Looking Back: as histórias da Competição Nacional

5 Maio 2020
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A Competição Nacional teve a sua estreia na terceira edição do Curtas, em 1995. É a segunda competição do festival com maior longevidade, atrás apenas da Competição Internacional. A história desta competição é também a história do Curtas e intimamente ligada ao que de mais importante aconteceu no cinema português nas últimas três décadas. Isso torna-se evidente ao recordar alguns dos nomes que encontraram aqui um espaço para florescer e expandir a sua visão artística, em particular num período de renovação e reinvenção do cinema português a partir da década de 90, que levou mesmo à popularização da expressão “Geração Curtas”, cunhada por Augusto M. Seabra. Escrevia este em 1999, no jornal “Público”: «A maioria destes autores diferenciam-se dos mais velhos no sentido de que não os anima nenhum particular espírito de missão em reproduzir uma qualquer imagem dominante do “cinema português”, interessam-se em fazer arte cinematográfica e basta». Uma prova da validade atual desta afirmação é a forma como durante o período da última crise económica em Portugal e de escassez de apoios ao cinema, as curtas-metragens voltaram a mostrar-se essenciais para vislumbrar o futuro do cinema português.

Um dos autores mais importantes associados à “Geração Curtas” e cujo percurso foi acompanhado pelo festival de perto desde o início é Miguel Gomes, que apresentou o seu primeiro filme “Entretanto” na edição de 1999. O filme, que acompanha um trio de adolescentes em dias de Verão sob o efeito de encantamentos amorosos e indefinições internas num retrato etéreo e melancólico, venceu o prémio de Melhor Realizador da Competição Nacional, revelando desde logo um cineasta em afirmação, à procura do seu próprio cinema. Nos anos seguintes Miguel Gomes seria uma presença regular no festival, reinventando-se a cada novo filme, como “Inventário de Natal” (2000), “Kalkitos” (2002), “31” (2002) e “Cântico das Criaturas” (2006), com o qual venceu o prémio para Melhor Filme. O festival assistiria mais tarde à estreia das suas longas-metragens, como “Aquele Querido Mês de Agosto” (2008) e a trilogia “As Mil e Uma Noites” (2015). 


Outro autor indissociável deste período do cinema português e que deixou por várias vezes a sua marca nesta competição, é João Nicolau. O realizador apresentou a sua primeira obra na edição de 2006, “Rapace”, um poema-musical com notas sentimentais e humorísticas sobre as aventuras de um rapaz, com a qual venceu o Grande Prémio para Melhor Filme; mais tarde com “Canção de Amor e Saúde” (2009) seria premiado com o Melhor Filme da Competição Nacional, e apresentaria ainda “O Dom das Lágrimas” (2012, fora de competição) e “Gambozinos” (2013, menção honrosa da secção Curtinhas), filmes que permitiram acompanhar o apurar de um singelo sentido visual.


Porém, falar da “Geração Curtas” é falar de Sandro Aguilar, que tem sido uma presença constante ao longo do festival quase desde a sua primeira edição, e é um dos nomes mais relevantes do cinema português dos últimos anos, não só pelo seu trabalho como realizador e editor, mas também pelo seu importante trabalho como produtor (produziu por exemplo os primeiros filmes de Miguel Gomes e João Nicolau, mas também filmes de Manuel Mozos e Ivo Ferreira). Em 1998, era citado por Augusto M. Seabra: «Quem está a fazer hoje curtas-metragens tem um olhar diferente das gerações precedentes. Alguns são provocatórios e apostam na possibilidade de não se precisar de uma história narrativa. Assim se criam cineastas potenciais». Com um estilo visual distinto, mais próximo do experimental e sensorial, o Curtas tem permitido acompanhar ao longo dos anos as diferentes permutações de um cineasta sempre disposto a arriscar: em 1998 foi o vencedor do Prémio para Jovem Cineasta Português com o filme “Estou Perto”; em 2001 o seu filme “Corpo e Meio” foi o vencedor do Prémio para Melhor Filme da Competição Nacional, e também o nomeado do festival para os European Film Awards, nomeação que repetiu em 2005 com “A Serpente”; depois de várias presenças na competição Nacional, apresentou em 2017 a sua segunda longa-metragem, “Mariphasa”.


Se ao longo dos diversos palmarés do Curtas na sua história de 27 edições, alguns filmes portugueses foram galardoados em categorias que vão além desta competição, só em 2006 o prémio principal do festival - o Grande Prémio para Melhor Filme em Competição (que engloba todos os filmes em competição, nacionais e internacionais) foi atribuído pela primeira vez a um filme português: “Rapace” de João Nicolau. Se só ao fim de 13 edições este prémio foi atribuído a um português, voltaria a acontecer outra vez só em 2013, na vigésima edição do Curtas, com “Carosello” de Jorge Quintela. No entanto, recentemente algo parece ter mudado e esta barreira quebrada: Filipa César foi galardoada com o Grande Prémio em 2015 por “Mined Soil”, e em 2017 Marta Mateus recebeu igual distinção por “Farpões Baldios”.


Estas novas ocorrências parecem também assinalar uma outra tendência, que é o facto de cada vez mais os filmes premiados pertenceram a realizadoras portuguesas, resultado de uma bem-vinda alteração no paradigma no panorama da produção nacional. Além dos nomes referidos, o Curtas tem dado a conhecer novas autoras como Ana Maria Gomes (em 2016, com “António Lindo António”), Alice Eça Guimarães e Mónica Santos (Prémio do Público em 2015 com “Amélia & Duarte, e em 2018,  com “Entre Sombras), Salomé Lamas (Melhor Documentário em 2012 para “Comunidade”) e Leonor Noivo (menção honrosa em 2012 para “A Cidade e o Sol”), ou os mais recentes prémios na categoria de Melhor Realizador: Margarida Lucas (2015 com “Rampa”), Ana Moreira (2018 com “Aquaparque”) e Mariana Gaivão (2019 com “Ruby”). 


Vários outros nomes ao longo dos anos ajudaram a construir uma identidade do Curtas e também uma nova identidade para o cinema português. O primeiro português premiado no Curtas foi na verdade Abi Feijó, nome incontornável da animação nacional, na segunda edição em 1994, ainda antes da criação de uma Competição Nacional. Em 1995 o primeiro prémio para a Competição Nacional foi atribuído a Marco Martins (por “Mergulho de Ano Novo”, co-realizado com João Braz), realizador que mais tarde seria premiado em Cannes com a sua primeira-metragem “Alice” (2005); tal como Martins, outros nomes foram distinguidos em início de carreira com o prémio para Melhor Filme, como Inês de Medeiros em 1998, Margarida Cardoso em 1999, Jorge Cramez em 2002, Rodrigo Areias em 2008; ou ainda Ivo Ferreira em 1999 (prémio Jovem Cineasta Português), Daniel Blaufuks em 2001 (Melhor Realizador). Além destes nomes, o festival permitiu descobrir as incursões no formato da curta-metragem de autores consagrados, como Pedro Costa (prémio para Melhor Filme em 2011, com “O Nosso Homem”) e João Pedro Rodrigues (2012, nomeação para os European Film Awards com “Manhã de Santo António” e 2017, Melhor Filme com “Où en êtes-vous, João Pedro Rodrigues?”), este uma presença assídua no festival, várias vezes também em colaboração com João Guerra da Mata, como no caso do filme encomenda do Curtas, “Mahjong” (2013).


Na já longa história do Curtas, e dos inúmeros e valiosos autores que passaram pelo festival, há porém uma curiosidade a salientar: três nomes venceram por duas vezes a Competição Nacional, deixando a sua marca no palmarés com o seu cinema do social ao documental ao íntimo e pessoal: Pedro Caldas, com “Pedido de Emprego” em 2000, e em 2007 com “Europa 2007”; Miguel Clara Vasconcelos com “Documento Boxe” em 2005 e “O Triângulo Dourado” em 2012; e Basil da Cunha com “À Côté” em 2010, e “Os Vivos Também Choram” em 2012. Recentemente tem sido Gabriel Abrantes, outro prolífero autor com várias presenças no Curtas, cuja veia criativa revela um irreverente e imprevisível autor sempre disposto a arriscar e a reinventar-se, que tem sido distinguido com vários prémios: menção honrosa em 2011 (com “Fratelli”, co-realizado com Alexandre Melo), Melhor Realizador em 2016 e 2017 (com “A Brief History of Princess X” e “Os Humores Artificiais”), e Melhor Ficção em 2019 (“Les extraordinaires mésaventures de la jeune fille de pierre”). 


Se a história do Curtas e da competição nacional é a soma dos seus vários autores e visões, o seu futuro será também um espelho do que presenciamos até agora: surpreendente, entusiasmante, tentador, vital e em permanente renovação e reinvenção, que corresponda a um desejo de intervir artisticamente sobre o mundo. Ou seja, regressando ao texto sobre a “Geração Curtas”: «fazer arte cinematográfica e basta».

(João Araújo)

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