Uma casa portuguesa, com certeza? - Sobre "António, Lindo António"

17 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Natacha Moreira


Uma aldeia no Portugal profundo. Uma premissa da qual já outros documentários partiram, e com imensa tradição no cinema português, desde o mais recente Volta à Terra (2015, de João Pedro Plácido) até clássicos como Nós por cá todos bem (1976, de Fernando Lopes), Vilarinho das Furnas (1971, de António Campos) ou Máscaras (1976, Noémia Delgado), só para citar alguns exemplos. Nestes filmes é abordada uma realidade “típica e rústica” que só por si e dado o seu contexto é sempre rica em histórias e personagens desarmantes e genuínas.  É, no entanto, nesta abordagem directa e praticamente sem mediação com o objecto do filme que se denotam as insuficiências de, por exemplo, Volta à Terra e que poderiam, também, surgir em António, lindo António, em que o objecto filmado se torna per si no filme, o sujeito e o predicado, inexistindo um olhar ou uma mediação do autor, tornando como que supérfluo quem  filma e o porquê.

No caso do documentário da realizadora luso-descendente Ana Maria Gomes, é um regresso às origens, numa tentativa de descobrir porque razão um tio seu, que emigrou há 50 anos para o Brasil, nunca mais regressou à sua aldeia de origem. Mas o filme acusa, à partida, uma ainda maior dificuldade em não se tornar um documentário inofensivo e previsível: o “regresso à terra” de uma realizadora filha de emigrantes, o regresso à aldeia da família e a uma ideia de ruralidade “castiça” e sempre muito exótica (atente-se no sucesso em festivais internacionais do filme de João Pedro Plácido).

Ora, é, assim, de alguma forma surpreendente que desde o início a realizadora se tenha afastado um pouco dessa ideia, introduzindo não só a sua avó, que tem, é certo, todos os predicados exigidos para se tornar só e apenas ela o expectável interesse do filme, mas, também, a espaços, questionando, como que a direccionando e ao espectador para o que lhe interessa ou intervindo como uma consciência num confronto entre o rural e o urbano e as suas dicotomias.


Ao longo do filme, avó e tios falam sobre o passado, imaginam o presente, num registo entre saudosismo do lindo António e ressentimento, tentando encontrar as razões para a ausência, normalmente com o trabalho em fundo e só com brevíssimos flashes de festa, pois a vida é trabalho e o trabalho é vida, enquanto a fundo negro, uma voz com sotaque brasileiro descreve o tio, para mais tarde  o que aparentava ser a descrição de alguém que lhe era próximo, ser, afinal, apenas uma leitura de cartas de tarot.


E é nessa mudança do cinzento rural para um musical Rio de Janeiro que a realizadora se solta e ao próprio filme, numa leveza e descontracção que ainda não tinha existido, brincando com entrevistas e com quem se cruza, numa sequência de praia e dança, para, no final, encontrarmos o tio com o  seu acordeão, longe no Brasil mas sempre perto de Portugal. Acordeão que é tocado para a mãe por outros (pensa ela no filho?) ou depois pelo próprio filho regressado, num breve momento final que, num só plano com mãe e filho, consegue traduzir todas as inquietações que uma presença após 50 anos pode desencadear.


Texto editado por Jorge Mourinha. 

Nós já vencemos! - sobre "E do mar nasceu"

16 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Pedro Henrique 


‘Não é no tempo em que os animais falavam’, nem no início das epístolas ‘Naquele Tempo’, mas houve uma era em Portugal na qual se criavam cooperativas para melhor distribuir os lucros e para uma organização mais justa do trabalho. E mais, houve uma equipa de cinema que a pedido da Direcção Geral de Educação Permanente para a Formação de Adultos foi até às Caxinas filmar esse período. A grande questão social da época centrava-se nos pescadores e nessa nova aventura de organização laboral, com o sentido de espalhar a palavra e mostrar ao resto do país, em 1977, depois do PREC, como era possível concretizar o sonho de uma revolução e documentar uma cooperativa de pesca que, com esperança e energia, se constituía com o título “Nós venceremos”.  

Ricardo Costa, autor de longas metragens como Avieiros (1975), Mau Tempo, Marés e Mudança (1976) incluídas na série televisiva Mar Limiar (1975-77) realiza com a colaboração de Acácio de Almeida e Solveig Nordlund, membros da Cooperativa Grupo Zero, um filme que pretendia ajudar a população e mostrar-lhes as potencialidades que então poderiam ter por diante.

A nível cinematográfico, o filme é organizado através de pequenos quadros alegóricos de diversos aspetos que caracterizam a disposição e sensibilidades dos habitantes da paróquia: ora através do humor inusitado pela promessa ao Senhor dos Passos e pela rapariga que namora com o sardinheiro; ora pela superstição das bruxas do mar; ora pela honestidade da divisão dos ganhos monetários após a faina; ou ainda pela liderança mostrada pela Comissão ‘Pó’ Progresso das Caxinas, Poça da Barca e Lugares Anexos, na comunicação dos objetivos alcançados e daqueles que se pretende atingir.


“E do mar nasceu” é um documento essencial para compreender como se desenvolveu a comunidade de Caxinas e como estava organizada durante o PREC, bem como para entender as dificuldades de uma geração que não está muito distante, numa época em que se pretendia incrementar a pesca como atividade económica (mal se sabendo então que uma década e meia depois iria haver um esforço concertado para destruir essa mesma frota). É um filme-manuscrito, no qual estão inscritas as ideias fundamentais de uma população que lutava por sobreviver, mas que não abdicava do quinhão para o Senhor, na divisão dos lucros; que imaginava uma escola de pesca, para os filhos não irem para o mar analfabetos e que lutavam por infraestruturas essenciais como escolas básicas e liceus para o prosseguimento de estudos, por habitação condigna e por acessos e arruamentos que valorizassem a sua paróquia, mais numerosa que a própria localidade de Vila do Conde.


Da mesma forma como termina o filme, com uma canção de embalar, ao longo deste somos encantados com esta melodia, que percorre a sala, de pessoas que acedem a imagens perdidas no Palácio da Memória de Santo Agostinho. Há uma sensação de familiaridade singular nesta sessão, uma fama fugaz como o frame da película. Nós, os que estivemos na sala, já vencemos por este filme ter sobrevivido ao tempo e por sermos espectadores privilegiados desse regresso. 

A angústia da influência - Sobre "Personne"

16 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Luís Nogueira

As experiências visuais que envolvem os conceitos de autoria e de apropriação nas artes não são novas e muito menos pacíficas. Irrompendo pelo século XX com o Cubismo, essas experiências prosseguiram com os Ready-Made de Marcel Duchamp e as colagens dos seus compagnons de route dadaístas, tendo desenvolvimentos próximos nas experiências surrealistas. As questões da autoria e da legitimação da obra de arte (e a sua equivalente sabotagem) foram posteriores protagonizadas por inúmeros artistas, entre os quais Robert Rauschenberg e as suas Combine Paintings, que, desafiando as convenções artísticas herdadas dos séculos XVIII/XIX, lhes baralharam por completo o sentido. Em 1969, Michel Foucault profere a célebre conferência O que é um autor?, em que segundo uma grelha de análise aplicada à literatura, se propõe, entre outros tópicos, abordar a função do autor e as suas relações de apropriação. 

Vem esta introdução a propósito do objeto fílmico intitulado Personne, da autoria de Christoph Girardet e Matthias Müller, exibido na seção experimental do Curtas Vila do Conde, que, na sua aparente simplicidade, nos desenvolve estas questões, amplificadas pelo medium cinema. Com aproximadamente 15 minutos de duração, o filme põe em marcha um impressionante dispositivo conceptual, que se articula através da colagem de um sem número de excertos de filmes. As primeiras impressões conduzem-nos à ideia de labirinto, através do desfile de uma vasta sequências de planos sem aparente ligação entre si, pelo menos se observadas as regras narrativas que habitualmente gerem as noções de tempo e espaço no cinema. Percebemos imediatamente que estamos perante um objeto esquivo a interpretações demasiados formalistas, e que nos resta é mesmo deixarmo-nos ir.


O “vício” da interpretação impele-nos, contudo, a procurar um qualquer sentido encriptado no banquete de imagens servido por Girardet e Müller. E eis que as peças se começam minimamente a encaixar. Há em Personne uma imagem-chave (o punctum de que falava Roland Barthes) que parece ancorar toda a estrutura do filme. Falamos de La Reproduction Interdite, quadro de Magritte, que retrata um homenzinho banal que se observa ao espelho e que por sua vez o reflete de costas. Uma imagem de puro horror, que envia para a ideia de alienação do individuo. São convocadas então as figuras de vários atores, entre os quais Jean-Louis Trintignant e Gregory Peck, que corporizam uma busca identitária. Borboletas, aviões, garrafas e copos estilhaçados, polígrafos, teclas de piano, máquinas de escrever, bolas de bilhar, portas, muitas portas que se fecham, são os acessórios de um décor opressivo, que dialoga com os corpos em movimento sincopado, muitas vezes à deriva ou à procura de não se sabe bem o quê.


Este filme filia-se noutros projetos de Christoph Girardet e Matthias Müller, que também trabalham com found footage e com a manipulação e colagem de extratos de filmes de diversas proveniências, eventualmente combinados com outros materiais visuais e sonoros. Ken Jacobs, Vivian Ostrovsky e Peter Tscherkassky, para citar apenas exemplos de alguns autores com presenças no Curtas Vila do Conde, são nomes identificados com este tipo de processo.

Por vezes, na receção crítica a estes objetos, subsiste uma resistência inicial que se poderá genericamente explicar pelo sentimento de perda da aura da obra de arte. Quando Duchamp põe um bigode numa reprodução da Mona Lisa, não estava simplesmente a divertir-se ou a divertir-nos. Estava a antecipar em décadas coisas um pouco mais sérias: o pensamento aberto, a pós-história, o culto da intertextualidade, da paródia e do humor, o sentido do lúdico, servido por uma fragmentação assistemática, que parece ser o ponto onde nos encontramos.

“HD helps us come closer to the spiritual beings we long to meet”

16 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Pedro Dourado 


Painting with history in a room filled with people with funny names 3
(2015), de Korakrit Arunanondchai, é o epílogo de uma trilogia de videos iniciada em 2012. Artista plástico, actualmente a trabalhar entre Nova Iorque e Banguecoque (a sua cidade natal), Arunanondchai problematiza no seu trabalho temas como a história, a autoria, a auto-representação e o turismo, a partir do ponto de vista de alguém radicado noutro lugar (numa espécie de transplante cultural). Para o cineasta, a experiência da obra é resultante da confluência entre diferentes média, e estilos, mas capazes de, colectivamente, construir um território artístico em comum (“mixed media”). 

Ainda que Painting with history in a room filled with people with funny names 3 tenha sido apresentado originalmente como uma instalação em contexto de galeria, no Curtas Vila do Conde podemos ver um dos elementos constituintes dessa obra — um filme, com o mesmo título, que apresenta o próprio artista encenando uma personagem ficcional, um jovem pintor tailandês vestido de ganga. Korakrit Arunanondchai cria-lhe uma narrativa auto-biográfica, explorando a construção da sua imagem enquanto artista identidade e realidades sociais, enquanto comenta simultaneamente as ramificações consequentes da globalização visíveis na Tailândia actual.


Uma das qualidades mais notórias desta curta é a plasticidade que Arunanondchai aplica na concepção dos planos; aliás, toda a mise-en-scène construída neste filme é balançada entre cenários reais e virtuais, numa tentativa de simbiose entre o homem, o artista e a máquina, a um nível tanto espiritual como social. Uma conjugação de factores que são pontuados por uma estética reflexiva sobre a cultura digital e a cultura de massas; uma viagem espiritual pelo questionamento da essência metafísica tanto do ser humano como da máquina tecnológica, como se a ambos fosse possível atribuir um consciente, uma voz, uma memória — não será certamente uma novidade na cultura artística contemporânea: em Portugal destaca-se Gabriel Abrantes com Dreams, Drones and Dactyls (2015), por exemplo — criando, ao espectador, um exercício de significação e interpretação em diferentes camadas, no contexto político, económico e social. Se, por um lado, tenta dialogar com o espectador através de escolhas de montagem e produção semelhantes às últimas tendências do vídeo musical (uma mistura entre cinema e o vídeo musical coreografado, como no álbum Lemonade de Beyoncé), por outro, Arunanondchai canaliza a forma para um dispositivo discursivo que questiona a essência desta ligação social e espiritual que temos com outras culturas, tendo em conta a economia global e neo-liberal em que vivemos.


Em Painting with history in a room filled with people with funny names 3, a curta, tanto esse jovem pintor tailandês e um drone comunicam com uma figura espiritual (Chantri) criada pelo artista, e ambos falam de um imaginário colectivo, da memória, de uma Tailândia que testemunhou diversas tensões — a imposição da cultura materialista ocidental num país carregado de uma tradição espiritual ou os conflitos sociais e políticos entre as populações e o governo —, e tenta criar um espaço para essa identidade tradicional espiritual e cultural para as gerações tecnológicas futuras.

Heróis - Sobre "I was a Winner"

16 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Natacha Moreira


Nesta animação documental sueca de Jonas Odell, somos introduzidos num ambiente gráfico de jogo de computador onde personagens,  através das suas personas digitais, avatares, descrevem-nos a iniciação aos jogos de computador e o seu crescente vício, num filme que mistura documentário e animação, numa fronteira entre géneros que tem explorado ao longo da sua obra.

Apesar das vestes de guerreiros, vamos percebendo a fragilidade à medida que ouvimos as histórias, surgindo, por debaixo da aparência de super-heróis, as angústias e frustrações da vida real que desencadearam o vício do jogo de computador e as consequências que o jogo trouxe às suas vidas e consequente isolamento. A solidão que determina a procura do jogo, o jogo de computador como entretenimento para crianças sem cuidador, a solidão no acto de jogar (juntos no mundo virtual mas separados por uma cadeira na vida real). O jogo apresentado como busca  no mundo virtual de uma comunhão que não se tem no mundo real.


As personagens contam as suas histórias num misto de angústia e conformação, explorando a ideia de uma reconfiguração das relações – familiares, amorosas, afetivas – na era das tecnologias digitais, no paradoxo do isolamento dentro de um mundo cada vez mais global e, supostamente, solidário.


Está sempre presente o especial versus o vulgar, como são especiais no jogo não o sendo de outra forma; vencedores no mundo virtual e perdedores no mundo real, também num contraste masculino/feminino em que a personagem feminina, longe do ambiente de lutas e guerras, surge sempre em ambientes mais “caseiros” num paralelo com o machismo da vida real, numa fuga da realidade para o jogo no qual, de facto, se imita a vida. Na vitória sentem-se como heróis, como Zlatan Ibrahimovic a marcar 4 golos à Inglaterra. Mas quando perdem, sentem o que o craque sueco eventualmente sentiria se não marcasse aquele golo de bicicleta de outro mundo.


Com a solidão se iniciam, na solidão no jogo se conseguem(?) redimir na, afinal,  natural busca pelo outro e pelo colectivo.


Porque, na verdade, no jogo somos todos vencedores, mas cá, no mundo real, só poucos são heróis nacionais, tal como um Ibrahimovic, ou, já agora, um Éder.

Morte e vida em forma de parábola

15 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Denise Liege


A realizadora grega Konstantina Kotzamani está no Curtas em dose dupla, com dois filmes – Yellow Fieber (2015) e Limbo (2016), ambos na Competição Internacional –, onde o universo simbólico, repleto de referências religiosas, é bastante complexo. Em Yellow Fieber, deparamo-nos com a doença e a morte na forma de uma praga que assola uma cidade, outrora feliz, onde os moradores são surpreendidos por uma névoa que os deixa doentes. O medo faz com que os habitantes dessa cidade tranquem dentro das casas os seus doentes, marquem as residências com palmeiras e com o passar do tempo não saiam mais à rua. A cidade torna-se vazia de pessoas, mas o rei, sobrevivente, aprende a falar a língua das palmeiras.

Neste tom distópico, a narrativa é realizada através das vozes das personagens, enquanto vemos imagens que reforçam a ideia geral do filme sem, no entanto, serem meros suportes das informações recebidas. A matriz religiosa judaico-cristã encontra-se presente na forma das pragas do Egipto e na utilização de palmeiras que também são chamadas de árvores da vida. A morte das palmeiras é a morte da vida, mas a epidemia é sobretudo social.


Em Limbo, a realizadora aprofunda as questões da teologia católica. No plano inicial, percebemos no canto inferior esquerdo da tela a aproximação de um menino branco, com uma respiração ansiosa que chama a atenção para um clima tenso. Este filme volta a trazer diversos símbolos cristãos: o barro que envolve os corpos dos meninos (Deus criou o homem do barro); peixes (os cristãos usavam-nos em encontros como marcas de locais e é um acróstico que significa Jesus Cristo, filho de Deus, salvador); a baleia ou peixe grande que engoliu Jonas e mantém restos humanos e que pode respirar fora da água, em alusão a salvação pelo cristianismo; e são mostrados 12 meninos (12 apóstolos) em diversos planos gerais com composições simétricas em que seus corpos e casas são refletidos na água (o batismo é realizado com água que, ao retirar o pecado venial, insere a criança no catolicismo) e intercalam-se com planos próximos de rostos apreensivos sobre sua situação de espera.


Um clima de medo, ansiedade e apreensão estabelece-se por todo o filme, suportado pela banda sonora que institui com muita precisão esse clima de questionamento que envolve os conflitos. O filme apresenta dois tempos distintos: um tempo de ação onde a câmara se movimenta com mais liberdade entre as personagens e um tempo de espera onde os planos gerais são frequentes. Estes mostram uma certa imobilidade das personagens como se o tempo estivesse em suspenso, que é reforçado pela composição interna dos planos, onde personagens, objetos e reflexos colocados em simetria reforçam o estado de suspensão do tempo e do movimento.

 

Texto editado por Jorge Mourinha

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