As Mães Também Têm Direito à Vadiagem - Sobre "Moms on Fire"

27 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Luís Nogueira 
 

Moms on Fire acompanha os dias de duas mulheres grávidas, das suas crianças e de um animal de estimação, um gato da raça Sphynx. Esta animação assinada por Joanna Rytel, com criação de bonecos e adereços de Tim Maarse é, pela forma crua e desassombrada com que trabalha a temática da maternidade, um autêntico murro no estômago dos espectadores, ainda que uma substancial dose de humor (corrosivo) que por aqui passa alivie o impacto da força expressionista da sua imagética. Com efeito, Joanna Rytel constrói uma obra com uma dimensão política inequívoca, revisitando (e demolindo um a um) todos os clichés que associamos à gravidez e, num sentido mais lato, à mulher e seus papéis sociais predeterminados. Aliás, toda a produção (quer escrita, quer visual) de Rytel inscreve-se num território próximo do manifesto e da confrontação pública, com revisitações claramente provocatórias a temas convencionalmente denominados de fraturantes, como o aborto, a identidade de género/sexualidade, os relacionamentos inter-raciais, ou a convivência entre animais e pessoas. A circulação mundial destas obras tem provocado acalorados debates, dado que os pontos de vista radicalmente feministas que Rytek lança sobre estas sensíveis matérias, colidem invariavelmente e com estrondo, com as realidades sociais incapazes de se pensarem “fora da caixa” ou do politicamente correto.

Voltando a Moms on Fire, o filme transforma-se gradualmente num catálogo de maus costumes, se quisermos medi-lo apenas à luz das regras e preceitos ditados por uma sociedade (patriarcal) plena de interditos e onde a mulher se distingue do homem pela impossibilidade de se mover tão livremente no espaço público. A menstruação, a gravidez ou a amamentação, tornam-na mais permeável e insegura, em pleno contraste com a solidez e confiança masculinas. Há, pois, uma visão eminentemente feminista nesta curta de Rytel, em que a realizadora conduz ao limite um discurso libertário e contrapoder: há desejo sexual nas grávidas de Moms on Fire, que “curtem” uma com a outra, se masturbam, consomem drogas e negligenciam os filhos, fazendo inclusive planos para tomar pastilhas que lhes seque o leite da amamentação.


O facto de estarmos em presença de um filme em que os conceitos e ideias são protagonizados por bonecos animados por stop motion, implica naturalmente uma maior liberdade criativa por parte da cineasta, que retira vantagem da perda de uma certa gravitas do discurso, caso este se corporizasse com atores de carne e osso. E este é definitivamente um dos poderes do cinema de animação.


Em 13 minutos de pura causticidade, Joanna Rytel afirma um poderoso manifesto político, que, qual míssil de longo alcance, não deixa pedra sobre pedra no edifício moral que nos rege. Poderemos eventualmente sentir desconforto, indignação ou até aversão perante estas mães, mas no entretanto, e concedendo que não é função da arte reproduzir ou caucionar os modelos de controlo dominantes, arriscamos até dizer que é neste registo de afronta que esta visão encontra alguma da sua motivação, força e pertinência. 


Texto editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas.

Negros teus cabelos cobriam teu corpo - Sobre "O Dia do Meu Casamento"

21 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Luís Nogueira


Ao 7º dia do Curtas de Vila do Conde, deu-se um pequeno milagre na forma da projeção de O Dia do Meu Casamento, entusiasmante primeira incursão de Anabela Moreira na realização (acompanhada por João Canijo) e um filme surpreendente a vários títulos. Sendo uma dupla a assiná-lo, permitimo-nos, como metodologia de trabalho, e depois do privilégio de escutarmos Anabela Moreira na apresentação pública, considerar sobretudo o seu olhar, ainda que cumplicemente secundado pelo de João Canijo, que creditado como corealizador deste O dia do Meu Casamento, se sente como uma presença tutelar que aqui paira a vários níveis. Canijo tem de resto trabalhado com Anabela Moreira em inúmeros projetos (recorde-se a título de exemplo o filme Obrigação, encomenda do programa Campus do Curtas de Vila do Conde), desenvolvendo um forte sentido de parceria artística, aqui manifestado de uma forma evidente.

O Dia do Meu Casamento parte de uma ideia (aparentemente) simples: o registo das peripécias de uma noiva e do seu microcosmos específico, na manhã que antecede o seu enlace matrimonial. Esta é uma das primeiras sabotagens da obra, que se vai desenvolver em sentidos que ultrapassam a sua mera descrição factual. Filme com várias histórias dentro desenvolvendo-se em perfeita sincronia (a das crianças, a dos adultos e a dos animais), revela um notável ato performativo de as fazer pertenceram-se, fundamentalmente através do recurso a uma eficiente montagem, que as entrelaça sem perdas no fulgor narrativo.

As crianças ocupam aqui uma espécie de limbo: como que saídas do livro de William Golding, Lord of the Flies, agem sem supervisão parental, criando uma comunidade neurótica (o pato, sujeito a bullying por uma menina aparente inofensiva, é um verdadeiro achado!) que se vai afirmando em paralelo com o mundo dos adultos. E estes cumprem os papéis predestinados, perorando sobre tudo e sobre nada (temos até um malicioso ensaio sobre a profissão taxista), numa cacofonia que com a música Cara de Cigana compõe uma banda-sonora que nos devolve a nossa imagem de país de uma forma mais certeira que muita da ensaística sociológica. Os cães Nina e Rocky completam este dispositivo conceptual, que cria figuras-arquétipo, um sinal distintivo da grande arte ou do grande cinema.


As referências mais ou menos explícitas a quadros, fotografias e filmes são uma constante. Correndo o sério risco de falharmos o alvo, diríamos que por aqui andam os fantasmas do cineasta sérvio Emir Kusturica (o senhor imóvel que nos transporta ao universo de Gato Preto, Gato Branco, de 1998), da artista portuguesa Paula Rego (a cena da noiva, a própria Anabela Moreira, contorcendo-se para entrar na sua veste nupcial) ou do pintor francês Fantin Latour (a mesa com um jarro de flores brancas). Poder-se-ia ainda referir os nomes de fotógrafos como o inglês Martin Parr ou o alemão Thomas Struth, que a par de referências diversas, vão subtilmente pautando o tenso desenrolar da narrativa. O processo como Anabela Moreira acomoda todas as citações (misturando-as com uma forte autorreferencialidade) recorda-nos também, e salvaguardadas as devidas distâncias, o cinema de João César Monteiro ou o de Pasolini, que incorporavam camadas de uma vasta erudição literária e visual nos seus filmes, sem nunca parecerem aborrecidos ou pedantes.


A par com as alusões visuais à “alta cultura”, o filme manobra com igual inteligência e labor um vasto rol de referências que refletem o genius loci: o óleo Fula, os naperons, as rendas e bordados, o papel de parede, as cómodas, os bibelots, as colchas (a cheirar a vinagre), as reproduções baratas de pinturas nas paredes (sublinhe-se o bom gosto da escolha dos quadros do décor que inclui O Homem do Turbante Vermelho de Jan Van Eyck), os insufláveis ou o leitão sobre a mesa, são elementos que revisitam toda uma tradição dos lares portugueses, ligando-os com ironia ao ritual de um dia de casamento. A banda sonora recuperando o tema Cara de Cigana, de Mano Belmonte, exponencia esta diversão kitsch, esta paródia à alma lusa, realizada com uma profunda devoção e uma distância respeitosa, que nunca concedem que o filme resvale para o mau gosto.


Anabela Moreira está definitivamente em estado graça nesta sua curta. Aproximou a câmara aos seus atores (amadores e profissionais) e ao décor, filmando-os com a intensidade e paixão que só o excessivo voluntarismo de uma primeira obra poderia justificar. Perguntaram um dia a Picasso quanto tempo demorou a pintar um quadro. A resposta do mestre foi curta e enigmática: demorei o tempo que me levou a pintá-lo, mais todos os dias da minha vida. Este divertimento semântico pode ser com justiça aplicado a Anabela Moreira, que parece ter esperado quatro décadas pelo amadurecimento do seu olhar, oferecendo-nos então este inesquecível dia.


Editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas. 

Não há lugar como a nossa casa - Sobre "Home"

20 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Ana Belo

 

Daniel Mulloy, realizador de Home (2016), filme a concurso na Competição Internacional do Curtas Vila do Conde 2016 e nomeado para os European Film Awards, afirmou, numa entrevista, estar interessado na possibilidade de se dizer uma coisa, significando, na realidade, outra. Home acompanha, num registo realista, uma jovem família britânica de classe média, cujo acordar abre o filme que adivinharíamos ser, à primeira vista, um drama familiar. Mulloy contraria expectativas e conduz o casal e os seus dois filhos, ainda pequenos, numa perigosa viagem rumo a um país desconhecido.

Ignoramos as suas exactas motivações – políticas, económicas? –, mas a ideia do realizador parece ser recriar de modo geral a difícil travessia de milhares de migrantes e refugiados, nomeadamente aqueles que têm vindo a protagonizar a maior crise migratória na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, introduzindo nessa recriação um elemento excêntrico – alguns espectadores talvez só esperassem ver uma família branca de classe média envolvida em semelhante fuga numa saga de ficção científica passada no dia anterior ao apocalipse.

 

O realizador constrói um simulacro para, através dele, interpelar os espectadores. Comovendo, pergunta implicitamente: “E se fosse contigo?”; dando-lhe, como diria alguém, “um murro no estômago”. Mulloy quer pôr em evidência o facto de o espectador ocidental se solidarizar quase de imediato com aquela família apenas por mais facilmente se identificar com ela. A propósito, importa destacar que o filme surge essencialmente como uma campanha de sensibilização – foi produzido com o apoio das Nações Unidas e teve estreia no Dia Mundial do Refugiado.

 

Nesse contexto, parece relativamente bem sucedido, ainda que os espectadores se dividam: por um lado, aqueles que submergem numa onda de empatia, que responde ao interesse do realizador; por outro, aqueles que acham que Mulloy foi longe demais (à semelhança de infelizes perguntas como “o que levaria consigo se tivesse de deixar o seu país como refugiado?”), por reconstituir situações graves que parece desrespeitoso, e até ingénuo, passar tempo, “por desporto”, a imaginar.

 

Há, numa produção como esta, um certo cinismo. Enquanto filme-campanha terá de existir em função do seu objectivo. Mas se o seu objectivo não é cumprido por mais do que 5 minutos, então o que verdadeiramente se fez não foi despertar consciências, mas inquietá-las levemente (nunca em demasia), para de seguida as adormecer – com o bónus de oferecer a uma massa entorpecida a presunção de que não o é.

 

O mérito desta curta-metragem é, pois, a forma como desdiz o seu realizador. A ironia que Mulloy celebrava está, não nele, mas no próprio objecto que criou. Ao tentar consciencializar os espectadores do seu filme, o implícito elogio da fraternidade não sobrevive ao que de mais terrível Home revela – e que, atendendo ao que até agora se escreveu sobre o filme, parece ter passado despercebido: a impossibilidade de uma pessoa se colocar na pele de outra torna falível a esperança de que a solidariedade entre povos ou comunidades possa basear-se num princípio de identificação com o vizinho. Por norma, é precisamente a não identificação que justifica a intolerância (resquícios de um atávico instinto de conservação). O próprio Mulloy, pelas suas opções, subscreve a ideia de que só protagonistas criados à imagem dos espectadores podem levar à compreensão do problema – aqui, a crise dos refugiados.

 

O choque que o filme provoca pode ser intenso, mas é, certamente, muito pouco duradouro (talvez porque quando se extirpa um mal, ou a sua iminência, se extirpa também a persistência desse mal na mente de quem o sofreu). Exercícios como os de Mulloy, não acompanhados de acções mais consistentes, pouco mais são do que boas intenções. Home é ainda assim, e considerando tudo isto, um filme valioso pela subtil contradição entre o que aparenta ser e aquilo que uma segunda observação revela.

 

Texto editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas.

“Reenquadrar-se” – Sobre "Diário de um fotógrafo de casamentos"

20 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.  


Por Alexandre Marinho


Como não pensar no Mystery Man de Lost Highway (1997) de David Lynch – interpretado por Robert Blake – no comportamento sádico do protagonista de Diário de um fotógrafo de casamentos (2016), a última curta-metragem de Nadav Lapid vencedora do Grande Prémio da Competição Internacional da 24ª edição do Curtas Vila do Conde? Ambos são encenadores demiúrgicos providos da capacidade de influenciar os comportamentos daqueles que eles filmam. Tanto um quanto o outro assemelham-se a voyeurs de uma realidade inconsciente da sua ficcionalidade, quando não desejosa desta.

Acompanhamos a rotina de um antigo estudante de arte reconvertido em fotógrafo de casamentos, um homem desiludido com as relações humanas e com as suas pretensões artísticas, alguém, portanto, que migrou do idealismo para um pragmatismo cínico majorado de uma predisposição fetichista por noivas. Perscrutamos através da sua câmara o nosso carácter mitómano, a necessidade inconsciente de auto-ficcionar a nossa identidade e a nossa felicidade. Os planos do fotógrafo são constantemente reenquadrados conforme o imaginário que os noivos pretendem projetar, e isso ao ponto desses entrarem radicalmente em conflito com o cenário da realidade. Embora ele já tenha acompanhado cerca de setecentos casamentos, o primeiro, aquele em que ele não filmara por inadvertência os principais focos da cerimónia, continua sendo o melhor, o mais sincero.


As sessões fotográficas com os noivos surgem, assim, como oportunidades ideais de diagnosticar a angústia e as incertezas que antecedem a cerimónia (institucional) da ficcionalização do amor por excelência, o casamento. Sob a direção do fotógrafo-psiquiatra, os noivos “realizam” o contraste entre a realidade e a felicidade que lhes é pedida encenar e a que eles julgavam possuir. A constatação das suas identidades ficcionais concretiza-se numa fuga cujo desfecho pode, por vezes, revelar-se trágico.  


Presente na Semana da Crítica 2016 do Festival de Cannes, esta que é a quinta curta-metragem de Nadav Lapid reflete uma exploração irónica, perturbante e mordaz do materialismo da sociedade israelita já patente nas suas duas longas-metragens, The Kindergarten Teacher (2014) e O Polícia (2011), vencedor do Prémio Especial do Júri do 64º Festival de Locarno. Cineasta em ascensão, Nadav Lapid continua na senda de uma filmografia cáustica da nossa contemporaneidade.  

 

Texto editado por Paulo Cunha e Daniel Ribas.  

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