Curtas Drive-In: sessão especial com filmes premiados

3 Julho 2020
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No dia em que seria inaugurada a 28ª edição do Curtas Vila do Conde, 11 de julho, o festival vai celebrar o formato da curta-metragem de forma alternativa, com uma sessão especial no espaço Drive-In, instalado na Seca do Bacalhau em Vila do Conde.

Esta será uma sessão adaptada aos tempos actuais, que relembra a nostalgia das antigas sessões Drive-in, exibindo filmes premiados ao longo das 27 edições do Curtas. Destaque nesta sessão para Logorama de François Alaux, Hervé de Crécy e Ludovic Houplain, vencedor do título de Melhor Curta-metragem de Animação nos Óscares e Panique Au Village: La Bûche De Noël, de Stéphane Aubier e Vincent Patar. No Drive-In vilacondense serão também exibidas algumas curtas portuguesas, como o caso da multipremiada animação Amélia & Duarte ou A Ver o Mar, rodada num local próximo do cenário onde será exibida. Nota ainda para o universo particular de Gabriel Abrantes, com a exibição de Os Humores Artificiais, estreada na Berlinale. Realizada em parceria com a Câmara de Vila do Conde, esta sessão terá acesso livre, mas implica inscrição obrigatória através do site da entidade.

A completar este momento simbólico, o Curtas disponibilizará online mais 16 filmes premiados no festival. Disponíveis de 11 a 19 de julho, a um preço especial no serviço Video on Demand (VoD) da Agência da Curta Metragem, os mesmos estarão agrupados por géneros (Ficção, Animação e Documentário), estando ainda prevista uma sessão dedicada a filmes portugueses.

Recorde-se que a 28ª edição do Curtas de Vila do Conde acontece, este ano, entre 3 a 11 de outubro. A decisão de adiamento, resultado do surto pandémico que afecta o país, tem vindo a ser acompanhada da procura de novos formatos que possam continuar a trazer o cinema à vida das pessoas. As iniciativas que hoje se anunciam servem assim como “ponto de partida duma estratégia de gradual aproximação do público do festival, num período em que ainda demoramos a retomar os hábitos naturais de partilha, celebração e descoberta que apenas um festival concentrado no tempo e lugar podem proporcionar”, garante Nuno Rodrigues, diretor do Curtas Vila do Conde.

As inscrições de curtas-metragens para as várias secções competitivas terminaram em 30 de junho e, com o festival cada vez mais próximo, a programação será revelada a partir de julho, começando com o programa competitivo completo.

A entrada é livre com inscrição prévia obrigatória no site da Câmara Municipal de Vila do Conde: https://www.cm-viladoconde.pt.

Looking Back: as histórias da Competição Experimental

25 Junho 2020
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Apesar de mais recente, a Competição Experimental é já uma das imagens de marca do Curtas Vila do Conde, apresentando a vanguarda e o melhor do que é feito anualmente no mundo dentro desta área, através de uma seleção rigorosa, mas também arrojada. É no cinema experimental, associado em grande parte às curtas-metragens, onde encontramos as propostas mais arriscadas, uma procura permanente em esticar os limites do cinema, quer nos seus diferentes formatos físicos ou digitais, quer nas suas formas não narrativas, um espaço onde se procura encontrar algo de inovador, algo que ainda surpreenda. No Curtas, a vertente experimental ganhou um espaço próprio, ainda antes de se tornar numa secção competitiva oficial, já que alguns dos filmes exibidos e até premiados se aproximavam desse campo. A partir de 2003 começou-se a premiar, dentro da Competição Internacional, o melhor filme experimental, como já acontecia com o documentário ou a animação, por exemplo. E desde 2009, ou seja, há onze edições, que o festival apresenta uma Competição Experimental, um programa autónomo que cada vez mais se afirma como uma vertente muito entusiasmante do cinema.

É na edição de 1995 do Curtas, a terceira, que podemos desde logo começar a reconhecer alguns dos nomes mais importantes do cinema experimental das últimas décadas, e uma prova que mesmo antes da criação de uma competição própria, este cinema já ganhava protagonismo no festival. Nessa edição, foram premiados dois nomes cujo trabalho poderia ser acompanhado nas edições futuras: Matthias Müller, Grande Prémio para Melhor Filme em 1995, é um realizador prolífico e inovador, que desde cedo trabalhou imagens de found footage para criar belos filmes-poema ou filmes-ensaio, apresentando mais de vinte filmes ao longo da história do Curtas, em nome próprio e em colaboração com Christoph Girardet, cineasta precursor na forma como utiliza imagens de outros filmes para criar novas histórias. Nesse ano de 1995 foi também premiado com uma menção honrosa Jay Rosenblatt, cineasta que explora as possibilidades do formato do documentário e do recurso a imagens de arquivo para procurar novas formas de reavivar o passado - seria também galardoado em 1998 com o prémio para Melhor Documentário e vários dos seus filmes seriam exibidos na Competição Experimental.

O primeiro prémio com o selo de Melhor Filme Experimental acontece em 2003, ainda como parte da Competição Internacional, para a realizadora americana Deborah Stratman, pelo filme “In Order Not to Be Here”. Stratman, uma multifacetada artista e uma das vozes mais originais e distintas da sua geração, estaria ainda presente em diversas edições do festival, quer na Competição Internacional, quer na Experimental, prova do seu cinema híbrido e entre géneros, mas sempre político e pessoal. Seria novamente vencedora em 2014, com “Hacked Circuit”. Rosa Barba é, a par de Deborah Stratman, a única a ser duplamente premiada nesta competição, vencedora em 2016 com “Bending To Earth” e em 2017 com “From Source to Poem”, obras que abordam a natureza ambígua da realidade e da memória, e que examinam a sociedade, o Homem, ambientes e paisagens como materiais para criar novas possibilidades, novas histórias, novas formas assombrosas de olhar para o mundo.

Outro nome que cedo se destacou no Curtas é Nicolas Provost, vencedor do prémio para Melhor Filme Experimental em 2004 com “Oh Dear”. Cineasta belga cujas obras foram presença assídua no festival durante vários anos, explora a natureza ilusória do cinema e as fronteiras entre a ficção e a realidade, quando por exemplo transforma o quotidiano num filme de ficção que segue códigos narrativos e cinematográficos em “Plot Point” ou “Stardust”. Em 2005, foi a vez de Peter Tscherkassky ser premiado com “Instructions for a Light and Sound Machine”, um realizador que conta com mais de dez presenças no Curtas, com obras que exploram continuamente as possibilidades do arquivo e found footage. Ainda antes da criação desta competição, Ben Rivers foi premiado em 2008 com o Melhor Filme Experimental, por “Ah, Liberty”. Rivers é um dos artistas contemporâneos mais relevantes pela sua constante procura de inovação e experimentação na representação da relação do Homem com a sociedade, recorrendo muitas vezes a imagens de 16 mm; o realizador conta com diversas participações no Curtas, quer seja em nome próprio, quer em colaboração com Ben Russell, outro inovador artista multimédia, que trabalha sobre a história do cinema e a gramática cinematográfica, numa forma de antropologia visual - a dupla foi homenageada na edição de 2005.

O primeiro prémio desta competição criada em 2009 foi para o prolífico artista F. J. Ossang - além de realizador é escritor, editor, poeta e músico. O seu trabalho cinematográfico, sempre enigmático, de influência punk e de um estilo idiossincrático, foi homenageado com uma retrospetiva integral em 2017 no Curtas. Vencedor em 2011 da Competição Experimental com “The Push Carts Leave Eternity Street” e um realizador com presença regular no Curtas, Ken Jacobs é um dos nomes fundamentais do cinema experimental das últimas décadas: desde os anos 60 e 70 na vanguarda da exploração das possibilidades do cinema, o seu trabalho passa muitas vezes pela apropriação e montagem de imagens de found footage para criar as suas próprias obras, mas também pela utilização dos seus home movies, com algumas aventuras por experiências estereoscópicas e tridimensionais, sempre na procura de inovação e novos caminhos. Jacobs foi um dos realizadores em foco na edição de 2010, e venceu o Grande Prémio para Melhor Filme na edição de 2007, pela dupla de filmes “Capitalism: Child Labor” e “Nymph”.
Bruce Conner é outro gigante do cinema experimental e avant-garde, realizador de algumas das mais importantes obras deste género, e que conta também com diversas passagens pelo Curtas, na Competição Internacional e mais tarde Experimental, mas também como alvo de homenagem em 2011 pela forma como o seu trabalho pode ser visto como precursor dos vídeos musicais. Na edição de 1997 o Curtas dedicou uma retrospectiva a Kenneth Anger, outro pioneiro e nome fundamental do cinema experimental e da sua história - desde a sua primeira curta de 1937 que este realizador underground reinventa linguagens e possibilidades, numa fusão entre o abstracionismo e o conceptual, que o festival tem dado a conhecer ao longo dos anos. Um dos autores em destaque na edição de 2002 e presente em diferentes secções e edições do Curtas, especialmente entre 1999 e 2005, Gustav Deutsch é outro cineasta experimental cujo trabalho o festival tem acompanhado, destacando-se o seu interesse na fenomenologia do filme (película) e a sua série de filmes “Film-ist 1-6”. Figura incontornável do movimento cinematográfico estruturalista e da arte minimalista, Morgan Fisher tem uma longa carreira como artista multifacetado, focando a sua actividade fílmica na obsolescência da película como meio físico e de expressão artística - foi o vencedor da Competição Experimental em 2018, com “Another Movie”, uma espécie de homenagem a “A Movie” (1958), o filme de Bruce Conner que é reconhecidamente um dos trabalhos mais marcantes da história do cinema experimental.
Além destes nomes icónicos do cinema experimental, o Curtas procura dar a conhecer novos talentos emergentes, cineastas dispostos a arriscar de forma a encontrar um olhar diferente sobre o cinema. O Curtas tem acompanhado e dado a conhecer em primeira mão autores que podemos enquadrar já como de uma outra geração de cineastas experimentais. Bill Morrison, cujo trabalho o Curtas exibe desde 2004, é um dos artistas actuais mais relevantes no campo do found footage, utilizando as deformações e distorções encontrados na deterioração da película de filme para criar assombrosas novas composições, como é o caso de “Light is Calling”. O austríaco Rainer Kohlberger tem sido uma presença assídua nos últimos anos, continuando a explorar os territórios entre cinema e música, e a trabalhar a partir de uma variedade de algoritmos com o objetivo de criar, e posteriormente manipular, o ruído da informação da própria imagem de uma forma sempre inovadora. 


Premiado com uma Menção Honrosa em 2017 com o filme “Fajr”, Lois Patiño é um cineasta galego cujas obras hipnóticas exploram noções à volta do espaço e do tempo, da natureza efémera da vida, mas também da identidade numa experiência transcendente, quase religiosa, que apenas a poesia do cinema permite. Ajna Dornieden e Juan David González Monroy, dupla de realizadores radicados em Berlim, foram premiados em 2018 com uma Menção Honrosa pelo filme “Comfort Stations”, uma reinvenção dos filmes que constroem uma narrativa a partir de material arquivo, acrescido de uma banda-sonora, que se desenrola como um teste psicológico ao espectador. Com apenas duas obras exibidas no Curtas mas de uma inovação irreverente e uma visão poética, a realizadora brasileira Ana Vaz é uma das artistas mais singulares a explorar atualmente o género experimental.

Vencedora da competição em 2019 com “Suspended Island”, a dupla Jane e Louise Wilson conta já com uma consagrada carreira como artistas multifacetadas (nomeadas para o Prémio Turner em 1999). Nos últimos anos os seus filmes, que têm sido exibidos no Curtas, exploram um interesse numa geografia urbana perdida e de uma arquitetura alternativa, mostrando paisagens escondidas, que a maioria das pessoas não vê e que assim ganham novos significados e atenção. É notório nos últimos anos um crescente reconhecimento das realizadoras desta área, cada vez mais premiadas, como os casos referidos de Deborah Stratman, Rosa Barba, Jane e Louise Wilson, Ajna Dornieden, ou da dupla indiana Shai Heredia e Shumona Goel, vencedoras da Competição Experimental em 2013, com um trabalho inventivo que olha para o próprio cinema.
Ao longo dos anos foram várias as valiosas participações de realizadores portugueses nesta competição, autores que têm vindo a trabalhar o cinema experimental como força criativa para desbravar novas formas de expressão artística, reflexo também da enorme vitalidade em Portugal desta vertente do cinema. Jorge Quintela, vencedor de uma Menção Honrosa em 2010 pelo filme “Ausstieg” - um filme de bolso num comboio entre duas estações em Berlim - é o único português a premiado nesta competição, mas vários outros nomes têm exibido as suas obras, revelando-se e afirmando-se como indissociáveis do cinema experimental em Portugal, casos de Edgar Pêra, Filipa César, Daniel Barroca, Paulo Abreu, Mónica Baptista, João Onofre, Salomé Lamas, Luís Alves de Matos e Pedro Maia.
Esta pluralidade de nomes, de diferentes abordagens do cinema experimental, de diferentes possibilidades, de diferentes gerações e influências, é um reflexo do experimental como um último reduto onde se desenham, filme a filme, os caminhos do cinema, a partir do passado e a pensar no futuro.

(João Araújo) 

Ao Magnífico Vicente Pinto Abreu

28 Maio 2020
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É com enorme tristeza e grande pesar que o Curtas Vila do Conde lamenta o falecimento de Vicente Pinto Abreu, no dia de ontem, 27 de maio 2020. Membro importante da família do Curtas, e um amigo querido de todos os envolvidos no festival, foi parte integrante da sua história durante muitas edições: integrou a Comissão de Seleção da Competição Nacional de 2007 a 2014, e de 2015 a 2019, e a Comissão de Seleção da Competição Internacional de 2007 a 2011 e em 2015, e a Comissão de Seleção da Competição Vídeos Musicais em 2008; era também, desde 2009, um dos rostos mais importantes do festival no acompanhamento aos júris e convidados. Ao longo dos anos, são inúmeras e inesquecíveis as suas actuações como DJ, quer em nome próprio, quer como parte dos “7 Magníficos” . Capaz de desarmar e encantar qualquer um com o seu conhecimento - e paixão - por cinema e música, é uma perda irreparável para a nossa comunidade. O festival apresenta as nossas sentidas condolências aos familiares e amigos.

Looking Back: as histórias da Competição Nacional

5 Maio 2020
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A Competição Nacional teve a sua estreia na terceira edição do Curtas, em 1995. É a segunda competição do festival com maior longevidade, atrás apenas da Competição Internacional. A história desta competição é também a história do Curtas e intimamente ligada ao que de mais importante aconteceu no cinema português nas últimas três décadas. Isso torna-se evidente ao recordar alguns dos nomes que encontraram aqui um espaço para florescer e expandir a sua visão artística, em particular num período de renovação e reinvenção do cinema português a partir da década de 90, que levou mesmo à popularização da expressão “Geração Curtas”, cunhada por Augusto M. Seabra. Escrevia este em 1999, no jornal “Público”: «A maioria destes autores diferenciam-se dos mais velhos no sentido de que não os anima nenhum particular espírito de missão em reproduzir uma qualquer imagem dominante do “cinema português”, interessam-se em fazer arte cinematográfica e basta». Uma prova da validade atual desta afirmação é a forma como durante o período da última crise económica em Portugal e de escassez de apoios ao cinema, as curtas-metragens voltaram a mostrar-se essenciais para vislumbrar o futuro do cinema português.

Um dos autores mais importantes associados à “Geração Curtas” e cujo percurso foi acompanhado pelo festival de perto desde o início é Miguel Gomes, que apresentou o seu primeiro filme “Entretanto” na edição de 1999. O filme, que acompanha um trio de adolescentes em dias de Verão sob o efeito de encantamentos amorosos e indefinições internas num retrato etéreo e melancólico, venceu o prémio de Melhor Realizador da Competição Nacional, revelando desde logo um cineasta em afirmação, à procura do seu próprio cinema. Nos anos seguintes Miguel Gomes seria uma presença regular no festival, reinventando-se a cada novo filme, como “Inventário de Natal” (2000), “Kalkitos” (2002), “31” (2002) e “Cântico das Criaturas” (2006), com o qual venceu o prémio para Melhor Filme. O festival assistiria mais tarde à estreia das suas longas-metragens, como “Aquele Querido Mês de Agosto” (2008) e a trilogia “As Mil e Uma Noites” (2015). 


Outro autor indissociável deste período do cinema português e que deixou por várias vezes a sua marca nesta competição, é João Nicolau. O realizador apresentou a sua primeira obra na edição de 2006, “Rapace”, um poema-musical com notas sentimentais e humorísticas sobre as aventuras de um rapaz, com a qual venceu o Grande Prémio para Melhor Filme; mais tarde com “Canção de Amor e Saúde” (2009) seria premiado com o Melhor Filme da Competição Nacional, e apresentaria ainda “O Dom das Lágrimas” (2012, fora de competição) e “Gambozinos” (2013, menção honrosa da secção Curtinhas), filmes que permitiram acompanhar o apurar de um singelo sentido visual.


Porém, falar da “Geração Curtas” é falar de Sandro Aguilar, que tem sido uma presença constante ao longo do festival quase desde a sua primeira edição, e é um dos nomes mais relevantes do cinema português dos últimos anos, não só pelo seu trabalho como realizador e editor, mas também pelo seu importante trabalho como produtor (produziu por exemplo os primeiros filmes de Miguel Gomes e João Nicolau, mas também filmes de Manuel Mozos e Ivo Ferreira). Em 1998, era citado por Augusto M. Seabra: «Quem está a fazer hoje curtas-metragens tem um olhar diferente das gerações precedentes. Alguns são provocatórios e apostam na possibilidade de não se precisar de uma história narrativa. Assim se criam cineastas potenciais». Com um estilo visual distinto, mais próximo do experimental e sensorial, o Curtas tem permitido acompanhar ao longo dos anos as diferentes permutações de um cineasta sempre disposto a arriscar: em 1998 foi o vencedor do Prémio para Jovem Cineasta Português com o filme “Estou Perto”; em 2001 o seu filme “Corpo e Meio” foi o vencedor do Prémio para Melhor Filme da Competição Nacional, e também o nomeado do festival para os European Film Awards, nomeação que repetiu em 2005 com “A Serpente”; depois de várias presenças na competição Nacional, apresentou em 2017 a sua segunda longa-metragem, “Mariphasa”.


Se ao longo dos diversos palmarés do Curtas na sua história de 27 edições, alguns filmes portugueses foram galardoados em categorias que vão além desta competição, só em 2006 o prémio principal do festival - o Grande Prémio para Melhor Filme em Competição (que engloba todos os filmes em competição, nacionais e internacionais) foi atribuído pela primeira vez a um filme português: “Rapace” de João Nicolau. Se só ao fim de 13 edições este prémio foi atribuído a um português, voltaria a acontecer outra vez só em 2013, na vigésima edição do Curtas, com “Carosello” de Jorge Quintela. No entanto, recentemente algo parece ter mudado e esta barreira quebrada: Filipa César foi galardoada com o Grande Prémio em 2015 por “Mined Soil”, e em 2017 Marta Mateus recebeu igual distinção por “Farpões Baldios”.


Estas novas ocorrências parecem também assinalar uma outra tendência, que é o facto de cada vez mais os filmes premiados pertenceram a realizadoras portuguesas, resultado de uma bem-vinda alteração no paradigma no panorama da produção nacional. Além dos nomes referidos, o Curtas tem dado a conhecer novas autoras como Ana Maria Gomes (em 2016, com “António Lindo António”), Alice Eça Guimarães e Mónica Santos (Prémio do Público em 2015 com “Amélia & Duarte, e em 2018,  com “Entre Sombras), Salomé Lamas (Melhor Documentário em 2012 para “Comunidade”) e Leonor Noivo (menção honrosa em 2012 para “A Cidade e o Sol”), ou os mais recentes prémios na categoria de Melhor Realizador: Margarida Lucas (2015 com “Rampa”), Ana Moreira (2018 com “Aquaparque”) e Mariana Gaivão (2019 com “Ruby”). 


Vários outros nomes ao longo dos anos ajudaram a construir uma identidade do Curtas e também uma nova identidade para o cinema português. O primeiro português premiado no Curtas foi na verdade Abi Feijó, nome incontornável da animação nacional, na segunda edição em 1994, ainda antes da criação de uma Competição Nacional. Em 1995 o primeiro prémio para a Competição Nacional foi atribuído a Marco Martins (por “Mergulho de Ano Novo”, co-realizado com João Braz), realizador que mais tarde seria premiado em Cannes com a sua primeira-metragem “Alice” (2005); tal como Martins, outros nomes foram distinguidos em início de carreira com o prémio para Melhor Filme, como Inês de Medeiros em 1998, Margarida Cardoso em 1999, Jorge Cramez em 2002, Rodrigo Areias em 2008; ou ainda Ivo Ferreira em 1999 (prémio Jovem Cineasta Português), Daniel Blaufuks em 2001 (Melhor Realizador). Além destes nomes, o festival permitiu descobrir as incursões no formato da curta-metragem de autores consagrados, como Pedro Costa (prémio para Melhor Filme em 2011, com “O Nosso Homem”) e João Pedro Rodrigues (2012, nomeação para os European Film Awards com “Manhã de Santo António” e 2017, Melhor Filme com “Où en êtes-vous, João Pedro Rodrigues?”), este uma presença assídua no festival, várias vezes também em colaboração com João Guerra da Mata, como no caso do filme encomenda do Curtas, “Mahjong” (2013).


Na já longa história do Curtas, e dos inúmeros e valiosos autores que passaram pelo festival, há porém uma curiosidade a salientar: três nomes venceram por duas vezes a Competição Nacional, deixando a sua marca no palmarés com o seu cinema do social ao documental ao íntimo e pessoal: Pedro Caldas, com “Pedido de Emprego” em 2000, e em 2007 com “Europa 2007”; Miguel Clara Vasconcelos com “Documento Boxe” em 2005 e “O Triângulo Dourado” em 2012; e Basil da Cunha com “À Côté” em 2010, e “Os Vivos Também Choram” em 2012. Recentemente tem sido Gabriel Abrantes, outro prolífero autor com várias presenças no Curtas, cuja veia criativa revela um irreverente e imprevisível autor sempre disposto a arriscar e a reinventar-se, que tem sido distinguido com vários prémios: menção honrosa em 2011 (com “Fratelli”, co-realizado com Alexandre Melo), Melhor Realizador em 2016 e 2017 (com “A Brief History of Princess X” e “Os Humores Artificiais”), e Melhor Ficção em 2019 (“Les extraordinaires mésaventures de la jeune fille de pierre”). 


Se a história do Curtas e da competição nacional é a soma dos seus vários autores e visões, o seu futuro será também um espelho do que presenciamos até agora: surpreendente, entusiasmante, tentador, vital e em permanente renovação e reinvenção, que corresponda a um desejo de intervir artisticamente sobre o mundo. Ou seja, regressando ao texto sobre a “Geração Curtas”: «fazer arte cinematográfica e basta».

(João Araújo)

Comunicado da Plataforma do Cinema

26 Abril 2020
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Como já foi reconhecido publicamente pelo governo, o sector da cultura foi dos primeiros a ver as suas actividades suspensas e será dos últimos a conseguir uma retoma. No caso do cinema, a situação é calamitosa. As salas de cinema estão fechadas e, quando finalmente for possível reabri-las, prevê-se uma fraca afluência de público. Várias produções (algumas já em fase de rodagem) foram interrompidas e adiadas sine die; quando regressarem as condições para poder prosseguir, os produtores terão de fazer face ao acréscimo de custos da paragem forçada e das novas condições de rodagem em contexto de distanciamento social. E, sobretudo, existem hoje – e continuarão a existir nos próximos meses – milhares de profissionais sem trabalho, num sector marcado pela precariedade e sazonalidade da atividade, profissionais para os quais nunca foi criado um regime especial de “intermitentes”, e que terão dificuldade em encaixar no sistema de apoios para os trabalhadores independentes da segurança social. 
      
Para fazer face à situação, a Plataforma do Cinema pensou em três medidas de intervenção pública que devem ser instituídas com carácter de urgência:
1) criação imediata de um fundo de emergência para os trabalhadores do sector, à semelhança do que já está a ser feito noutros países (Espanha, França, Reino Unido) e que também em Portugal foi estudado pelo ICA até essa possibilidade ter sido subitamente descartada pela SEC e pelo MC;
2) criação de um plano de contingência a dois anos para as diversas entidades que operam no sector (produtoras, festivais, cineclubes, empresas de serviços, exibidores e distribuidores independentes, etc) que amortize os prejuízos da suspensão das actividades previstas até que estas possam ser retomadas;
3) Incremento do papel da RTP junto do cinema, lembrando que ainda há uns anos estava em vigor um protocolo RTP / ICA que garantia um complemento financeiro automático ao montante atribuído pelo ICA a cada projeto apoiado, ficando a televisão pública com direitos de exibição do filme como contrapartida.
No passado dia 20 de Abril, representantes da Plataforma do Cinema reuniram com o Secretário de Estado e com o Presidente do ICA. O Secretário de Estado rejeitou a totalidade das propostas apresentadas pela Plataforma, alegando que não podem existir medidas de apoio a fundo perdido, que as questões dos trabalhadores da cultura devem ser resolvidas pelos ministérios centrais e que as medidas de apoio ao sector se irão cingir à flexibilização das regras administrativas no ICA. Tal como a Ministra da Cultura, o Secretário de Estado coloca a tónica no futuro do sector.

A Plataforma do Cinema não percebe que futuro é esse de que falam Ministra e Secretário de Estado. É revelador de uma preocupante falta de lucidez que se pondere  a discussão de um novo plano estratégico no final do ano, enquanto se testemunha  de braços cruzados a expectável falência de produtoras, distribuidores, exibidores independentes e outras entidades do sector. O efeito em cadeia levará a que o dinheiro destinado a projectos apoiados pelo ICA seja usado em desespero  para a sobrevivência de profissionais que se encontram totalmente desamparados e para a sobrevivência das estruturas. 
A Plataforma do Cinema considera que não existirá qualquer futuro com a inacção do presente. Constata a absoluta irrelevância política do Ministério da Cultura e da recém criada Secretaria de Estado do cinema e do audiovisual. E confirma definitivamente que os actuais ocupantes do Palácio da Ajuda não sentem fazer parte do sector que tutelam, que não o conhecem e que nada farão para o preservar.

Convencidos de que as dificuldades no sector do cinema e na cultura em geral irão infelizmente agravar-se, a Plataforma do Cinema apela à união entre profissionais e agentes da área da cultura para fazer ver aos responsáveis políticos, independentemente de quem sejam, que o Estado não pode lavar as mãos e abandoná-los à sua sorte na actual conjuntura. A responsabilidade política não ficou suspensa com o estado de emergência ou com a situação sanitária no país.

Pela Plataforma do Cinema

Agência da Curta Metragem
Apordoc – Associação pelo Documentário
APR – Associação Portuguesa de Realizadores
Casa da Animação
Curtas Vila do Conde
Doclisboa
IndieLisboa
Monstra – Festival de Animação de Lisboa
PCIA – Produtores de Cinema Independente Associados
Porto/Post/Doc
Portugal Film
Queer Lisboa

Filmes Curtos para Dias Longos

8 Abril 2020
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Neste momento de recolhimento responsável e isolamento social, em que o mundo que conhecemos parece temporariamente suspenso, uma das coisas da qual sentiremos falta por esta altura será, entre muitas outras, a possibilidade de uma visita a uma sala de cinema e de nos deixar levar pela proposta de um filme. Enquanto esperamos pelo regresso aos dias normais, parece importante manter o contacto com esse hábito, mesmo que agora de uma forma virtual. A Agência da Curta Metragem tem levado a cabo uma iniciativa com o título “Filmes Curtos para Dias Longos” para ajudar precisamente a diminuir a distância em relação ao cinema como espaço comunitário e de partilha, apresentando num espaço virtual várias curtas-metragens de autores portugueses.

O Curtas Vila do Conde associa-se agora a essa iniciativa com um programa que celebra o formato e apresenta algumas das produções do Curtas ao longo dos últimos anos, de autores internacionais (títulos que serão disponibilizados na primeira semana do ciclo) e de autores nacionais (filmes disponibilizados na segunda semana), possibilitando assim a (re)descoberta dessas obras. Estes filmes contam como característica importante uma ligação à região norte de Portugal, e alguns deles têm mesmo uma relação directa com Vila do Conde, onde foram rodados. Este programa permite assim dar a conhecer não só conhecer parte da história recente do festival, como também da região onde este decorre. 

O Curtas anunciou recentemente o adiamento da edição deste ano para uma nova data, de 3 a 11 de Outubro, e esta será uma forma de manter o público cinéfilo do festival ligado aos filmes do Curtas, enquanto aguardamos por novidades. Os filmes serão colocados online neste espaço [https://vimeo.com/showcase/short-films-for-long-days], e os diferentes títulos serão divulgados nos próximos dias, juntando-se a esta lista. Esperamos assim contribuir de alguma forma para reduzir as saudades em relação ao cinema e manter as conversas em redor dos filmes, mesmo que não sendo à porta do auditório, para ficarmos todos mais perto. 

"O Sonho do Estivador" de Bill Morrison:
"Em 2015, o Curtas Vila do Conde juntou o cineasta Bill Morrison e a banda Lambchop para um projecto inédito de filme-concerto, feito a partir de pesquisas do realizador nos arquivos do ANIM. O resultado visual e sonoro dessa iniciativa e o sucesso do concerto levou à produção de uma curta-metragem. Kurt Vagner usufriu da oportunidade para explorar, numa longa canção intitulada “The Hustle”, sonoridades de krautrock e electrónica vintage até aí pouco visíveis na sua discografia. O filme foi também parte importante na promoção do álbum “FLOTUS”. (Miguel Dias)

"Noite Sem Distância" de Lois Patiño: 
"Filmado nas montanhas do Gerês, na fronteira entre Portugal e a Galiza, “Noite Sem Distância” parece situado ele próprio entre dois mundos, na fronteira entre a descrição vagarosa de uma prática que se repete desde sempre e um estranho sonho sensorial e hipnótico. A representação da passagem do tempo é precisamente um dos temas centrais da filmografia de Patiño, que aqui retrata uma noite igual a tantas outras, na qual o contrabando percorria aquela região, como uma sucessão de vários instantes que se alongam, retirando-lhe a especificidade do tempo e assim criando um carácter intemporal, quase sagrado, de uma beleza serena. O uso de um filtro de imagem negativa confere ao filme um aspecto transcendental e ilusório, porém serve também para transformar as personagens em vultos indistintos, como fantasmas-testemunhas da natureza, figuras que se confundem e entrelaçam com os elementos à sua volta ou “rastos de almas na paisagem”, como escreveu Teixeira de Pascoaes no poema citado no início do filme. Um percurso do real ao poético, esta é também uma pequena fábula sobre a resistência da memória." (João Araújo) 
 


Este filme foi produzido pelo Curtas Vila do Conde no âmbito do projecto CAMPUS, um programa de formação audiovisual no ensino superior com parcerias de várias universidades portuguesas da zona do Porto, que promoveu workshops e masterclasses com nomes importantes do cinema contemporâneo (nacionais e internacionais) e resultou na produção de filmes como este, com os realizadores a trabalharem com uma equipa composta por alunos do ensino superior.

"Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar" de Helvécio Marins Jr. e Felipe Bragança:
"Uma bela e cândida parábola sobre ideias pré-concebidas e amizades improváveis, "Fernando Que Ganhou um Pássaro do Mar", filmado entre o Bairro das Fontainhas, no Porto, e o Rio Janeiro, conta-nos a correspondência entre dois amigos que afinal não se conhecem, que começa quando Fernando, no Porto, recebe um pássaro enviado através do oceano. Esta troca de cartas, que é na verdade um monólogo no início, revela um curioso jogo de espelhos, no sentido em que começa por revelar ideias refletidas, possibilidades do que imaginamos estar do outro lado. Estamos em 2013 e Fernando, desempregado, divide o seu tempo entre um pequeno apartamento com poucas condições e o café da esquina, enquanto se queixa, por carta, do pássaro que não parece ser grande prenda mas que até ajuda a atenuar a solidão. Fernando imagina um Brasil paradisíaco, com as suas praias de água quente, sereias e índios nos seus palácios, e é exactamente isso que vemos do outro lado, a ideia fantasiosa de um Brasil imaginado aos olhos de um português à distância. Só mais tarde essa imagem é revertida para representar o Brasil contemporâneo, onde aflui dinheiro e pobreza ao mesmo tempo, criando enormes brechas. De repente o palácio transforma-se numa casa parecida à das Fontainhas e a metáfora, dissimulada no início, torna-se evidente: com a aproximação entre os dois pontos de partida, percebemos que os dois estão afinal mais perto do que poderiam imaginar." (João Araújo)


O filme, que teve a sua estreia internacional na secção Forum da Berlinale, é uma produção Curtas Metragens CRL, em co-produção com Duas Mariola, que assim estabeleceu uma ponte entre estruturas emergentes na produção de cinema em Portugal e no Brasil, num contexto de acentuada crise na Europa e na produção de cinema em Portugal. 

“O Milagre de Santo António” de Sergei Loznitsa:
"mi·la·gre (substantivo masculino): 
1. Facto sobrenatural oposto às leis da Natureza. 2. Portento, maravilha, prodígio. 
A benção dos animais que decorre todos os anos em meados de junho, na aldeia de Santo António de Mixões da Serra, no Gerês, tradição segundo a qual os agricultores locais levam os seus animais para a Igreja, parece em tudo um facto oposto às leis da natureza, com uma missa dedicada a estes animais. Pelo menos por uma vez os animais têm também direito a participar no culto, lado a lado com os santos, e o espectáculo insólito de uma procissão de cavalos a serem abençoados é uma pequena maravilha visual. Sergei Loznitsa, realizador ucraniano que alterna entre o documentário e a ficção e muitas vezes procura um equilíbrio entre os dois, é um dos autores com mais presenças na competição internacional do Curtas,  e premiado em 1999 pelo filme “Life Autumn” e em 2001 por “Polustanok”. Mais interessado nas pessoas e nos seus costumes do que propriamente no milagre enunciado, Loznitsa volta a explorar através de um olhar curioso as possibilidades de um filme focado em rostos anónimos, uma multidão de devotos que ganha assim relevo. Acompanhando este ritual de forma solene, este é um retrato sincero de como uma tradição ancestral é ainda hoje celebrada, reunindo a comunidade e os seus animais nas ruas desta aldeia na montanha." (João Araújo)


Este filme foi produzido pelo Curtas Vila do Conde no âmbito do ESTALEIRO, uma  plataforma contínua de programação cultural entre 2010 e 2012, que teve como objectivo criar um pólo de criatividade, agregando criadores e público em diferentes momentos. Durante estes dois anos, o ESTALEIRO produziu diversos filmes, organizou workshops e exposições, e proporcionou diversos concertos na cidade de Vila do Conde. 

Vila do Conde Espraiada” de Miguel Clara Vasconcelos:
"Na sequência da passagem do seu filme “O Triângulo Dourado”, prémio para melhor filme na competição nacional do Curtas em 2014, Miguel Clara Vasconcelos propôs-nos uma produção cuja base seria composta por arquivos pessoais e filmes amadores em super 8 ou 16mm, rodados em Vila do Conde, intercalados com uma parte ficcional filmada na actualidade. O nosso entusiasmo foi total: desde há alguns anos que falávamos sobre um projecto de pesquisa e digitalização de material com imagens da cidade, bobines esquecidas algures em sótãos e baús, mas ainda sem um destino concreto. Esta ideia do Miguel era a motivação que faltava para arrancar com esse projecto, que tomou a forma de uma residência artística a explorar em duas vertentes: um filme, que se viria a chamar “Vila do Conde Espraiada”, e uma exposição em forma de instalação audiovisual, integrada na programação da Solar – Galeria de Arte Cinemática, e que foi montada no Centro de Memória, chamada “Onde o Coração Se Esconde”, numa dupla referência a dois grandes escritores com uma ligação à cidade, José Régio e Ruy Belo. Segundo o realizador, “a memória de Vila do Conde é também a memória da minha mãe. Quando faleceu, tive uma vertigem. O tempo passado nessa vila-cidade parecia desaparecer bruscamente, escapar-me, morrer em mim. Na edição de 2014 do Curtas, percebi que era urgente trabalhar essa matéria sensível, mágica, que é a infância e que foi para mim Vila do Conde”.

 
“Vila do Conde Espraiada” reapropria esses pequenos filmes encontrados para, a partir daí, construir uma narrativa apoiada na revisitação de memórias da infância e da juventude, sobretudo da década de 1980. Trata-se de uma autobiografia ficcionada, alternando imagens do presente (ficção) e do passado (documental), onde a feliz opção por filmar em película 16mm fortaleceu a coesão entre as imagens. Também o fio condutor da narração é bastante cativante: a gravação de uma cassete de fita magnética, em forma de carta de amor com canções pelo meio, para uma namorada que se encontra longe. As palavras e as imagens criam, numa linguagem poética que já encontrávamos noutras obras do autor, uma envolvente emocional que mistura a história de amor com as memórias de acontecimentos dispersos, uns importantes, outros aparentemente insignificantes, mas são esses que fazem de nós aquilo que somos hoje em dia, e que nunca poderão ser dissociáveis de um determinado lugar, de uma certa cidade ou paisagem. De uma forma notável, o filme integra ainda o comentário político de uma época plena de convulsões, não abdicando do ponto de vista do entendimento de uma criança e recorrendo ainda, pelas imagens dos arquivos, aos grafittis políticos que eram comuns por essa altura em todas as cidades portuguesas. No centro desse comentário político surge uma das ideias mais felizes do filme, as ligações entre os meninos ricos e os meninos pobres (que para o Miguel enquanto criança eram os “meninos da avenida” e os “meninos do campo”, já que estes viviam em casebres que se vislumbravam nos terrenos baldios das traseiras do jardim de sua casa).  À liberdade política recentemente conquistada junta-se uma ideia de liberdade perdida, a da infância. Esta podia ser apenas uma aventura num passeio de bicicleta para lá das placas na estrada que indicam a entrada em Vila do Conde, ou um evento indecifrável numa tenda de campismo fora dos limites da cidade. Ou, como diz o realizador/narrador, “a liberdade das crianças está em não perceber muita coisa, não se sacrificar por dinheiro nem sofrer de amor”." (Miguel Dias)
   
"Rio Entre As Montanhas" by José Magro
“Nenhum homem pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando se entra novamente não se encontram as mesmas águas, e o próprio homem já não é o mesmo. O aforismo é grego, mas aplica-se à personagem principal deste filme rodado na cidade chinesa de Hancheng, sobre um homem em processo de descoberta pessoal. Este é um conto sobre esse homem, muito novo ainda e à procura ainda de encontrar o amor na sua vida, e que aqui percorre as ruas chuvosas da cidade como se navegasse um rio ao qual não regressaria de forma igual, transformado por cada encontro anterior. Ouvimos os seus pensamentos, as suas recordações e impressões sobre diferentes sentimentos, sobre os diferentes aspectos que o amor pode representar para si, obcecado com a ideia de algo que ainda não encontrou. Um retrato delicado e melancólico de um instante numa longa jornada sentimental, e até com algum humor na forma como joga com alguns preceitos do que é esperado de um filme sobre o romance, sempre debaixo do embalo de um olhar cuidadoso e perspicaz. Como diz a canção que ouvimos durante o filme: “a viver numa espécie de sonho acordado”.” (João Araújo) 


"A Glória de Fazer Cinema em Portugal" de Manuel Mozos
"Partindo de um facto histórico no mínimo curioso – uma carta que José Régio escreveu a Alberto Serpa, manifestando o interesse de fundar uma produtora para começar a fazer cinema –, em A Glória de Fazer Cinema em Portugal, Manuel Mozos ensaia um documentário falso onde reconstrói um possível envolvimento na arte cinematográfica de um dos intelectuais portugueses mais importantes, José Régio. Com um argumento exemplarmente urdido pela escrita de Eduardo Brito, o filme concretiza, de facto, aquilo que poderia ter sido uma das mais curiosas experiências cinematográficas do cinema português. Um exercício historicamente efabulado, mas que, por isso mesmo, nos deixa a navegar pelas possíveis cronologias alternativas da História." (Daniel Ribas)



Este filme foi produzido pela Curtas Metragens CRL, no contexto do seu programa Campus, envolvendo alunos de escolas de cinema do Porto. 

"Mahjong" de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata:
"O projeto ESTALEIRO funcionou como uma plataforma contínua de programação cultural entre 2010 e 2012, que teve como objetivo criar um pólo de criatividade em Vila do Conde. Durante esse período, o ESTALEIRO produziu diversos filmes, organizou workshops e exposições, e proporcionou diversos concertos na cidade. No âmbito da produção de filmes, propôs-se a vários realizadores olhares diversos sobre a região, e a dupla João Pedro Rodrigues/João Rui Guerra da Mata apropriou-se da Zona Industrial da Varziela, em Vila do Conde. Aí reside a mais significativa comunidade chinesa no norte de Portugal, oportunidade para os autores darem continuidade aos seus filmes de inspiração asiática, onde “Mahjong” ecoa, sobretudo, com “A Última Vez Que Vi Macau”. Em ambos os filmes, o olhar documental inicial vai abandonando quaisquer pretensões de um retrato realista de um espaço, dando lugar a um enredo marcado pela cultura cinéfila dos seus autores, que joga com códigos reconhecíveis de géneros cinematográficos, sobretudo o film noir e o suspense. Em “Mahjong” esses elementos aparecem filtrados por delírios hipnóticos e por uma tensão dissonante que parece querer despistar o espectador a todo o momento. O que parece ser uma investigação à maneira de um filme policial dá lugar a uma realidade paralela, onde manequins tomam o lugar de seres humanos, onde os pássaros e as flores são de plástico. Ilusões espectrais de mulheres enigmáticas e a noite naquele deserto industrial de ruas idênticas aumentam o mistério, que longas sequências ao volante de um automóvel aprofundam, fazendo por vezes lembrar “Vertigo”. A excelente banda sonora de Luís Fernandes, também ela de ecos hitchcockianos, sublinha esta busca metafísica e meta fílmica. Mais do que procurar os pontos cardeais de uma história onde, à boa maneira do film noir, os segredos por desvendar são mais relevantes que as frágeis convicções do espectador, embarcamos nesta narrativa estimulante e esteticamente deslumbrante como num jogo, juntando os elementos disponíveis como conjuntos de pedras de mahjong.” (Miguel Dias)


“A Rua Da Estrada" de Graça Castanheira:
Partindo do icónico livro de Álvaro Domingues, com o mesmo título, este filme procura mapear o conceito avançado pelo geógrafo: a ideia de que as estradas nacionais estão configuradas para serem locais de diálogo entre os vendedores e os viajantes. A panóplia de recursos visuais a que estas casas recorrem transforma a estrada numa rua sugestiva, estabelecendo uma estética própria, eminentemente kitsch. A poética de A Rua da Estrada encontra-se na encruzilhada entre uma cultura de consumo e uma descaracterização homogénea dos longos quilómetros das estradas nacionais. Este filme foi produzido pela Curtas Metragens CRL, no contexto do seu programa Campus, envolvendo alunos de escolas de cinema do Porto. (Daniel Ribas)
 


"Com início a 17 de março, em pleno período de estado de emergência, a iniciativa “Filmes Curtos para Dias Longos” da Agência da Curta Metragem, à qual o Curtas Vila do Conde se associou mais tarde com um programa especial, decorreu até ao passado dia 19 de maio. Nestes dois meses foram disponibilizados online e de forma gratuita 22 filmes de importantes autores, na sua maioria portugueses mas também com algumas participações estrangeiras, que atingiram mais de 25 mil visualizações, um número significante que reflecte a procura de objectos culturais num período de confinamento obrigatório.

Numa altura em que nos é pedido para ficarmos em casa, a cultura afirma-se como um bem essencial, e seja literatura, música ou cinema, ajuda a manter-nos ligados ao mundo. É uma forma de escape da rotina em tempos conturbados, uma companhia para aliviar a passagem do tempo e diminuir distâncias em tempos de isolamento social. É vital fazer esse reconhecimento valioso da cultura, e neste caso específico do cinema, na forma dos filmes que foram assim colocados online para todos que estavam em casa tivessem contacto com uma parte fulcral da cultura portuguesa, que tanto tem sido distinguida um pouco por todo o mundo. Agradecemos assim a todos os que contribuíram generosamente com os seus filmes para esta iniciativa, considerando sempre que um filme é também resultado de um esforço comum de uma equipa, de realizadores, editores, produtores, argumentistas, actores, directores e técnicos de fotografia ou som, ilustradores, coloristas, tradutores, decoradores, eletricistas, anotadores, entre outros. Este é um sector que vive constantemente em situação de instabilidade e precariedade laboral, cujo contributo importante para o bem-estar comum deve ser reconhecido e apoiado por todos, porque é importante saber que quando precisamos da cultura, ela está lá para todos." (João Araújo)

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