“Farpões Baldios” de Marta Mateus vence 25º Curtas Vila do Conde

16 Julho 2017
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O palmarés da 25ª edição do Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema foi anunciado esta tarde na cerimónia de encerramento do festival. O grande prémio do certame foi entregue a um filme português: “Farpões Baldios” de Marta Mateus. 


O júri – composto por Pela Del Alámo (CurtoCircuito – Festival Internacional de Cine), António Preto (programador de cinema), Nicole Brenez (docente e investigadora de Estudos de Cinema na Universidade de Paris 3 – Sorbonne Nouvelle), Dennis Lim (Film Society of Lincoln Center) e Georges Schoucair (produtor de cinema) – considerou o filme “uma obra tão luminosa quanto exigente” que “revivifica uma linhagem de obras onde a infância desbloqueia os sofrimentos, os erros e a virtualidades do passado, tradição que devemos, entre outros, a Manoel de Oliveira, a António Reis e Margarida Cordeiro, a Teresa Villaverde”. A curta-metragem venceu o Grande Prémio DCN Beers da Competição Internacional (à qual concorrem também os filmes da Competição Nacional).

 

Na mesma competição, “My Burden” de Niki Lindroth von Bahr foi o vencedor do prémio para Melhor Animação; “O Peixe” do brasileiro Jonathas de Andrade foi considerado o Melhor Documentário e “Les Îles” de Yann Gonzalez foi premiado com o troféu para Melhor Ficção.  O Prémio do Público Niepoort foi atribuído pelos espetadores a “Retouch” do iraniano Kaveh Mazaheri.

 

A espanhola Laura Ferrés venceu o Prémio de Melhor Curta-Metragem Europeia com “Los Desheredados”. O filme ficou, assim, nomeado para os European Film Awards da European Film Academy.

 

Na Competição Nacional, que contou com 16 filmes portugueses a concurso, o vencedor do Prémio BPI e Pixel Bunker foi “Où En Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues?”, de João Pedro Rodrigues, um filme que, segundo o júri, é “capaz de fazer explodir tudo, e o mais depressa possível”, debatendo-se com o auto-retrato da humanidade por ela própria, empreendimento geral que é o cinema, ao mesmo tempo que desloca os princípios da autobiografia”. 

Gabriel Abrantes venceu, pelo segundo ano consecutivo, o Prémio Blit para Melhor Realizador Português, desta vez com “Os Humores Artificiais”. Nas palavras do júri, o prémio foi atribuído ao realizador “pela sua fantasia romântico-tecnológica, por ter inventado o primeiro robot multigénero, por ironizar energicamente um mundo onde não queremos viver”. 

 

O Prémio do Público SPA, destinado ao melhor filme português com melhor média de votação atribuída pelo público, foi atribuído à animação “Surpresa” de Paulo Patrício.

 

Também pelo segundo ano consecutivo, a realizadora Rosa Barba venceu a Competição Experimental, com o seu novo filme “From Source to Poem”. O Prémio Grupo Jorge Oculista foi atribuído “pela inteligência da sua proposta visual e sonora, a criação de uma constelação não-linear de imagens e sons do maior arquivo multimédia do mundo, onde a presença de texto e tipografia aparecem em constante transformação, refletindo os interesses da artista relativos à permanente perda de informação essencial.” Ainda na Competição Experimental, foi atribuída uma Menção Honrosa a Lois Patiño pelo filme "FAJR".

 

No Curtinhas, secção para os mais novos onde o júri é composto por crianças, o Prémio Curtinhas MAR Shopping foi entregue a “Revolting Rhymes, Part One” de Jakob Schuh e Jan Lachauer. Nesta competição foram ainda distinguidos com menções honrosas os filmes “Jubilee” de Coralie Soudet, Charlotte Piogé, Marion Duvert, Marion El Kadiri e Agathe Marmion; “Lost In Spring” de Fred Leao Prado Wall e “Mindenki”, de Kristof Deak.

 

João Nicolau venceu a Competição de Vídeos Musicais com “Old Habits” de Minta & The Brook Trout.

 

Na Competição Take One!, dedicada a filmes de escola, foram entregues à curta-metragem “De Gente Se Fez História”, de Inês Pinto Vila Cova, o Prémio IPDJ, o Prémio Smiling, o Prémio Agência da Curta Metragem e o Prémio Restart. Ricardo Pinto de Magalhães venceu o Prémio Kino Sound Studio para Melhor Realizador pelo filme de escola “Delphine Aprisionada”.

 

Os filmes premiados repetem, este domingo, no Teatro Municipal de Vila do Conde, em sessões às 18:30, 21:15 e 22:30. Os premiados serão também apresentados, em diferentes cidades do país, através das extensões do festival que arrancam já amanhã.

 

O 25º Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema tem o apoio da Câmara Municipal de Vila do Conde, do Ministério da Cultura, do Instituto do Cinema e Audiovisual, do programa MEDIA/Europa Criativa e de vários parceiros imprescindíveis à realização do festival, incluindo a Acción Cultural Española (AC/E) que apoia a forte presença de Espanha no Curtas Vila do Conde.

Destaques do dia: Domingo 16 de julho

16 Julho 2017
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A 25ª edição do Curtas Vila do Conde chega ao fim este domingo com o anúncio dos filmes vencedores. A entrega de prémios terá lugar às 17:00 numa cerimónia que irá também apresentar duas curtas-metragens:

Após serem conhecidos os premiados, estes serão exibidos mais uma vez em sessões às 17h, com os filmes da Competição Curtinhas, e às 18h30, 21h15 e 22h30 com os premiados das Competições Nacional, Internacional e Experimental.

Antes, às 15:00, será repetida a Competição Nacional de sábado e, às 16:00, decorrerá um último Encontro com Realizadores.
O dia termina no Cacau Café-Bar, com a Staff Night.
Os bilhetes encontram-se à venda no Teatro Municipal, Auditório Municipal e rede da Bilheteira Online.

Destaques do dia : Sábado 15 de julho

15 Julho 2017
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Este sábado, penúltimo dia do festival, o Curtas Vila do Conde promove o debate "Cinema Português: dúvidas, certezas e expectativas”, uma conversa acerca do atual contexto político do cinema nacional e as consequências da alteração à Lei do Cinema, às 18h no Auditório Municipal.

A Competição Nacional continua, às 21h15, quando serão exibidos mais três filmes a concurso: "Cedrim", de Diogo Vale, "Longe da Amazónia", de Francisco Carvalho e "Farpões Baldios", de Marta Mateus. Às 20h será repetida a sessão de ontem. Destaque ainda para as duas sessões da Competição Internacional, às 17h e às 22h30, e para a Competição Experimental às 18h30. 

A secção In Focus, que dedica uma retrospetiva ao cineasta francês F. J. Ossang, conta hoje com sessão dupla. Às 15h serão exibidas todas as suas curtas-metragens, numa sessão que irá contar também com um debate com o próprio realizador, moderado pela investigadora Nicole Brenez. Às 23h30, será exibido "Dr. Chance", protagonizado pelo ator português Pedro Hestnes. Nesta história, Angstel troca em pinturas forjadas, sob a orientação de sua mãe, Milady. A sua rede estende-se para outros assuntos obscuros, provocando a ira de uma gangue rival. Angstel apaixona-se por Ancetta, uma prostituta, e foge com ela para o norte do Chile.

A Carta Branca dos 25 anos do festival apresenta, às 21h45, com as escolhas de João Faria, Paulo Furtado e Sabrina D. Marques: "Coffee and Cigarettes", de Jim Jarmusch; "Kaleidoscope", de Len Lye; "Visa de Censure No.X", de Pierre Clémenti.

Hoje terão também lugar os Encontros Com Realizadores, com sessões que irão promover o diálogo com realizadores das Competições Internacional e Experimental às 14h e da Competição Nacional às 16h. 

A secção Stereo de hoje conta com o concerto da banda portuguesa Mão Morta. No ano em que se assinala o 25º aniversário de "Mutantes S21", os Mão Morta sobem ao palco do Teatro Municipal para uma apresentação integral do mítico álbum. A banda de Adolfo Luxúria Canibal regressa, assim, ao festival, onde atuou há nove anos, para um concerto de celebração do disco que colocou os Mão Morta no radar do rock português.

O dia termina no Café do Parque, com um DJ Set de The Legendary Tigerman.
Os bilhetes para o festival encontram-se à venda na bilheteira do Teatro Municipal, no Auditório Municipal e na rede da Bilheteira Online.

O jogo de sombras das profundezas da memória

14 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Teresa Vieira

Um homem sem memória é um homem sem identidade. Um homem sem memória não é um Homem: não passa de um animal perdido na tenebrosa e assombrosa escuridão do esquecimento e da indefinição da identidade. Altas Cidades de Ossadas (2017), de João Salaviza, propõe uma exploração visualmente sombria de um homem que, sobre a luz das tentativas de reformatação social e cultural da sua comunidade, se mantém ligado à raiz da sua identidade cultural, ao território onde sente que pertence. 

Karlon, personagem principal desta ficção, mas também personagem principal do mundo do rap crioulo em Portugal, está despido de elementos superficiais, sem roupa no tronco, mas, acima de tudo, sem as camadas mais superficiais da memória e da identidade, num estado quase primitivo de um homem que existe (resistindo) através da ligação às profundezas culturais que o definem. A sua memória mais recente está apagada, o contacto com a comunidade a que pertence é esporádica, mas a coletividade que retrata e representa, em si, é de uma força abismal. Um homem aparentemente sem memória individual, que poderia ser reduzido a um animal perdido na escuridão, mas que resplandece, numa absoluta plenitude, a identidade e memória coletiva da cultura em que se integra. A sua força de expressão assenta nas palavras, nos versos, na garra e persistência de ligação ao território que o viu nascer e crescer enquanto pessoa.

A escuridão do meio que rodeia Karlon marca, em termos visuais, este registo de Salaviza, num jogo constante de sombras que nos remete para um estado do inconsciente, de um lugar remoto da memória, que é apagado - ou, talvez, necessariamente desligado - da realidade diária de qualquer indivíduo, de qualquer comunidade, de qualquer cultura, ainda que sempre presente. Somos transportados para uma espécie de savana de elementos naturais, onde o contacto com a realidade mais superficial nos surge somente através de pequenos relances de luz, que incidem sobre amigos e familiares de Karlon, que nos surgem enquanto aparições que instigam a interrupção do estado de alienação - tão terrena, tão natural - da personagem. Somos transportados para o estado mais interior deste indivíduo, que nos transmite a força de uma identidade que não pode - nem deve - ser apagada.


Esta é um registo visual de resistência, uma reflexão performática sobre a tentativa constante de reintegração - forçada -, de realojamento apressado e despersonalizado de comunidades que não encaixam no suposto padrão civilizacional: a colocação de uma cultura num local sem identidade, ao qual não pertencem nem querem pertencer. Uma resistência que se assemelha a uma loucura quase obsessiva, sobre a perspetiva de uma melhoria da condição de vida. Mas não será esta relocalização, esta despersonalização territorial, esta reformatação, esta perda da raiz, da identidade, da memória, a derradeira (e aterradora) loucura?

Destaques do dia: Sexta 14 de julho

14 Julho 2017
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A restrospetiva In Focus do cineasta francês F. J. Ossang continua hoje, às 23h30, com o filme "Le Tresor Des Iles Chiennes". O mundo depois da era atómica. Um engenheiro desaparece, juntamente com o seu consórcio (Kryo'Corp) e sua descoberta: uma nova fonte de energia alimentada pela fusão de duas substâncias primárias. Ulysses, herdeiro de Kryo'Corp, organiza uma expedição para o único lugar em que essas substâncias existem.

A Competição Nacional, um dos momentos mais aguardados do Curtas Vila do Conde, continua hoje às 21h15, quando serão exibidos mais três filmes a concurso: "Das Gavetas Nascem Sons", de Vítor Hugo, "Oú En Êtes-Vous, João Pedro Rodrigues", de João Pedro Rodrigues e "Coelho Mau", de Carlos Conceição. Ainda às 20h repetimos a sessão de ontem. Destaque ainda para as duas sessões da Competição Internacional, às 17h e às 22h30, e para a Competição Experimental às 18h30.

A Carta Branca dos 25 anos do festival prossegue hoje, às 21h45, com as escolhas de Pedro Marta Santos e Cláudia Marques Santos: "La Jetée", de Chris Marker e "Toby Dammit", de Frederico Fellini.
  
As sessões do Cinema Expandido continuam hoje, com uma conversa entre Filipa César e Louis Henderson sobre capialismo e colonialismo e como é possível desconstruir discursos institucionalizados.

Continuam hoje as sessões dos Encontros Com Realizadores, com sessões que irão promover o diálogo com realizadores das Competições Internacional e Experimental às 14h e da Competição Nacional às 16h. 
No Panorama Europeu, às 18h no Auditório Municipal, serão exibidos filmes oriundos do Reino Unido, e antes, às 14h, continuam as sessões de cinema gratuitas para toda a família com uma seleção de divertidos filmes.  
 
A secção Stereo de hoje conta com o concerto da banda portuguesa Capitão Fausto, presença habitual no festival. Os Capitão Fausto sobem ao palco do 25º Curtas Vila do Conde para apresentarem, ao vivo, o mais recente disco da banda, "Capitão Fausto Têm Os Dias Contados". Neste espetáculo, a banda de rock lisboeta apresenta-se num formato especial interpretando temas como "Corazón", "Amanhã Tou Melhor" e "Morro na Praia" enquanto revisita os momentos que estiveram na génese dessas canções através de vários excertos do documentário "Pontas Soltas". Para ver e ouvir à meia-noite, na Sala 1 do Teatro Municipal.

O dia termina na Barcearia, com Sérgio Gomes e BREAKS lda.

Os bilhetes encontram-se à venda na bilheteira do Teatro Municipal, no Auditório Municipal e na rede da Bilheteira Online.

Segredos confessados a uma brisa de verão

13 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Pedro Henrique

Nem sempre o tempo é medido em horas e minutos. Por vezes, está dividido em estórias perdidas e recuperadas e em conversas que não tem hora para terminar. No filme De Madrugada, de Inês de Lima Torres, quatro jovens partilham uma familiaridade fraterna de sangue e, mais importante, partilham uma pertença a uma narração que não está totalmente contada. Nas horas em que o sono não chega e em que o limbo da memória e das restrições está menos vigilante, entre os quatro irmãos explica-se o olhar distante da avó perdido na memória, confessa-se a história de um soldado que nunca regressou e de uma mulher que caminhava na areia à espera de o ver. Numa família, não se cresce apenas em anos, cresce-se também em revelações, amadurece-se na partilha de segredos que se vão contando, para que as figuras que povoam o nosso imaginário familiar recuperem o seu nome próprio, retomem a sua própria estória de vida. 

O filme utiliza maioritariamente planos interiores estáticos com uma luminosidade por vezes com pouca nitidez, não no foco, mas na criação de um ambiente de névoa, sem recorrer ao negro, para induzir um tempo que agora se tornou espaço de memória, da saudade e das conversas que se sussurram à noite. A voz de Amália Rodrigues na célebre cantiga “Quando eu era pequenina” é a vocalização de uma atmosfera sonora noturna permeada com o canto das cigarras na noite, onde sobressaem o latir de cães vadios e os chilreios exóticos de aves juntamente com o marulhar das ondas que investem contra o areal. Esta é a banda sonora das noites de Verão, em que tudo é possível e em que as lembranças se constroem e se desvelam.

Através de um campo referencial ligado ao tempo mítico do «Era uma vez..» e à memória das estórias que nos fascinam em criança, a jovem realizadora de Setúbal caminha por entre a bruma das lembranças que constroem as pessoas e que explicam rostos fechados. Ondulando na aura de uma brisa longínqua, o soldado surge-nos aprisionado num retrato de parede, a recordação que não se pode aceder tatilmente, a imagem que, inevitavelmente, se vai dissolvendo com o fim do Verão e o início de mais uma etapa de crescimento. 

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