Making-of 24º Curtas Vila do Conde

1 Agosto 2016
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CURTAS: UM FESTIVAL PARA TODOS

 

O último Curtas Vila do Conde, que decorreu entre 9 e 17 de julho, foi um festival para todos. Nas suas diversas secções, o Curtas mostrou a sua abrangência de públicos, desde a cinefilia mais aguerrida, passando pelos amantes da música e pelas crianças, o público do futuro. Foi, precisamente, um festival entre o passado e o futuro, exibindo filmes icónicos da história do cinema, mas também procurando as novas tendências do cinema contemporâneo.

 

Durante nove dias de programação intensa, foram apresentados 9 filmes-concerto/performances e 241 filmes, oriundos de 46 países, em 86 sessões de cinema que decorreram nas duas salas do Teatro Municipal de Vila do Conde para de cerca de 20.000 espectadores. Esta edição contou com uma equipa de 138 colaboradores e mais de 350 convidados, entre eles realizadores, técnicos, atores, produtores, programadores e jornalistas.

 

O grande destaque vai, sobretudo, para os filmes-concerto, que voltaram a encher as salas do Teatro Municipal. Os Tindersticks e Jay-Jay Johanson mostraram porque são nomes fundamentais de um certo intimismo musical, em espetáculos em que a imagem em movimento é essencial para criar ambientes sonoros. Por outro lado, The Legendary Tigerman, desta vez acompanhado por Rita Lino e Pedro Maia, voltou a encantar com um projeto inédito, exibido em estreia mundial. Foi uma noite esplendorosa. Finalmente, The Greg Foat Group trouxe o melhor do jazz para um filme-concerto com filmes das vanguardas clássicas.

 

Como dissemos, o Curtas Vila do Conde foi um festival cinéfilo, com a exibição de muitos filmes clássicos, muitos deles projetados em película. Tanto na carta branca dos realizadores João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, como no programa especial de Ensaios Audiovisuais, foram vários os filmes “históricos” que foram apreciados por plateias muito jovens. Cumpriu-se, assim, um dos objetivos do festival: promover a cinefilia do futuro. Esse futuro foi também cumprido num Workshop de Crítica de Cinema, em que treze participantes escreveram mais de 40 textos sobre filmes exibidos no festival.

 

As competições mantiveram a sua apetência para chamar públicos e para mostrar o melhor do cinema contemporâneo. Em 2016, o júri do Curtas premiou dois cineastas que estiveram pela primeira vez em Vila do Conde: o prémio principal foi para o israelita Nadav Lapid (com “From the Diary of a Wedding Photographer”) e o prémio de melhor filme português foi para Ana Maria Gomes (com “António, Lindo António”). Mostrou-se, assim, que há uma renovação geracional do cinema de curta-metragem.

 

O Panorama Europeu, em colaboração com várias entidades de apoio e promoção ao cinema nos seus respectivos países, voltou a apresentar uma seleção das melhores curtas-metragens recentes de várias cinematografias europeias. Os países convidados em 2016 foram a Holanda, a Bulgária, a Roménia e a Polónia. Já o Panorama Nacional, apresentou filmes relevantes do último ano, mas que já passaram por outros festivais portugueses, de autores como Leonor Teles, Pedro Peralta, José Miguel Ribeiro, Filipe Abranches e Simão Cayatte.       

 

O Curtas Vila do Conde dedicou ainda uma retrospetiva à Borderline Films, com a exibição das várias curtas e longas do coletivo de cinema independente americano e a presença de um dos fundadores, Josh Mond.

 

Finalmente, a exposição “Do Rio das Pérolas ao Ave” foi outro dos pontos altos. Pela primeira vez em Portugal, a dupla João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata montaram uma exposição numa galeria de arte, combinando elementos fílmicos (filmes ou rushes dos seus projetos) com elementos cénicos das suas obras. A exposição estará patente até 25 de setembro na Solar – Galeria de Arte Cinemática.

 

Com um ambiente de festa, em que as noites foram também importantes, o Curtas Vila do Conde mostrou, mais uma vez, ser um ponto de encontro para criadores e público, num clima de partilha e de descoberta. Para o ano há mais, numa edição especial: o 25º aniversário!

As Mães Também Têm Direito à Vadiagem - Sobre "Moms on Fire"

27 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Luís Nogueira 
 

Moms on Fire acompanha os dias de duas mulheres grávidas, das suas crianças e de um animal de estimação, um gato da raça Sphynx. Esta animação assinada por Joanna Rytel, com criação de bonecos e adereços de Tim Maarse é, pela forma crua e desassombrada com que trabalha a temática da maternidade, um autêntico murro no estômago dos espectadores, ainda que uma substancial dose de humor (corrosivo) que por aqui passa alivie o impacto da força expressionista da sua imagética. Com efeito, Joanna Rytel constrói uma obra com uma dimensão política inequívoca, revisitando (e demolindo um a um) todos os clichés que associamos à gravidez e, num sentido mais lato, à mulher e seus papéis sociais predeterminados. Aliás, toda a produção (quer escrita, quer visual) de Rytel inscreve-se num território próximo do manifesto e da confrontação pública, com revisitações claramente provocatórias a temas convencionalmente denominados de fraturantes, como o aborto, a identidade de género/sexualidade, os relacionamentos inter-raciais, ou a convivência entre animais e pessoas. A circulação mundial destas obras tem provocado acalorados debates, dado que os pontos de vista radicalmente feministas que Rytek lança sobre estas sensíveis matérias, colidem invariavelmente e com estrondo, com as realidades sociais incapazes de se pensarem “fora da caixa” ou do politicamente correto.

Voltando a Moms on Fire, o filme transforma-se gradualmente num catálogo de maus costumes, se quisermos medi-lo apenas à luz das regras e preceitos ditados por uma sociedade (patriarcal) plena de interditos e onde a mulher se distingue do homem pela impossibilidade de se mover tão livremente no espaço público. A menstruação, a gravidez ou a amamentação, tornam-na mais permeável e insegura, em pleno contraste com a solidez e confiança masculinas. Há, pois, uma visão eminentemente feminista nesta curta de Rytel, em que a realizadora conduz ao limite um discurso libertário e contrapoder: há desejo sexual nas grávidas de Moms on Fire, que “curtem” uma com a outra, se masturbam, consomem drogas e negligenciam os filhos, fazendo inclusive planos para tomar pastilhas que lhes seque o leite da amamentação.


O facto de estarmos em presença de um filme em que os conceitos e ideias são protagonizados por bonecos animados por stop motion, implica naturalmente uma maior liberdade criativa por parte da cineasta, que retira vantagem da perda de uma certa gravitas do discurso, caso este se corporizasse com atores de carne e osso. E este é definitivamente um dos poderes do cinema de animação.


Em 13 minutos de pura causticidade, Joanna Rytel afirma um poderoso manifesto político, que, qual míssil de longo alcance, não deixa pedra sobre pedra no edifício moral que nos rege. Poderemos eventualmente sentir desconforto, indignação ou até aversão perante estas mães, mas no entretanto, e concedendo que não é função da arte reproduzir ou caucionar os modelos de controlo dominantes, arriscamos até dizer que é neste registo de afronta que esta visão encontra alguma da sua motivação, força e pertinência. 


Texto editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas.

DVD: João Pedro Rodrigues & João Rui Guerra da Mata: As Curtas-Metragens

22 Julho 2016
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Em parceria com a Fnac, o Curtas Vila do Conde editou em DVD todas as obras de curta-metragem realizadas por João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, em conjunto ou a solo. Esta compilação é um testemunho da intimidade e do cosmopolitismo cinéfilo da dupla que esteve recentemente em Vila do Conde para apresentar uma exposição na Solar - Galeria de Arte Cinemática e uma carta branca no 24º Curtas Vila do Conde. 

“João Pedro Rodrigues & João Rui Guerra da Mata: As Curtas-Metragens” é o volume três de um conjunto de edições lançadas no âmbito desta parceria, depois de “Reconversão" de Thom Andersen e de “Miguel Gomes: As Curtas-Metragens”. Estas edições, legendadas em inglês, espanhol e português, podem ser adquiridas por 4 euros na Loja das Curtas, situada na Solar -Galeria de Arte Cinemática e nas lojas Fnac de todo o país. 

João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata são uma das duplas mais criativas e singulares do cinema contemporâneo. Ambos têm construído uma carreira sólida repleta de cumplicidades, desde o iniciático Parabéns!, agora com quase duas décadas, realizado por Rodrigues e com Guerra da Mata como ator. A partir de então, juntos ou individualmente, as suas curtas-metragens abordam alguns dos seus temas obsessivos: a herança asiática na cultura portuguesa, o desafio aos géneros cinematográficos e uma constante reinvenção do cinema de ficção, através de retratos tão distantes como o do Martim Moniz, em Lisboa, ou o de uma rua anónima de Macau. Este DVD inclui todas as obras de curta-metragem realizadas pelos dois cineastas, em conjunto e a solo, e é um testemunho da intimidade e do cosmopolitismo cinéfilo da dupla.



Parabéns!

João Pedro Rodrigues

PT, 1997, 15’

Dois homens, dois corpos encerrados num apartamento. Duas idades: 30 e 19 anos, um arquiteto e um rapaz das noites. Um gato. A voz de Ana no atendedor de chamadas.

 

China, China

João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

PT, 2007, 19’

China desce as escadas em direção ao Martim Moniz, em Lisboa. China vai voar. Fugir para longe ao amanhecer. Ela só quer ser feliz. Mas China bebe o seu próprio veneno. Bebe-o até ao fim.

 

Alvorada Vermelha

João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

PT, 2001, 27’

Macau, Mercado Vermelho, Fevereiro de 2011. Dois realizadores, um olhar. Os gestos e as rotinas, entre a vida e a morte. In memoriam: Jane Russell.

 

O Que Arde Cura

João Rui Guerra da Mata

PT, 2012, 26’

Na madrugada de 25 de Agosto de 1988, Portugal acorda com o maior incêndio de que há memória desde o Grande Terramoto de 1755. Do outro lado da cidade, Francisco recebe um telefonema e as chamas do passado irrompem pelo seu quarto, sufocando a sua vida.

 

Manhã de Santo António

João Pedro Rodrigues

PT · FR, 2012, 25’

Manda a tradição que, no dia de Santo António, os namorados ofereçam vasos de manjericos enfeitados com cravos de papel e bandeirolas com quadras populares como prova do seu amor.

 

O Corpo de Afonso

João Pedro Rodrigues

PT, 2013, 32’

Como seria o corpo do primeiro rei de Portugal, D. Afonso Henriques,

figura tutelar, alvo de mitificações sucessivas no decurso da nossa História

 

Mahjong

João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

PT, 2013, 35’

Um homem de chapéu e uma mulher desaparecida. O confronto

entre o Vento Leste e o Dragão Vermelho; os pontos cardeais trocados como num derradeiro jogo de Mahjong.

 

Allegoria della Prudenza

João Pedro Rodrigues

PT, 2013, 1’30’’

Hécate, um corpo e três cabeças: Ticiano, Mizoguchi e Paulo Rocha. O vento leva-nos dos dois túmulos de Mizoguchi em Tóquio e Quioto até Ovar, onde repousam as cinzas de Rocha.

 

Iec Long

João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata

PT, 2014, 31’

Do chinês, “pan-tcheong” ou “pau- -tcheong”, consta nos dicionários como um regionalismo macaense também chamado “estalo da China” ou “foguete chinês”. Quem vive na antiga Fábrica de Panchões Iec Long?

Negros teus cabelos cobriam teu corpo - Sobre "O Dia do Meu Casamento"

21 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Luís Nogueira


Ao 7º dia do Curtas de Vila do Conde, deu-se um pequeno milagre na forma da projeção de O Dia do Meu Casamento, entusiasmante primeira incursão de Anabela Moreira na realização (acompanhada por João Canijo) e um filme surpreendente a vários títulos. Sendo uma dupla a assiná-lo, permitimo-nos, como metodologia de trabalho, e depois do privilégio de escutarmos Anabela Moreira na apresentação pública, considerar sobretudo o seu olhar, ainda que cumplicemente secundado pelo de João Canijo, que creditado como corealizador deste O dia do Meu Casamento, se sente como uma presença tutelar que aqui paira a vários níveis. Canijo tem de resto trabalhado com Anabela Moreira em inúmeros projetos (recorde-se a título de exemplo o filme Obrigação, encomenda do programa Campus do Curtas de Vila do Conde), desenvolvendo um forte sentido de parceria artística, aqui manifestado de uma forma evidente.

O Dia do Meu Casamento parte de uma ideia (aparentemente) simples: o registo das peripécias de uma noiva e do seu microcosmos específico, na manhã que antecede o seu enlace matrimonial. Esta é uma das primeiras sabotagens da obra, que se vai desenvolver em sentidos que ultrapassam a sua mera descrição factual. Filme com várias histórias dentro desenvolvendo-se em perfeita sincronia (a das crianças, a dos adultos e a dos animais), revela um notável ato performativo de as fazer pertenceram-se, fundamentalmente através do recurso a uma eficiente montagem, que as entrelaça sem perdas no fulgor narrativo.

As crianças ocupam aqui uma espécie de limbo: como que saídas do livro de William Golding, Lord of the Flies, agem sem supervisão parental, criando uma comunidade neurótica (o pato, sujeito a bullying por uma menina aparente inofensiva, é um verdadeiro achado!) que se vai afirmando em paralelo com o mundo dos adultos. E estes cumprem os papéis predestinados, perorando sobre tudo e sobre nada (temos até um malicioso ensaio sobre a profissão taxista), numa cacofonia que com a música Cara de Cigana compõe uma banda-sonora que nos devolve a nossa imagem de país de uma forma mais certeira que muita da ensaística sociológica. Os cães Nina e Rocky completam este dispositivo conceptual, que cria figuras-arquétipo, um sinal distintivo da grande arte ou do grande cinema.


As referências mais ou menos explícitas a quadros, fotografias e filmes são uma constante. Correndo o sério risco de falharmos o alvo, diríamos que por aqui andam os fantasmas do cineasta sérvio Emir Kusturica (o senhor imóvel que nos transporta ao universo de Gato Preto, Gato Branco, de 1998), da artista portuguesa Paula Rego (a cena da noiva, a própria Anabela Moreira, contorcendo-se para entrar na sua veste nupcial) ou do pintor francês Fantin Latour (a mesa com um jarro de flores brancas). Poder-se-ia ainda referir os nomes de fotógrafos como o inglês Martin Parr ou o alemão Thomas Struth, que a par de referências diversas, vão subtilmente pautando o tenso desenrolar da narrativa. O processo como Anabela Moreira acomoda todas as citações (misturando-as com uma forte autorreferencialidade) recorda-nos também, e salvaguardadas as devidas distâncias, o cinema de João César Monteiro ou o de Pasolini, que incorporavam camadas de uma vasta erudição literária e visual nos seus filmes, sem nunca parecerem aborrecidos ou pedantes.


A par com as alusões visuais à “alta cultura”, o filme manobra com igual inteligência e labor um vasto rol de referências que refletem o genius loci: o óleo Fula, os naperons, as rendas e bordados, o papel de parede, as cómodas, os bibelots, as colchas (a cheirar a vinagre), as reproduções baratas de pinturas nas paredes (sublinhe-se o bom gosto da escolha dos quadros do décor que inclui O Homem do Turbante Vermelho de Jan Van Eyck), os insufláveis ou o leitão sobre a mesa, são elementos que revisitam toda uma tradição dos lares portugueses, ligando-os com ironia ao ritual de um dia de casamento. A banda sonora recuperando o tema Cara de Cigana, de Mano Belmonte, exponencia esta diversão kitsch, esta paródia à alma lusa, realizada com uma profunda devoção e uma distância respeitosa, que nunca concedem que o filme resvale para o mau gosto.


Anabela Moreira está definitivamente em estado graça nesta sua curta. Aproximou a câmara aos seus atores (amadores e profissionais) e ao décor, filmando-os com a intensidade e paixão que só o excessivo voluntarismo de uma primeira obra poderia justificar. Perguntaram um dia a Picasso quanto tempo demorou a pintar um quadro. A resposta do mestre foi curta e enigmática: demorei o tempo que me levou a pintá-lo, mais todos os dias da minha vida. Este divertimento semântico pode ser com justiça aplicado a Anabela Moreira, que parece ter esperado quatro décadas pelo amadurecimento do seu olhar, oferecendo-nos então este inesquecível dia.


Editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas. 

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