uma namorada que se encontra longe. As palavras e as imagens criam, numa linguagem poética que já encontrávamos noutras obras do autor, uma envolvente emocional que mistura a história de amor com as memórias de acontecimentos dispersos, uns importantes, outros aparentemente insignificantes, mas são esses que fazem de nós aquilo que somos hoje em dia, e que nunca poderão ser dissociáveis de um determinado lugar, de uma certa cidade ou paisagem. De uma forma notável, o filme integra ainda o comentário político de uma época plena de convulsões, não abdicando do ponto de vista do entendimento de uma criança e recorrendo ainda, pelas imagens dos arquivos, aos grafittis políticos que eram comuns por essa altura em todas as cidades portuguesas. No centro desse comentário político surge uma das ideias mais felizes do filme, as ligações entre os meninos ricos e os meninos pobres (que para o Miguel enquanto criança eram os “meninos da avenida” e os “meninos do campo”, já que estes viviam em casebres que se vislumbravam nos terrenos baldios das traseiras do jardim de sua casa).  À liberdade política recentemente conquistada junta-se uma ideia de liberdade perdida, a da infância. Esta podia ser apenas uma aventura num passeio de bicicleta para lá das placas na estrada que indicam a entrada em Vila do Conde, ou um evento indecifrável numa tenda de campismo fora dos limites da cidade. Ou, como diz o realizador/narrador, “a liberdade das crianças está em não perceber muita coisa, não se sacrificar por dinheiro nem sofrer de amor”." (Miguel Dias)
   
"Rio Entre As Montanhas" by José Magro
“Nenhum homem pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando se entra novamente não se encontram as mesmas águas, e o próprio homem já não é o mesmo. O aforismo é grego, mas aplica-se à personagem principal deste filme rodado na cidade chinesa de Hancheng, sobre um homem em processo de descoberta pessoal. Este é um conto sobre esse homem, muito novo ainda e à procura ainda de encontrar o amor na sua vida, e que aqui percorre as ruas chuvosas da cidade como se navegasse um rio ao qual não regressaria de forma igual, transformado por cada encontro anterior. Ouvimos os seus pensamentos, as suas recordações e impressões sobre diferentes sentimentos, sobre os diferentes aspectos que o amor pode representar para si, obcecado com a ideia de algo que ainda não encontrou. Um retrato delicado e melancólico de um instante numa longa jornada sentimental, e até com algum humor na forma como joga com alguns preceitos do que é esperado de um filme sobre o romance, sempre debaixo do embalo de um olhar cuidadoso e perspicaz. Como diz a canção que ouvimos durante o filme: “a viver numa espécie de sonho acordado”.” (João Araújo) 


"A Glória de Fazer Cinema em Portugal" de Manuel Mozos
"Partindo de um facto histórico no mínimo curioso – uma carta que José Régio escreveu a Alberto Serpa, manifestando o interesse de fundar uma produtora para começar a fazer cinema –, em A Glória de Fazer Cinema em Portugal, Manuel Mozos ensaia um documentário falso onde reconstrói um possível envolvimento na arte cinematográfica de um dos intelectuais portugueses mais importantes, José Régio. Com um argumento exemplarmente urdido pela escrita de Eduardo Brito, o filme concretiza, de facto, aquilo que poderia ter sido uma das mais curiosas experiências cinematográficas do cinema português. Um exercício historicamente efabulado, mas que, por isso mesmo, nos deixa a navegar pelas possíveis cronologias alternativas da História." (Daniel Ribas)



Este filme foi produzido pela Curtas Metragens CRL, no contexto do seu programa Campus, envolvendo alunos de escolas de cinema do Porto. 

"Mahjong" de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata:
"O projeto ESTALEIRO funcionou como uma plataforma contínua de programação cultural entre 2010 e 2012, que teve como objetivo criar um pólo de criatividade em Vila do Conde. Durante esse período, o ESTALEIRO produziu diversos filmes, organizou workshops e exposições, e proporcionou diversos concertos na cidade. No âmbito da produção de filmes, propôs-se a vários realizadores olhares diversos sobre a região, e a dupla João Pedro Rodrigues/João Rui Guerra da Mata apropriou-se da Zona Industrial da Varziela, em Vila do Conde. Aí reside a mais significativa comunidade chinesa no norte de Portugal, oportunidade para os autores darem continuidade aos seus filmes de inspiração asiática, onde “Mahjong” ecoa, sobretudo, com “A Última Vez Que Vi Macau”. Em ambos os filmes, o olhar documental inicial vai abandonando quaisquer pretensões de um retrato realista de um espaço, dando lugar a um enredo marcado pela cultura cinéfila dos seus autores, que joga com códigos reconhecíveis de géneros cinematográficos, sobretudo o film noir e o suspense. Em “Mahjong” esses elementos aparecem filtrados por delírios hipnóticos e por uma tensão dissonante que parece querer despistar o espectador a todo o momento. O que parece ser uma investigação à maneira de um filme policial dá lugar a uma realidade paralela, onde manequins tomam o lugar de seres humanos, onde os pássaros e as flores são de plástico. Ilusões espectrais de mulheres enigmáticas e a noite naquele deserto industrial de ruas idênticas aumentam o mistério, que longas sequências ao volante de um automóvel aprofundam, fazendo por vezes lembrar “Vertigo”. A excelente banda sonora de Luís Fernandes, também ela de ecos hitchcockianos, sublinha esta busca metafísica e meta fílmica. Mais do que procurar os pontos cardeais de uma história onde, à boa maneira do film noir, os segredos por desvendar são mais relevantes que as frágeis convicções do espectador, embarcamos nesta narrativa estimulante e esteticamente deslumbrante como num jogo, juntando os elementos disponíveis como conjuntos de pedras de mahjong.” (Miguel Dias)


“A Rua Da Estrada" de Graça Castanheira:
Partindo do icónico livro de Álvaro Domingues, com o mesmo título, este filme procura mapear o conceito avançado pelo geógrafo: a ideia de que as estradas nacionais estão configuradas para serem locais de diálogo entre os vendedores e os viajantes. A panóplia de recursos visuais a que estas casas recorrem transforma a estrada numa rua sugestiva, estabelecendo uma estética própria, eminentemente kitsch. A poética de A Rua da Estrada encontra-se na encruzilhada entre uma cultura de consumo e uma descaracterização homogénea dos longos quilómetros das estradas nacionais. Este filme foi produzido pela Curtas Metragens CRL, no contexto do seu programa Campus, envolvendo alunos de escolas de cinema do Porto. (Daniel Ribas)
 


"Com início a 17 de março, em pleno período de estado de emergência, a iniciativa “Filmes Curtos para Dias Longos” da Agência da Curta Metragem, à qual o Curtas Vila do Conde se associou mais tarde com um programa especial, decorreu até ao passado dia 19 de maio. Nestes dois meses foram disponibilizados online e de forma gratuita 22 filmes de importantes autores, na sua maioria portugueses mas também com algumas participações estrangeiras, que atingiram mais de 25 mil visualizações, um número significante que reflecte a procura de objectos culturais num período de confinamento obrigatório.

Numa altura em que nos é pedido para ficarmos em casa, a cultura afirma-se como um bem essencial, e seja literatura, música ou cinema, ajuda a manter-nos ligados ao mundo. É uma forma de escape da rotina em tempos conturbados, uma companhia para aliviar a passagem do tempo e diminuir distâncias em tempos de isolamento social. É vital fazer esse reconhecimento valioso da cultura, e neste caso específico do cinema, na forma dos filmes que foram assim colocados online para todos que estavam em casa tivessem contacto com uma parte fulcral da cultura portuguesa, que tanto tem sido distinguida um pouco por todo o mundo. Agradecemos assim a todos os que contribuíram generosamente com os seus filmes para esta iniciativa, considerando sempre que um filme é também resultado de um esforço comum de uma equipa, de realizadores, editores, produtores, argumentistas, actores, directores e técnicos de fotografia ou som, ilustradores, coloristas, tradutores, decoradores, eletricistas, anotadores, entre outros. Este é um sector que vive constantemente em situação de instabilidade e precariedade laboral, cujo contributo importante para o bem-estar comum deve ser reconhecido e apoiado por todos, porque é importante saber que quando precisamos da cultura, ela está lá para todos." (João Araújo)

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