Looking Back: as histórias da Competição Experimental

25 Junho 2020
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Apesar de mais recente, a Competição Experimental é já uma das imagens de marca do Curtas Vila do Conde, apresentando a vanguarda e o melhor do que é feito anualmente no mundo dentro desta área, através de uma seleção rigorosa, mas também arrojada. É no cinema experimental, associado em grande parte às curtas-metragens, onde encontramos as propostas mais arriscadas, uma procura permanente em esticar os limites do cinema, quer nos seus diferentes formatos físicos ou digitais, quer nas suas formas não narrativas, um espaço onde se procura encontrar algo de inovador, algo que ainda surpreenda. No Curtas, a vertente experimental ganhou um espaço próprio, ainda antes de se tornar numa secção competitiva oficial, já que alguns dos filmes exibidos e até premiados se aproximavam desse campo. A partir de 2003 começou-se a premiar, dentro da Competição Internacional, o melhor filme experimental, como já acontecia com o documentário ou a animação, por exemplo. E desde 2009, ou seja, há onze edições, que o festival apresenta uma Competição Experimental, um programa autónomo que cada vez mais se afirma como uma vertente muito entusiasmante do cinema.

É na edição de 1995 do Curtas, a terceira, que podemos desde logo começar a reconhecer alguns dos nomes mais importantes do cinema experimental das últimas décadas, e uma prova que mesmo antes da criação de uma competição própria, este cinema já ganhava protagonismo no festival. Nessa edição, foram premiados dois nomes cujo trabalho poderia ser acompanhado nas edições futuras: Matthias Müller, Grande Prémio para Melhor Filme em 1995, é um realizador prolífico e inovador, que desde cedo trabalhou imagens de found footage para criar belos filmes-poema ou filmes-ensaio, apresentando mais de vinte filmes ao longo da história do Curtas, em nome próprio e em colaboração com Christoph Girardet, cineasta precursor na forma como utiliza imagens de outros filmes para criar novas histórias. Nesse ano de 1995 foi também premiado com uma menção honrosa Jay Rosenblatt, cineasta que explora as possibilidades do formato do documentário e do recurso a imagens de arquivo para procurar novas formas de reavivar o passado - seria também galardoado em 1998 com o prémio para Melhor Documentário e vários dos seus filmes seriam exibidos na Competição Experimental.

O primeiro prémio com o selo de Melhor Filme Experimental acontece em 2003, ainda como parte da Competição Internacional, para a realizadora americana Deborah Stratman, pelo filme “In Order Not to Be Here”. Stratman, uma multifacetada artista e uma das vozes mais originais e distintas da sua geração, estaria ainda presente em diversas edições do festival, quer na Competição Internacional, quer na Experimental, prova do seu cinema híbrido e entre géneros, mas sempre político e pessoal. Seria novamente vencedora em 2014, com “Hacked Circuit”. Rosa Barba é, a par de Deborah Stratman, a única a ser duplamente premiada nesta competição, vencedora em 2016 com “Bending To Earth” e em 2017 com “From Source to Poem”, obras que abordam a natureza ambígua da realidade e da memória, e que examinam a sociedade, o Homem, ambientes e paisagens como materiais para criar novas possibilidades, novas histórias, novas formas assombrosas de olhar para o mundo.

Outro nome que cedo se destacou no Curtas é Nicolas Provost, vencedor do prémio para Melhor Filme Experimental em 2004 com “Oh Dear”. Cineasta belga cujas obras foram presença assídua no festival durante vários anos, explora a natureza ilusória do cinema e as fronteiras entre a ficção e a realidade, quando por exemplo transforma o quotidiano num filme de ficção que segue códigos narrativos e cinematográficos em “Plot Point” ou “Stardust”. Em 2005, foi a vez de Peter Tscherkassky ser premiado com “Instructions for a Light and Sound Machine”, um realizador que conta com mais de dez presenças no Curtas, com obras que exploram continuamente as possibilidades do arquivo e found footage. Ainda antes da criação desta competição, Ben Rivers foi premiado em 2008 com o Melhor Filme Experimental, por “Ah, Liberty”. Rivers é um dos artistas contemporâneos mais relevantes pela sua constante procura de inovação e experimentação na representação da relação do Homem com a sociedade, recorrendo muitas vezes a imagens de 16 mm; o realizador conta com diversas participações no Curtas, quer seja em nome próprio, quer em colaboração com Ben Russell, outro inovador artista multimédia, que trabalha sobre a história do cinema e a gramática cinematográfica, numa forma de antropologia visual - a dupla foi homenageada na edição de 2005.

O primeiro prémio desta competição criada em 2009 foi para o prolífico artista F. J. Ossang - além de realizador é escritor, editor, poeta e músico. O seu trabalho cinematográfico, sempre enigmático, de influência punk e de um estilo idiossincrático, foi homenageado com uma retrospetiva integral em 2017 no Curtas. Vencedor em 2011 da Competição Experimental com “The Push Carts Leave Eternity Street” e um realizador com presença regular no Curtas, Ken Jacobs é um dos nomes fundamentais do cinema experimental das últimas décadas: desde os anos 60 e 70 na vanguarda da exploração das possibilidades do cinema, o seu trabalho passa muitas vezes pela apropriação e montagem de imagens de found footage para criar as suas próprias obras, mas também pela utilização dos seus home movies, com algumas aventuras por experiências estereoscópicas e tridimensionais, sempre na procura de inovação e novos caminhos. Jacobs foi um dos realizadores em foco na edição de 2010, e venceu o Grande Prémio para Melhor Filme na edição de 2007, pela dupla de filmes “Capitalism: Child Labor” e “Nymph”.
Bruce Conner é outro gigante do cinema experimental e avant-garde, realizador de algumas das mais importantes obras deste género, e que conta também com diversas passagens pelo Curtas, na Competição Internacional e mais tarde Experimental, mas também como alvo de homenagem em 2011 pela forma como o seu trabalho pode ser visto como precursor dos vídeos musicais. Na edição de 1997 o Curtas dedicou uma retrospectiva a Kenneth Anger, outro pioneiro e nome fundamental do cinema experimental e da sua história - desde a sua primeira curta de 1937 que este realizador underground reinventa linguagens e possibilidades, numa fusão entre o abstracionismo e o conceptual, que o festival tem dado a conhecer ao longo dos anos. Um dos autores em destaque na edição de 2002 e presente em diferentes secções e edições do Curtas, especialmente entre 1999 e 2005, Gustav Deutsch é outro cineasta experimental cujo trabalho o festival tem acompanhado, destacando-se o seu interesse na fenomenologia do filme (película) e a sua série de filmes “Film-ist 1-6”. Figura incontornável do movimento cinematográfico estruturalista e da arte minimalista, Morgan Fisher tem uma longa carreira como artista multifacetado, focando a sua actividade fílmica na obsolescência da película como meio físico e de expressão artística - foi o vencedor da Competição Experimental em 2018, com “Another Movie”, uma espécie de homenagem a “A Movie” (1958), o filme de Bruce Conner que é reconhecidamente um dos trabalhos mais marcantes da história do cinema experimental.
Além destes nomes icónicos do cinema experimental, o Curtas procura dar a conhecer novos talentos emergentes, cineastas dispostos a arriscar de forma a encontrar um olhar diferente sobre o cinema. O Curtas tem acompanhado e dado a conhecer em primeira mão autores que podemos enquadrar já como de uma outra geração de cineastas experimentais. Bill Morrison, cujo trabalho o Curtas exibe desde 2004, é um dos artistas actuais mais relevantes no campo do found footage, utilizando as deformações e distorções encontrados na deterioração da película de filme para criar assombrosas novas composições, como é o caso de “Light is Calling”. O austríaco Rainer Kohlberger tem sido uma presença assídua nos últimos anos, continuando a explorar os territórios entre cinema e música, e a trabalhar a partir de uma variedade de algoritmos com o objetivo de criar, e posteriormente manipular, o ruído da informação da própria imagem de uma forma sempre inovadora. 


Premiado com uma Menção Honrosa em 2017 com o filme “Fajr”, Lois Patiño é um cineasta galego cujas obras hipnóticas exploram noções à volta do espaço e do tempo, da natureza efémera da vida, mas também da identidade numa experiência transcendente, quase religiosa, que apenas a poesia do cinema permite. Ajna Dornieden e Juan David González Monroy, dupla de realizadores radicados em Berlim, foram premiados em 2018 com uma Menção Honrosa pelo filme “Comfort Stations”, uma reinvenção dos filmes que constroem uma narrativa a partir de material arquivo, acrescido de uma banda-sonora, que se desenrola como um teste psicológico ao espectador. Com apenas duas obras exibidas no Curtas mas de uma inovação irreverente e uma visão poética, a realizadora brasileira Ana Vaz é uma das artistas mais singulares a explorar atualmente o género experimental.

Vencedora da competição em 2019 com “Suspended Island”, a dupla Jane e Louise Wilson conta já com uma consagrada carreira como artistas multifacetadas (nomeadas para o Prémio Turner em 1999). Nos últimos anos os seus filmes, que têm sido exibidos no Curtas, exploram um interesse numa geografia urbana perdida e de uma arquitetura alternativa, mostrando paisagens escondidas, que a maioria das pessoas não vê e que assim ganham novos significados e atenção. É notório nos últimos anos um crescente reconhecimento das realizadoras desta área, cada vez mais premiadas, como os casos referidos de Deborah Stratman, Rosa Barba, Jane e Louise Wilson, Ajna Dornieden, ou da dupla indiana Shai Heredia e Shumona Goel, vencedoras da Competição Experimental em 2013, com um trabalho inventivo que olha para o próprio cinema.
Ao longo dos anos foram várias as valiosas participações de realizadores portugueses nesta competição, autores que têm vindo a trabalhar o cinema experimental como força criativa para desbravar novas formas de expressão artística, reflexo também da enorme vitalidade em Portugal desta vertente do cinema. Jorge Quintela, vencedor de uma Menção Honrosa em 2010 pelo filme “Ausstieg” - um filme de bolso num comboio entre duas estações em Berlim - é o único português a premiado nesta competição, mas vários outros nomes têm exibido as suas obras, revelando-se e afirmando-se como indissociáveis do cinema experimental em Portugal, casos de Edgar Pêra, Filipa César, Daniel Barroca, Paulo Abreu, Mónica Baptista, João Onofre, Salomé Lamas, Luís Alves de Matos e Pedro Maia.
Esta pluralidade de nomes, de diferentes abordagens do cinema experimental, de diferentes possibilidades, de diferentes gerações e influências, é um reflexo do experimental como um último reduto onde se desenham, filme a filme, os caminhos do cinema, a partir do passado e a pensar no futuro.

(João Araújo) 

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