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Looking Back: Um olhar sob a Competição Take One!

27 Julho 2020
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A competição Take One!, criada em 2005, surge com o objetivo de focar a atenção sobre o melhor que estava a ser feito em Portugal a nível de filmes de escola, criando dessa forma uma espécie de plataforma que funcionasse como uma mostra de novos talentos emergentes no cinema nacional, que despontavam nas escolas de cinema. Mesmo tendo o Curtas criado o Prémio Jovem Cineasta Português, atribuído desde 1997, com esta nova competição a ideia era levar ainda mais longe o foco em novos realizadores e primeiras obras, criando um espaço onde pudessem ser exibidos e valorizados. Seria também uma forma de afirmar o sucesso do cinema nacional revelado pela Geração Curtas e do formato como ferramenta essencial para novos realizadores, cuja afirmação não seria fruto do acaso mas sim de um trabalho abrangente e continuado, que não seria algo temporário mas algo que estava para ficar. As sessões desta competição são das mais concorridas e com uma aura singular, por darem a hipótese de ver o entusiasmo de quem apresenta o seu trabalho pela primeira vez numa sala de cinema, já que a maior parte dos novos realizadores se encontra presente perante esta oportunidade.

A história conta que se a Geração Curtas corresponderia a uma maior internacionalização e reconhecimento de autores portugueses no estrangeiro, nunca o cinema nacional, e em particular os seus novos autores, atingiram um patamar tão elevado como nos mais recentes anos, conquistando prémios inéditos em importantes festivais de cinema e de forma continuada: por exemplo, entre 2012 e 2017, só no Festival de Berlim, 3 filmes portugueses receberam o prémio máximo para as curtas-metragens. Na verdade, poucas iniciativas semelhantes podem gabar-se de ter dado a conhecer em primeira mão os trabalhos de realizadores que viriam mais tarde a serem galardoados com os prestigiados prémios do Festival de Cannes e de Berlim, como os casos de João Salaviza e Leonor Teles. Vencedor em 2005 do Take! com o filme “Duas Pessoas”, João Salaviza é talvez o nome mais notável entre os que passaram por esta competição, realizador que desde cedo impressionou pela maturidade e assertividade do seu olhar, que combina preocupações sociais com um estilo visual aprimorado e sofisticado, colecionando um currículo invejável, vencedor da Palma de Ouro do Festival de Cannes para Curtas Metragens em 2009 com “Arena” e o Urso de Ouro do Festival de Berlim com “Rafa” em 2012, “Montanha” - a sua primeira longa-metragem - teve a estreia no Festival de Veneza em 2015. Leonor Teles, vencedora da competição Take One! em 2013, com “Rhoma Acans”, em 2016 viria a repetir a façanha portuguesa de conquistar o prémio principal do Festival de Berlim para curtas-metragens com “Balada de um Batráquio”, obras que revelavam um estilo tão irreverente como confiante, interessada na questão da identidade, olhando quer para o passado quer para o futuro. É actualmente uma das maiores promessas do cinema nacional - a sua primeira longa-metragem teve estreia no Cinéma du Réel e a sua mais recente obra foi selecionada para o Festival de Veneza. 

Outro nome que tem vindo a consolidar um currículo assinalável, com vários prémios e presenças nos mais importantes festivais de cinema é Salomé Lamas. Cineasta que trabalha de forma inovadora a fronteira entre formatos como o documentário, experimental e a ficção, que reinventa constantemente o seu cinema, conta com distinções em importantes festivais como FID Marseille, Visions du Réel, DocumentaMadrid e DocLisboa - a sua primeira longa-metragem “Terra de Ninguém” teve estreia no Festival de Berlim em 2013. Com várias presenças quer na competição nacional quer na competição experimental do Curtas, estreou-se no festival precisamente na competição Take One! de 2009, com o seu filme “O Palimpsesto Da Rapariga Cisne Ou Choveu Durante Dois Dias E A Paisagem Alterou-se”. Autor de alguns dos trabalhos mais originais do cinema português recente, Jorge Jácome, depois de uma passagem pelo Take One! em 2010 com “Deixa Cair a Noite”, tem vindo a afirmar-se como alguém a seguir atentamente: com uma passagem pelo Festival de Berlim com o seu último filme, “Past Perfect” foi premiado com o Grande Prémio de Curta Metragem da Competição Internacional da edição 2019 do IndieLisboa e nomeado para os European Film Awards, e o seu filme anterior “Flores”, também vencedor no IndieLisboa (Novo Talento), foi selecionado para o Toronto International Film Festival. 

Mariana Gaivão é um dos casos recentes mais notórios da passagem do Take One! para a Competição Nacional do Curtas, que foi também construindo uma filmografia admirável, a par de um percurso de sucesso em festivais de cinema. A realizadora participou na edição de 2007 com o seu filme de escola “Sitiados”, para mais tarde ser seleccionada para a Competição Nacional em 2012 (“Solo”), 2014 (“First Light”) e em 2019 foi distinguida com o prémio para Melhor Realização, com o seu belíssimo e hipnótico “Ruby”, filme sobre um fim de verão e de infância, que teve a sua estreia no importante festival de Roterdão. Também Sofia Bost tem tido um percurso assinalável: em 2015 estreava-se no Take One! com o seu filme de escola “Andorinhas”, e em 2019, o seu primeiro filme - mas já com um olhar seguro e complexo - “Dia de Festa” estreava na prestigiada Semaine de la Critique em Cannes - a curta foi também exibida no programa da Competição Nacional do Curtas.

Com uma dupla passagem pelo Take One!, em 2006 com “Quinta da Curraleira” e 2008 com “desPolido + desPolido ii”, Tiago Hespanha é um dos autores portugueses mais interessantes e arrojados a explorar as possibilidades do género do documentário - a sua mais recente longa-metragem “Campo” foi exibida no Cinéma du Réel e premiada em Locarno. “Anteu”, o filme mais recente de João Vladimiro foi provavelmente das mais obras mais originais e mais bem recebidas (e discutidas) na Competição Nacional do Curtas de 2018, arrecadando passagens pelo Festival de Roterdão e o New York Film Festival, exibindo a visão singular do seu realizador, que estreou-se no Take One! em 2006 com “Pé na Terra”. A dupla Vasco Sá e David Doutel, que se tem afirmado como das mais importantes a trabalhar o cinema de animação em Portugal, e que tem colecionando importantes prémios ao longo da sua carreira, estreou-se em 2008 no Take One! com “Obtuso” (co-realizado com André English), para participarem mais tarde na Competição Nacional com “Fuligem” (2014), pelo qual foram distinguidos com o prémio para Melhor Realização e o Prémio do Público, e “Agouro” (2018).

São vários os novos talentos do cinema português, que tiveram uma passagem recente pelo Take One! e podemos agora acompanhar em diferentes momentos de confirmação do seu potencial: Pedro Peralta, que foi premiado com uma Menção Honrosa na sua passagem pelo Take One! em 2012, com “Mupepy Munatim”, é mais um caso de um cineasta que mais tarde viria a ganhar reconhecimento internacional: a sua impressionante curta-metragem “Ascensão” foi escolhida para a Semaine de la Critique do Festival de Cannes, em 2016, e depois premiada no Indielisboa. Também premiado com uma Menção Honrosa no Take One!, em 2015 com “Sala Vazia”, Afonso Mota foi posteriormente premiado no Indielisboa em 2019 por “Poder Fantasma”; Diogo Baldaia participou em  2014 com “Vulto”, seria mais tarde vencedor da Competição Nacional do IndieLisboa 2017 e selecionado para a Competição Nacional do Curtas em 2019; são nomes a seguir com atenção, tal os premiados recentemente do Take One!: autores como Duarte Coimbra, vencedor em 2018 com “Amor, Avenidas Novas”, deslumbrante filme que foi distinguido com o Prémio Novo Talento no IndieLisboa 2018 e exibido na Semaine de la Critique do Festival de Cannes; Inês Vila Cova, premiada em 2017 com o filme  “De Gente Se Fez História”, feito a partir de uma colecção de filmagens amadoras de arquivo em VHS, filme contra o esquecimento, de registos e afetos familiares que são também a história de uma comunidade, as Caxinas; e em 2019, Tomás Paula Marques, com o filme “Em Caso de Fogo”, drama emotivo e sensível sobre um protagonista solitário que apenas quer “fingir que nada aconteceu e continuar a dançar” - estes serão certamente nomes a acompanhar nos próximos tempos e é essa a missão do Take One!, não só oferecer a oportunidade de descobrir novos talentos mas também uma janela para o futuro do cinema português.
(João Araújo) 

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