Looking Back: as histórias da Competição Nacional

5 Maio 2020
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A Competição Nacional teve a sua estreia na terceira edição do Curtas, em 1995. É a segunda competição do festival com maior longevidade, atrás apenas da Competição Internacional. A história desta competição é também a história do Curtas e intimamente ligada ao que de mais importante aconteceu no cinema português nas últimas três décadas. Isso torna-se evidente ao recordar alguns dos nomes que encontraram aqui um espaço para florescer e expandir a sua visão artística, em particular num período de renovação e reinvenção do cinema português a partir da década de 90, que levou mesmo à popularização da expressão “Geração Curtas”, cunhada por Augusto M. Seabra. Escrevia este em 1999, no jornal “Público”: «A maioria destes autores diferenciam-se dos mais velhos no sentido de que não os anima nenhum particular espírito de missão em reproduzir uma qualquer imagem dominante do “cinema português”, interessam-se em fazer arte cinematográfica e basta». Uma prova da validade atual desta afirmação é a forma como durante o período da última crise económica em Portugal e de escassez de apoios ao cinema, as curtas-metragens voltaram a mostrar-se essenciais para vislumbrar o futuro do cinema português.

Um dos autores mais importantes associados à “Geração Curtas” e cujo percurso foi acompanhado pelo festival de perto desde o início é Miguel Gomes, que apresentou o seu primeiro filme “Entretanto” na edição de 1999. O filme, que acompanha um trio de adolescentes em dias de Verão sob o efeito de encantamentos amorosos e indefinições internas num retrato etéreo e melancólico, venceu o prémio de Melhor Realizador da Competição Nacional, revelando desde logo um cineasta em afirmação, à procura do seu próprio cinema. Nos anos seguintes Miguel Gomes seria uma presença regular no festival, reinventando-se a cada novo filme, como “Inventário de Natal” (2000), “Kalkitos” (2002), “31” (2002) e “Cântico das Criaturas” (2006), com o qual venceu o prémio para Melhor Filme. O festival assistiria mais tarde à estreia das suas longas-metragens, como “Aquele Querido Mês de Agosto” (2008) e a trilogia “As Mil e Uma Noites” (2015). 


Outro autor indissociável deste período do cinema português e que deixou por várias vezes a sua marca nesta competição, é João Nicolau. O realizador apresentou a sua primeira obra na edição de 2006, “Rapace”, um poema-musical com notas sentimentais e humorísticas sobre as aventuras de um rapaz, com a qual venceu o Grande Prémio para Melhor Filme; mais tarde com “Canção de Amor e Saúde” (2009) seria premiado com o Melhor Filme da Competição Nacional, e apresentaria ainda “O Dom das Lágrimas” (2012, fora de competição) e “Gambozinos” (2013, menção honrosa da secção Curtinhas), filmes que permitiram acompanhar o apurar de um singelo sentido visual.


Porém, falar da “Geração Curtas” é falar de Sandro Aguilar, que tem sido uma presença constante ao longo do festival quase desde a sua primeira edição, e é um dos nomes mais relevantes do cinema português dos últimos anos, não só pelo seu trabalho como realizador e editor, mas também pelo seu importante trabalho como produtor (produziu por exemplo os primeiros filmes de Miguel Gomes e João Nicolau, mas também filmes de Manuel Mozos e Ivo Ferreira). Em 1998, era citado por Augusto M. Seabra: «Quem está a fazer hoje curtas-metragens tem um olhar diferente das gerações precedentes. Alguns são provocatórios e apostam na possibilidade de não se precisar de uma história narrativa. Assim se criam cineastas potenciais». Com um estilo visual distinto, mais próximo do experimental e sensorial, o Curtas tem permitido acompanhar ao longo dos anos as diferentes permutações de um cineasta sempre disposto a arriscar: em 1998 foi o vencedor do Prémio para Jovem Cineasta Português com o filme “Estou Perto”; em 2001 o seu filme “Corpo e Meio” foi o vencedor do Prémio para Melhor Filme da Competição Nacional, e também o nomeado do festival para os European Film Awards, nomeação que repetiu em 2005 com “A Serpente”; depois de várias presenças na competição Nacional, apresentou em 2017 a sua segunda longa-metragem, “Mariphasa”.


Se ao longo dos diversos palmarés do Curtas na sua história de 27 edições, alguns filmes portugueses foram galardoados em categorias que vão além desta competição, só em 2006 o prémio principal do festival - o Grande Prémio para Melhor Filme em Competição (que engloba todos os filmes em competição, nacionais e internacionais) foi atribuído pela primeira vez a um filme português: “Rapace” de João Nicolau. Se só ao fim de 13 edições este prémio foi atribuído a um português, voltaria a acontecer outra vez só em 2013, na vigésima edição do Curtas, com “Carosello” de Jorge Quintela. No entanto, recentemente algo parece ter mudado e esta barreira quebrada: Filipa César foi galardoada com o Grande Prémio em 2015 por “Mined Soil”, e em 2017 Marta Mateus recebeu igual distinção por “Farpões Baldios”.


Estas novas ocorrências parecem também assinalar uma outra tendência, que é o facto de cada vez mais os filmes premiados pertenceram a realizadoras portuguesas, resultado de uma bem-vinda alteração no paradigma no panorama da produção nacional. Além dos nomes referidos, o Curtas tem dado a conhecer novas autoras como Ana Maria Gomes (em 2016, com “António Lindo António”), Alice Eça Guimarães e Mónica Santos (Prémio do Público em 2015 com “Amélia & Duarte, e em 2018,  com “Entre Sombras), Salomé Lamas (Melhor Documentário em 2012 para “Comunidade”) e Leonor Noivo (menção honrosa em 2012 para “A Cidade e o Sol”), ou os mais recentes prémios na categoria de Melhor Realizador: Margarida Lucas (2015 com “Rampa”), Ana Moreira (2018 com “Aquaparque”) e Mariana Gaivão (2019 com “Ruby”). 


Vários outros nomes ao longo dos anos ajudaram a construir uma identidade do Curtas e também uma nova identidade para o cinema português. O primeiro português premiado no Curtas foi na verdade Abi Feijó, nome incontornável da animação nacional, na segunda edição em 1994, ainda antes da criação de uma Competição Nacional. Em 1995 o primeiro prémio para a Competição Nacional foi atribuído a Marco Martins (por “Mergulho de Ano Novo”, co-realizado com João Braz), realizador que mais tarde seria premiado em Cannes com a sua primeira-metragem “Alice” (2005); tal como Martins, outros nomes foram distinguidos em início de carreira com o prémio para Melhor Filme, como Inês de Medeiros em 1998, Margarida Cardoso em 1999, Jorge Cramez em 2002, Rodrigo Areias em 2008; ou ainda Ivo Ferreira em 1999 (prémio Jovem Cineasta Português), Daniel Blaufuks em 2001 (Melhor Realizador). Além destes nomes, o festival permitiu descobrir as incursões no formato da curta-metragem de autores consagrados, como Pedro Costa (prémio para Melhor Filme em 2011, com “O Nosso Homem”) e João Pedro Rodrigues (2012, nomeação para os European Film Awards com “Manhã de Santo António” e 2017, Melhor Filme com “Où en êtes-vous, João Pedro Rodrigues?”), este uma presença assídua no festival, várias vezes também em colaboração com João Guerra da Mata, como no caso do filme encomenda do Curtas, “Mahjong” (2013).


Na já longa história do Curtas, e dos inúmeros e valiosos autores que passaram pelo festival, há porém uma curiosidade a salientar: três nomes venceram por duas vezes a Competição Nacional, deixando a sua marca no palmarés com o seu cinema do social ao documental ao íntimo e pessoal: Pedro Caldas, com “Pedido de Emprego” em 2000, e em 2007 com “Europa 2007”; Miguel Clara Vasconcelos com “Documento Boxe” em 2005 e “O Triângulo Dourado” em 2012; e Basil da Cunha com “À Côté” em 2010, e “Os Vivos Também Choram” em 2012. Recentemente tem sido Gabriel Abrantes, outro prolífero autor com várias presenças no Curtas, cuja veia criativa revela um irreverente e imprevisível autor sempre disposto a arriscar e a reinventar-se, que tem sido distinguido com vários prémios: menção honrosa em 2011 (com “Fratelli”, co-realizado com Alexandre Melo), Melhor Realizador em 2016 e 2017 (com “A Brief History of Princess X” e “Os Humores Artificiais”), e Melhor Ficção em 2019 (“Les extraordinaires mésaventures de la jeune fille de pierre”). 


Se a história do Curtas e da competição nacional é a soma dos seus vários autores e visões, o seu futuro será também um espelho do que presenciamos até agora: surpreendente, entusiasmante, tentador, vital e em permanente renovação e reinvenção, que corresponda a um desejo de intervir artisticamente sobre o mundo. Ou seja, regressando ao texto sobre a “Geração Curtas”: «fazer arte cinematográfica e basta».

(João Araújo)

Comunicado da Plataforma do Cinema

26 Abril 2020
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Como já foi reconhecido publicamente pelo governo, o sector da cultura foi dos primeiros a ver as suas actividades suspensas e será dos últimos a conseguir uma retoma. No caso do cinema, a situação é calamitosa. As salas de cinema estão fechadas e, quando finalmente for possível reabri-las, prevê-se uma fraca afluência de público. Várias produções (algumas já em fase de rodagem) foram interrompidas e adiadas sine die; quando regressarem as condições para poder prosseguir, os produtores terão de fazer face ao acréscimo de custos da paragem forçada e das novas condições de rodagem em contexto de distanciamento social. E, sobretudo, existem hoje – e continuarão a existir nos próximos meses – milhares de profissionais sem trabalho, num sector marcado pela precariedade e sazonalidade da atividade, profissionais para os quais nunca foi criado um regime especial de “intermitentes”, e que terão dificuldade em encaixar no sistema de apoios para os trabalhadores independentes da segurança social. 
      
Para fazer face à situação, a Plataforma do Cinema pensou em três medidas de intervenção pública que devem ser instituídas com carácter de urgência:
1) criação imediata de um fundo de emergência para os trabalhadores do sector, à semelhança do que já está a ser feito noutros países (Espanha, França, Reino Unido) e que também em Portugal foi estudado pelo ICA até essa possibilidade ter sido subitamente descartada pela SEC e pelo MC;
2) criação de um plano de contingência a dois anos para as diversas entidades que operam no sector (produtoras, festivais, cineclubes, empresas de serviços, exibidores e distribuidores independentes, etc) que amortize os prejuízos da suspensão das actividades previstas até que estas possam ser retomadas;
3) Incremento do papel da RTP junto do cinema, lembrando que ainda há uns anos estava em vigor um protocolo RTP / ICA que garantia um complemento financeiro automático ao montante atribuído pelo ICA a cada projeto apoiado, ficando a televisão pública com direitos de exibição do filme como contrapartida.
No passado dia 20 de Abril, representantes da Plataforma do Cinema reuniram com o Secretário de Estado e com o Presidente do ICA. O Secretário de Estado rejeitou a totalidade das propostas apresentadas pela Plataforma, alegando que não podem existir medidas de apoio a fundo perdido, que as questões dos trabalhadores da cultura devem ser resolvidas pelos ministérios centrais e que as medidas de apoio ao sector se irão cingir à flexibilização das regras administrativas no ICA. Tal como a Ministra da Cultura, o Secretário de Estado coloca a tónica no futuro do sector.

A Plataforma do Cinema não percebe que futuro é esse de que falam Ministra e Secretário de Estado. É revelador de uma preocupante falta de lucidez que se pondere  a discussão de um novo plano estratégico no final do ano, enquanto se testemunha  de braços cruzados a expectável falência de produtoras, distribuidores, exibidores independentes e outras entidades do sector. O efeito em cadeia levará a que o dinheiro destinado a projectos apoiados pelo ICA seja usado em desespero  para a sobrevivência de profissionais que se encontram totalmente desamparados e para a sobrevivência das estruturas. 
A Plataforma do Cinema considera que não existirá qualquer futuro com a inacção do presente. Constata a absoluta irrelevância política do Ministério da Cultura e da recém criada Secretaria de Estado do cinema e do audiovisual. E confirma definitivamente que os actuais ocupantes do Palácio da Ajuda não sentem fazer parte do sector que tutelam, que não o conhecem e que nada farão para o preservar.

Convencidos de que as dificuldades no sector do cinema e na cultura em geral irão infelizmente agravar-se, a Plataforma do Cinema apela à união entre profissionais e agentes da área da cultura para fazer ver aos responsáveis políticos, independentemente de quem sejam, que o Estado não pode lavar as mãos e abandoná-los à sua sorte na actual conjuntura. A responsabilidade política não ficou suspensa com o estado de emergência ou com a situação sanitária no país.

Pela Plataforma do Cinema

Agência da Curta Metragem
Apordoc – Associação pelo Documentário
APR – Associação Portuguesa de Realizadores
Casa da Animação
Curtas Vila do Conde
Doclisboa
IndieLisboa
Monstra – Festival de Animação de Lisboa
PCIA – Produtores de Cinema Independente Associados
Porto/Post/Doc
Portugal Film
Queer Lisboa

Filmes Curtos para Dias Longos

8 Abril 2020
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Neste momento de recolhimento responsável e isolamento social, em que o mundo que conhecemos parece temporariamente suspenso, uma das coisas da qual sentiremos falta por esta altura será, entre muitas outras, a possibilidade de uma visita a uma sala de cinema e de nos deixar levar pela proposta de um filme. Enquanto esperamos pelo regresso aos dias normais, parece importante manter o contacto com esse hábito, mesmo que agora de uma forma virtual. A Agência da Curta Metragem tem levado a cabo uma iniciativa com o título “Filmes Curtos para Dias Longos” para ajudar precisamente a diminuir a distância em relação ao cinema como espaço comunitário e de partilha, apresentando num espaço virtual várias curtas-metragens de autores portugueses.

O Curtas Vila do Conde associa-se agora a essa iniciativa com um programa que celebra o formato e apresenta algumas das produções do Curtas ao longo dos últimos anos, de autores internacionais (títulos que serão disponibilizados na primeira semana do ciclo) e de autores nacionais (filmes disponibilizados na segunda semana), possibilitando assim a (re)descoberta dessas obras. Estes filmes contam como característica importante uma ligação à região norte de Portugal, e alguns deles têm mesmo uma relação directa com Vila do Conde, onde foram rodados. Este programa permite assim dar a conhecer não só conhecer parte da história recente do festival, como também da região onde este decorre. 

O Curtas anunciou recentemente o adiamento da edição deste ano para uma nova data, de 3 a 11 de Outubro, e esta será uma forma de manter o público cinéfilo do festival ligado aos filmes do Curtas, enquanto aguardamos por novidades. Os filmes serão colocados online neste espaço [https://vimeo.com/showcase/short-films-for-long-days], e os diferentes títulos serão divulgados nos próximos dias, juntando-se a esta lista. Esperamos assim contribuir de alguma forma para reduzir as saudades em relação ao cinema e manter as conversas em redor dos filmes, mesmo que não sendo à porta do auditório, para ficarmos todos mais perto. 

"O Sonho do Estivador" de Bill Morrison:
"Em 2015, o Curtas Vila do Conde juntou o cineasta Bill Morrison e a banda Lambchop para um projecto inédito de filme-concerto, feito a partir de pesquisas do realizador nos arquivos do ANIM. O resultado visual e sonoro dessa iniciativa e o sucesso do concerto levou à produção de uma curta-metragem. Kurt Vagner usufriu da oportunidade para explorar, numa longa canção intitulada “The Hustle”, sonoridades de krautrock e electrónica vintage até aí pouco visíveis na sua discografia. O filme foi também parte importante na promoção do álbum “FLOTUS”. (Miguel Dias)

"Noite Sem Distância" de Lois Patiño: 
"Filmado nas montanhas do Gerês, na fronteira entre Portugal e a Galiza, “Noite Sem Distância” parece situado ele próprio entre dois mundos, na fronteira entre a descrição vagarosa de uma prática que se repete desde sempre e um estranho sonho sensorial e hipnótico. A representação da passagem do tempo é precisamente um dos temas centrais da filmografia de Patiño, que aqui retrata uma noite igual a tantas outras, na qual o contrabando percorria aquela região, como uma sucessão de vários instantes que se alongam, retirando-lhe a especificidade do tempo e assim criando um carácter intemporal, quase sagrado, de uma beleza serena. O uso de um filtro de imagem negativa confere ao filme um aspecto transcendental e ilusório, porém serve também para transformar as personagens em vultos indistintos, como fantasmas-testemunhas da natureza, figuras que se confundem e entrelaçam com os elementos à sua volta ou “rastos de almas na paisagem”, como escreveu Teixeira de Pascoaes no poema citado no início do filme. Um percurso do real ao poético, esta é também uma pequena fábula sobre a resistência da memória." (João Araújo) 
 


Este filme foi produzido pelo Curtas Vila do Conde no âmbito do projecto CAMPUS, um programa de formação audiovisual no ensino superior com parcerias de várias universidades portuguesas da zona do Porto, que promoveu workshops e masterclasses com nomes importantes do cinema contemporâneo (nacionais e internacionais) e resultou na produção de filmes como este, com os realizadores a trabalharem com uma equipa composta por alunos do ensino superior.

"Fernando que Ganhou um Pássaro do Mar" de Helvécio Marins Jr. e Felipe Bragança:
"Uma bela e cândida parábola sobre ideias pré-concebidas e amizades improváveis, "Fernando Que Ganhou um Pássaro do Mar", filmado entre o Bairro das Fontainhas, no Porto, e o Rio Janeiro, conta-nos a correspondência entre dois amigos que afinal não se conhecem, que começa quando Fernando, no Porto, recebe um pássaro enviado através do oceano. Esta troca de cartas, que é na verdade um monólogo no início, revela um curioso jogo de espelhos, no sentido em que começa por revelar ideias refletidas, possibilidades do que imaginamos estar do outro lado. Estamos em 2013 e Fernando, desempregado, divide o seu tempo entre um pequeno apartamento com poucas condições e o café da esquina, enquanto se queixa, por carta, do pássaro que não parece ser grande prenda mas que até ajuda a atenuar a solidão. Fernando imagina um Brasil paradisíaco, com as suas praias de água quente, sereias e índios nos seus palácios, e é exactamente isso que vemos do outro lado, a ideia fantasiosa de um Brasil imaginado aos olhos de um português à distância. Só mais tarde essa imagem é revertida para representar o Brasil contemporâneo, onde aflui dinheiro e pobreza ao mesmo tempo, criando enormes brechas. De repente o palácio transforma-se numa casa parecida à das Fontainhas e a metáfora, dissimulada no início, torna-se evidente: com a aproximação entre os dois pontos de partida, percebemos que os dois estão afinal mais perto do que poderiam imaginar." (João Araújo)


O filme, que teve a sua estreia internacional na secção Forum da Berlinale, é uma produção Curtas Metragens CRL, em co-produção com Duas Mariola, que assim estabeleceu uma ponte entre estruturas emergentes na produção de cinema em Portugal e no Brasil, num contexto de acentuada crise na Europa e na produção de cinema em Portugal. 

“O Milagre de Santo António” de Sergei Loznitsa:
"mi·la·gre (substantivo masculino): 
1. Facto sobrenatural oposto às leis da Natureza. 2. Portento, maravilha, prodígio. 
A benção dos animais que decorre todos os anos em meados de junho, na aldeia de Santo António de Mixões da Serra, no Gerês, tradição segundo a qual os agricultores locais levam os seus animais para a Igreja, parece em tudo um facto oposto às leis da natureza, com uma missa dedicada a estes animais. Pelo menos por uma vez os animais têm também direito a participar no culto, lado a lado com os santos, e o espectáculo insólito de uma procissão de cavalos a serem abençoados é uma pequena maravilha visual. Sergei Loznitsa, realizador ucraniano que alterna entre o documentário e a ficção e muitas vezes procura um equilíbrio entre os dois, é um dos autores com mais presenças na competição internacional do Curtas,  e premiado em 1999 pelo filme “Life Autumn” e em 2001 por “Polustanok”. Mais interessado nas pessoas e nos seus costumes do que propriamente no milagre enunciado, Loznitsa volta a explorar através de um olhar curioso as possibilidades de um filme focado em rostos anónimos, uma multidão de devotos que ganha assim relevo. Acompanhando este ritual de forma solene, este é um retrato sincero de como uma tradição ancestral é ainda hoje celebrada, reunindo a comunidade e os seus animais nas ruas desta aldeia na montanha." (João Araújo)


Este filme foi produzido pelo Curtas Vila do Conde no âmbito do ESTALEIRO, uma  plataforma contínua de programação cultural entre 2010 e 2012, que teve como objectivo criar um pólo de criatividade, agregando criadores e público em diferentes momentos. Durante estes dois anos, o ESTALEIRO produziu diversos filmes, organizou workshops e exposições, e proporcionou diversos concertos na cidade de Vila do Conde. 

Vila do Conde Espraiada” de Miguel Clara Vasconcelos:
"Na sequência da passagem do seu filme “O Triângulo Dourado”, prémio para melhor filme na competição nacional do Curtas em 2014, Miguel Clara Vasconcelos propôs-nos uma produção cuja base seria composta por arquivos pessoais e filmes amadores em super 8 ou 16mm, rodados em Vila do Conde, intercalados com uma parte ficcional filmada na actualidade. O nosso entusiasmo foi total: desde há alguns anos que falávamos sobre um projecto de pesquisa e digitalização de material com imagens da cidade, bobines esquecidas algures em sótãos e baús, mas ainda sem um destino concreto. Esta ideia do Miguel era a motivação que faltava para arrancar com esse projecto, que tomou a forma de uma residência artística a explorar em duas vertentes: um filme, que se viria a chamar “Vila do Conde Espraiada”, e uma exposição em forma de instalação audiovisual, integrada na programação da Solar – Galeria de Arte Cinemática, e que foi montada no Centro de Memória, chamada “Onde o Coração Se Esconde”, numa dupla referência a dois grandes escritores com uma ligação à cidade, José Régio e Ruy Belo. Segundo o realizador, “a memória de Vila do Conde é também a memória da minha mãe. Quando faleceu, tive uma vertigem. O tempo passado nessa vila-cidade parecia desaparecer bruscamente, escapar-me, morrer em mim. Na edição de 2014 do Curtas, percebi que era urgente trabalhar essa matéria sensível, mágica, que é a infância e que foi para mim Vila do Conde”.

 
“Vila do Conde Espraiada” reapropria esses pequenos filmes encontrados para, a partir daí, construir uma narrativa apoiada na revisitação de memórias da infância e da juventude, sobretudo da década de 1980. Trata-se de uma autobiografia ficcionada, alternando imagens do presente (ficção) e do passado (documental), onde a feliz opção por filmar em película 16mm fortaleceu a coesão entre as imagens. Também o fio condutor da narração é bastante cativante: a gravação de uma cassete de fita magnética, em forma de carta de amor com canções pelo meio, para uma namorada que se encontra longe. As palavras e as imagens criam, numa linguagem poética que já encontrávamos noutras obras do autor, uma envolvente emocional que mistura a história de amor com as memórias de acontecimentos dispersos, uns importantes, outros aparentemente insignificantes, mas são esses que fazem de nós aquilo que somos hoje em dia, e que nunca poderão ser dissociáveis de um determinado lugar, de uma certa cidade ou paisagem. De uma forma notável, o filme integra ainda o comentário político de uma época plena de convulsões, não abdicando do ponto de vista do entendimento de uma criança e recorrendo ainda, pelas imagens dos arquivos, aos grafittis políticos que eram comuns por essa altura em todas as cidades portuguesas. No centro desse comentário político surge uma das ideias mais felizes do filme, as ligações entre os meninos ricos e os meninos pobres (que para o Miguel enquanto criança eram os “meninos da avenida” e os “meninos do campo”, já que estes viviam em casebres que se vislumbravam nos terrenos baldios das traseiras do jardim de sua casa).  À liberdade política recentemente conquistada junta-se uma ideia de liberdade perdida, a da infância. Esta podia ser apenas uma aventura num passeio de bicicleta para lá das placas na estrada que indicam a entrada em Vila do Conde, ou um evento indecifrável numa tenda de campismo fora dos limites da cidade. Ou, como diz o realizador/narrador, “a liberdade das crianças está em não perceber muita coisa, não se sacrificar por dinheiro nem sofrer de amor”." (Miguel Dias)
   
"Rio Entre As Montanhas" by José Magro
“Nenhum homem pode entrar duas vezes no mesmo rio, pois quando se entra novamente não se encontram as mesmas águas, e o próprio homem já não é o mesmo. O aforismo é grego, mas aplica-se à personagem principal deste filme rodado na cidade chinesa de Hancheng, sobre um homem em processo de descoberta pessoal. Este é um conto sobre esse homem, muito novo ainda e à procura ainda de encontrar o amor na sua vida, e que aqui percorre as ruas chuvosas da cidade como se navegasse um rio ao qual não regressaria de forma igual, transformado por cada encontro anterior. Ouvimos os seus pensamentos, as suas recordações e impressões sobre diferentes sentimentos, sobre os diferentes aspectos que o amor pode representar para si, obcecado com a ideia de algo que ainda não encontrou. Um retrato delicado e melancólico de um instante numa longa jornada sentimental, e até com algum humor na forma como joga com alguns preceitos do que é esperado de um filme sobre o romance, sempre debaixo do embalo de um olhar cuidadoso e perspicaz. Como diz a canção que ouvimos durante o filme: “a viver numa espécie de sonho acordado”.” (João Araújo) 


"A Glória de Fazer Cinema em Portugal" de Manuel Mozos
"Partindo de um facto histórico no mínimo curioso – uma carta que José Régio escreveu a Alberto Serpa, manifestando o interesse de fundar uma produtora para começar a fazer cinema –, em A Glória de Fazer Cinema em Portugal, Manuel Mozos ensaia um documentário falso onde reconstrói um possível envolvimento na arte cinematográfica de um dos intelectuais portugueses mais importantes, José Régio. Com um argumento exemplarmente urdido pela escrita de Eduardo Brito, o filme concretiza, de facto, aquilo que poderia ter sido uma das mais curiosas experiências cinematográficas do cinema português. Um exercício historicamente efabulado, mas que, por isso mesmo, nos deixa a navegar pelas possíveis cronologias alternativas da História." (Daniel Ribas)



Este filme foi produzido pela Curtas Metragens CRL, no contexto do seu programa Campus, envolvendo alunos de escolas de cinema do Porto. 

"Mahjong" de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata:
"O projeto ESTALEIRO funcionou como uma plataforma contínua de programação cultural entre 2010 e 2012, que teve como objetivo criar um pólo de criatividade em Vila do Conde. Durante esse período, o ESTALEIRO produziu diversos filmes, organizou workshops e exposições, e proporcionou diversos concertos na cidade. No âmbito da produção de filmes, propôs-se a vários realizadores olhares diversos sobre a região, e a dupla João Pedro Rodrigues/João Rui Guerra da Mata apropriou-se da Zona Industrial da Varziela, em Vila do Conde. Aí reside a mais significativa comunidade chinesa no norte de Portugal, oportunidade para os autores darem continuidade aos seus filmes de inspiração asiática, onde “Mahjong” ecoa, sobretudo, com “A Última Vez Que Vi Macau”. Em ambos os filmes, o olhar documental inicial vai abandonando quaisquer pretensões de um retrato realista de um espaço, dando lugar a um enredo marcado pela cultura cinéfila dos seus autores, que joga com códigos reconhecíveis de géneros cinematográficos, sobretudo o film noir e o suspense. Em “Mahjong” esses elementos aparecem filtrados por delírios hipnóticos e por uma tensão dissonante que parece querer despistar o espectador a todo o momento. O que parece ser uma investigação à maneira de um filme policial dá lugar a uma realidade paralela, onde manequins tomam o lugar de seres humanos, onde os pássaros e as flores são de plástico. Ilusões espectrais de mulheres enigmáticas e a noite naquele deserto industrial de ruas idênticas aumentam o mistério, que longas sequências ao volante de um automóvel aprofundam, fazendo por vezes lembrar “Vertigo”. A excelente banda sonora de Luís Fernandes, também ela de ecos hitchcockianos, sublinha esta busca metafísica e meta fílmica. Mais do que procurar os pontos cardeais de uma história onde, à boa maneira do film noir, os segredos por desvendar são mais relevantes que as frágeis convicções do espectador, embarcamos nesta narrativa estimulante e esteticamente deslumbrante como num jogo, juntando os elementos disponíveis como conjuntos de pedras de mahjong.” (Miguel Dias)


“A Rua Da Estrada" de Graça Castanheira:
Partindo do icónico livro de Álvaro Domingues, com o mesmo título, este filme procura mapear o conceito avançado pelo geógrafo: a ideia de que as estradas nacionais estão configuradas para serem locais de diálogo entre os vendedores e os viajantes. A panóplia de recursos visuais a que estas casas recorrem transforma a estrada numa rua sugestiva, estabelecendo uma estética própria, eminentemente kitsch. A poética de A Rua da Estrada encontra-se na encruzilhada entre uma cultura de consumo e uma descaracterização homogénea dos longos quilómetros das estradas nacionais. Este filme foi produzido pela Curtas Metragens CRL, no contexto do seu programa Campus, envolvendo alunos de escolas de cinema do Porto. (Daniel Ribas)
 


"Com início a 17 de março, em pleno período de estado de emergência, a iniciativa “Filmes Curtos para Dias Longos” da Agência da Curta Metragem, à qual o Curtas Vila do Conde se associou mais tarde com um programa especial, decorreu até ao passado dia 19 de maio. Nestes dois meses foram disponibilizados online e de forma gratuita 22 filmes de importantes autores, na sua maioria portugueses mas também com algumas participações estrangeiras, que atingiram mais de 25 mil visualizações, um número significante que reflecte a procura de objectos culturais num período de confinamento obrigatório.

Numa altura em que nos é pedido para ficarmos em casa, a cultura afirma-se como um bem essencial, e seja literatura, música ou cinema, ajuda a manter-nos ligados ao mundo. É uma forma de escape da rotina em tempos conturbados, uma companhia para aliviar a passagem do tempo e diminuir distâncias em tempos de isolamento social. É vital fazer esse reconhecimento valioso da cultura, e neste caso específico do cinema, na forma dos filmes que foram assim colocados online para todos que estavam em casa tivessem contacto com uma parte fulcral da cultura portuguesa, que tanto tem sido distinguida um pouco por todo o mundo. Agradecemos assim a todos os que contribuíram generosamente com os seus filmes para esta iniciativa, considerando sempre que um filme é também resultado de um esforço comum de uma equipa, de realizadores, editores, produtores, argumentistas, actores, directores e técnicos de fotografia ou som, ilustradores, coloristas, tradutores, decoradores, eletricistas, anotadores, entre outros. Este é um sector que vive constantemente em situação de instabilidade e precariedade laboral, cujo contributo importante para o bem-estar comum deve ser reconhecido e apoiado por todos, porque é importante saber que quando precisamos da cultura, ela está lá para todos." (João Araújo)

28º Curtas Vila do Conde Adiado

30 Março 2020
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A 28ª edição do Curtas Vila do Conde, inicialmente agendada para as datas de 11 a 19 de julho de 2020, foi adiada devido ao surto de COVID-19.



A incerteza sobre a situação em Portugal e na Europa, nos próximos meses, fez com que a organização do festival decidisse desde já pelo seu adiamento, apontando os dias 3 a 11 de outubro para a sua realização. Devido a esta alteração, as novidades sobre os conteúdos da programação do evento serão apenas divulgadas a partir do mês de junho. Mesmo considerando a excecionalidade desta situação, o festival tem asseguradas todas as parcerias institucionais e privadas, tendo estas já demonstrado a sua total solidariedade. 
O Curtas Vila do Conde está igualmente solidário com todos os outros eventos e profissionais do sector cultural afectados por esta pandemia. 

Estes são tempos novos e extraordinários para todos. É importante para nós começar a pensar num caminho de regresso, e por isso continuaremos a trabalhar para uma nova edição do festival, ainda que numa altura diferente do ano. Esperamos, assim, acompanhar um recomeço que passe também pelo regresso ao cinema como um local de encontro, num festival que sempre foi uma celebração da cultura e da comunidade. Porém, este é um momento de união no cumprimento das recomendações da Direcção-Geral da Saúde, de forma a estarmos, em breve, todos juntos numa sala de cinema.

Looking Back: Uma breve história da Competição Internacional do Curtas

26 Fevereiro 2020
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As curtas-metragens parecem estar outra vez na moda, com diversos autores consagrados a voltarem recentemente a este formato. Quer seja uma forma de experimentação com as possibilidades do cinema, quer seja como forma de contornar os constrangimentos de uma produção tradicional, ou o resultado imediato de uma crescente facilidade em partilhar uma obra com o público através das novas tecnologias, são vários os exemplos: desde as curtas de David Lynch e Paul Thomas Anderson para a Netflix, ao pequeno filme dos irmãos Safdie lançado na altura da estreia de “Uncut Gems”, a obras de Yorgos Lanthimos (“Nimic”) e Luca Guadagnino (“The Staggering Girl”) apresentadas em festivais, ou até o filme de Jonathan Glazer (“The Fall”) que interrompeu a emissão da BBC. Para muitos é um regresso a um formato que adotaram em início de carreira, um caminho das curtas à longa que faz parte do percurso normal de um realizador. É esse percurso que permite que as curtas sejam uma janela para o futuro dos seus autores, reflexo de uma altura de definição do seu cinema. 

O Curtas Vila do Conde, na sua competição internacional, orgulha-se de ter acompanhado vários nomes importantes do cinema mundial desde o início da sua carreira, e de oferecer a possibilidade de descobrir os autores exatamente nessa fase de ebulição da sua visão criativa. A história desta competição no Curtas é longa e fértil. É a competição que se mantém desde a primeira edição, em 1993, cujo objetivo sempre foi de dar a conhecer novos autores, numa fase inicial da carreira ou então apenas pouco conhecidos até aí do público nacional, como é afirmado no catálogo da primeira edição do festival: “Curta-metragem, curta-escala: são numerosos os grandes nomes de hoje que se forjaram nesta escola (...) assim, promover a curta-metragem é participar na construção do universo cultural presente, é preparar o universo cultural de amanhã”.

No campo da ficção, um dos nomes mais importantes que o festival acompanhou desde cedo é o cineasta de Taiwan, Tsai Ming-Lang: vencedor do prémio para melhor ficção em 2003 (“La Passarelle Disparue”) e em 2009 (“Madame Butterfly”), intercalava as suas longa-metragens com filmes de menor duração, muitas vezes repetindo personagens e temas, como forma de explorar novas variações para o seu cinema minimalista; outro exemplo notório será o tailandês Apichatpong Weerasethakul: alvo de uma retrospetiva no festival em 2006 que deu a conhecer o cineasta ao público português, e conhecido também como artista visual pelas suas instalações apresentadas na Solar - Galeria de Arte Cinemática, em 2009 foi exibida em competição a sua curta “A Letter to Uncle Boonmee”, um filme precursor da obra que venceria, um ano mais tarde, o Festival de Cannes - ilustrando assim a possibilidade recorrente de utilizar este formato para trabalhar um esboço do que poderá mais tarde ser uma longa-metragem. Hou Hsiao-Hsien é outro cineasta da “nova vaga” asiática que o festival também acompanhou, mas podemos também falar de outros nomes: desde o contingente americano, que deu a conhecer autores como Spike Jonze, Harmony Korine ou Sean Durkin, ou o recente período dourado do cinema romeno, que revelou nomes como Adrian Sitaru e Corneliu Porumboiu, ou a forte influência da produção francesa, desde Alain Guiraudie (premiado em 2002) a Louis Garrel (2011), a autores que hoje em dia redefinem a identidade do cinema francês, como Yann Gonzalez (premiado em 2006 e 2017) e Bertrand Mandico (Grande Prémio do Festival em 2011). Um dos exemplos mais recentes desta feliz coincidência de descobrir autores através da curta-metragem será o israelita Nadav Lapid, vencedor em 2016 do Grande Prémio do Curtas e recentemente galardoado com o prémio máximo do Festival de Berlim em 2019.


A animação sempre foi uma vertente fundamental deste formato, permitindo um maior contato com obras que de outra forma dificilmente seriam exibidas nas salas de cinema. Logo na primeira edição, em 1993, o festival premiou a obra de Aleksandr Petrov, cineasta russo que ganharia mais tarde em 1999 o Óscar para Melhor Animação. Na edição seguinte seria a vez de ficarmos a conhecer o trabalho de Nick Park, criador da série “Wallace and Gromit”, premiado esse ano pelo filme “The Wrong Trousers” (com o qual ganharia também o Óscar), seria novamente premiado pelo público do Curtas em 1996 com “A Close Shave” - com 4 prémios da Academia de Hollywood, é um dos nomes mais consagrados nesta área. O humor é uma das imagens de marca desta vertente do cinema e autores como o americano Bill Plympton, premiado em 2005 por “Guard Dog” e uma presença constante no festival desde 1997, ou a dupla belga Stéphane Aubier e Vincent Patar, autores da série “Panique au Village”, presentes no festival desde também desde 1997 (e premiados no festival em 2004, 2014 e 2019) são alguns dos autores que o Curtas acompanhou ao longo das suas várias edições. David O’Reilly é um autor que explora de forma original as possibilidades do 3D e a intersecção entre animação e videojogos, como é o caso de “Everything”, exibido em 2017 - além de várias presenças na competição, foi premiado em 2008 com o seu filme “RGB XYZ”. Ludovic Houplain, um dos autores de “Logorama”, galardoado com o Prémio do Público em 2009 e com o Óscar no ano seguinte, regressou em 2019 com “My Generation”, nova obra sobre os ícones do mundo moderno - é um acompanhamento dos seus “autores” que também faz parte da identidade do festival e desta secção competitiva.  


O documentário tem conhecido várias evoluções ao longo dos anos do festival, que tem acompanhado a crescente atenção dedicada ao formato e as tendências de diluição de fronteiras entre este género e a ficção. É algo que é refletido pelos autores que o festival tem dado a conhecer, como é o caso de Sergei Loznitsa, realizador ucraniano que alterna entre o documentário e a ficção e muitas vezes procura um equilíbrio entre os dois - foi premiado em 1999 pelo filme “Life Autumn” e em 2001 com “Polustanok”, e é um dos autores com mais presenças na competição internacional do Curtas. Outro nome importante que demonstra como o documentário e a ficção tem vindo a confundir-se nos últimos tempos é Nicolás Pereda, cineasta galardoado em 2009 (“Entrevista con la Tierra”) e 2014 (“El Palacio”). O documentário é também uma área abrangente, que oferece espaço a autores que exploram o lado experimentalista do formato, casos de Deborah Stratman (premiada em 2003 e com vários filmes exibidos ao longo dos anos) ou Thom Andersen (um dos autores que já trabalhou com o Curtas numa produção, e premiado em 2011 com “Get Out of the Car”), ou então o lado mais tradicional, como é o caso de Victor Asliuk, realizador bielorusso conhecido pelos seus retratos cândidos de figuras nas margens da sociedade. De um lado ao outro cabem diferentes definições e interpretações do que é o cinema, possibilidades imensas representadas por diversas cinematografias de vários países e culturas, e autores sempre por descobrir e à espera de nos surpreender com a imaginação do cinema. A verdade é que as curtas nunca deixaram de estar na moda.

(João Araújo) 

Vencedor do “My Generation” é um dos nomeados dos Óscares 2020

13 Janeiro 2020
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O filme “Nefta Football Club” de Yves Piat e Damien Megherbi, vencedor do programa “My Generation” do Curtas Vila do Conde, está entre os cinco nomeados para o prémio de “Melhor Curta Metragem” dos Óscares 2020.

A secção “My Generation”, nova secção competitiva do Curtas Vila do Conde, é especialmente direcionada para a faixa etária entre os 14 e os 18 anos. As curtas-metragens desta secção foram selecionadas por um grupo de 12 alunos de escolas do Ensino Secundário de Vila do Conde e Póvoa de Varzim.

“Nefta Football Club” retrata a história de Abdallah, amante de futebol, que encontra no deserto uma mula que transportava droga, que ele pensava ser detergente. Abdallah decide utilizar o “detergente” para desenhar as linhas de marcação no seu campo de futebol.

A cerimónia de entrega de prémios da 92ª edição dos Óscares será realizada no dia 9 de fevereiro, em Los Angeles.

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