Essência cromática - Sobre "Prima Matéria"

19 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Vítor Romba

Sobre a égide da consciência do espírito experimental, observamos um infinito cromático de imagens compostas por graciosos e delicados fios de espiral de energia que se transformam em células microscópicas misteriosas de poeira, ilustrando a sensação do nascer da vida, como que a uma viagem ao despoletar da essência, efeito cósmico de matéria-prima que nos enraíza na consciência planetária das imagens.

Através de tratamentos visuais que são expressos digitalmente  por processos cromáticos fotoquímicos, descobrimos o despoletar de um olho que nos leva a uma espécie de meditação de um retrato subconsciente de nosso ser, sendo um retrato pessoal em miniatura; processos esses que na fotografia se designam no papel de quimiogramas, heliogramas ou fotogramas. A arte do cinema experimental é aqui bem expressa, com uma arrojada e sublime capacidade de nos fazer transportar em nossas mãos uma pequena e sublime peça de porcelana.


Em Prima Matéria deambula-se pelo nosso próprio olho, o nosso observar, quase como que um rasgo do boom da aparição, primeira imagem o olho (analogia feita por Luís Buñuel em Um cão Andaluz). Os 3 minutos fílmicos são inspirados na obra De Rerum Natura (56 a.C.), do poeta latino Lucrécio, escritor que se debruçou sobre a natureza das coisas, universo alquímico, que se confunde com os próprios átomos. É também uma homenagem aos primeiros registros fotográficos. 

 
Charlotte Pryce tem uma longa carreira: desde 1986, tem vindo a fazer filmes e objetos óticos, ensinando a arte do experimental um pouco por todo o mundo, sendo já premiada com o melhor arquivo de cinema experimental pela “The Douglass Edwards Award”. Price explora estruturas de devaneio: aproximando o real do imaginado criando imagens para além da visão humana. Utiliza superfícies polidas capazes de atuar como espelho, transportando para o presente a lanterna mágica, instrumento que projeta imagens sequenciais em suporte transparente. É sem dúvida uma visionária alquimista que nos transmite experiências visuais únicas.

Podia ser, mas… - Sobre "Valeria"

18 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Pedro Dourado


A grega Erin Vassilopoulos regressa ao Curtas Vila do Conde com Valeria, produzido em 2016, depois de ter deixado a sua marca na edição anterior do Festival com Superior (2015). Se em Retrospective, de Salla Tykkä, somos convocados a questionar a verosimilhança das imagens que retemos na nossa memória, em Valeria somos confrontados com uma ideia de rosto da memória, uma identidade física e psicológica de alguém, passível de ser transmissível a um corpo diferente; uma transferência, uma apropriação de todas as marcas que fazem cada ser humano diferente entre si, como se no final de contas a identidade individual, aquilo que torna possível o “eu”, fosse um apetrecho artificial, dessa grande massa uniforme a que chamamos identidade colectiva. 

Em Valeria, Vassilopoulos apresenta-nos os danos colaterais do que seria o sucesso de uma operação plástica (a reconstrução facial de uma rapariga, Eva, graças ao rosto de outra, depois de se suicidar) como metáfora para falar sobre a singularidade, ou não, da memória individual de cada humano. Eva não se reconhece naquele rosto, sente que o corpo é seu, mas há algo de particular nas feições que lhe provoca uma inquietação. Eva sente que a sua identidade é agora partilhada com a rapariga defunta. Não sabemos se tal acontecimento irregular é um acto de compaixão (ou fetiche) por aquela que se suicidou, mas podemos afirmar com clareza que Eva sente que deve algo a esta rapariga que se suicidou.


Percorremos com Eva os seus lugares reconhecíveis, nos subúrbios de classe burguesa americana, num ambiente a roçar entre o vitoriano e o kitsch; saltamos para uma mise-en-scène análoga à atmosfera de David Lynch, mas numa versão apática e com uma cenografia pós-Ikea. O filme começa por ter um ponto de partida interessante, mas o desenrolar da estória é estruturado por uma pobre plasticidade entre a arquitectura dos planos e o discurso narrativo dos corpos que enquadram o ecrã. O filme ressalva uma preocupação na forma (óptima fotografia), mas demonstra, apesar de disso, uma concepção redutora do discurso narrativo. Ainda que seja possível vermos planos aproximados de rostos, de corpos e interiores, Vassilopoulos cria uma tensão dramática cativada pela (in)expressividade das personagens, incluíndo Eva (a protagonista), que habitam aqueles lugares, resultando, no seu todo, num filme fácil de mastigar. 


Texto editado por Jorge Mourinha.

Uma casa portuguesa, com certeza? - Sobre "António, Lindo António"

17 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Natacha Moreira


Uma aldeia no Portugal profundo. Uma premissa da qual já outros documentários partiram, e com imensa tradição no cinema português, desde o mais recente Volta à Terra (2015, de João Pedro Plácido) até clássicos como Nós por cá todos bem (1976, de Fernando Lopes), Vilarinho das Furnas (1971, de António Campos) ou Máscaras (1976, Noémia Delgado), só para citar alguns exemplos. Nestes filmes é abordada uma realidade “típica e rústica” que só por si e dado o seu contexto é sempre rica em histórias e personagens desarmantes e genuínas.  É, no entanto, nesta abordagem directa e praticamente sem mediação com o objecto do filme que se denotam as insuficiências de, por exemplo, Volta à Terra e que poderiam, também, surgir em António, lindo António, em que o objecto filmado se torna per si no filme, o sujeito e o predicado, inexistindo um olhar ou uma mediação do autor, tornando como que supérfluo quem  filma e o porquê.

No caso do documentário da realizadora luso-descendente Ana Maria Gomes, é um regresso às origens, numa tentativa de descobrir porque razão um tio seu, que emigrou há 50 anos para o Brasil, nunca mais regressou à sua aldeia de origem. Mas o filme acusa, à partida, uma ainda maior dificuldade em não se tornar um documentário inofensivo e previsível: o “regresso à terra” de uma realizadora filha de emigrantes, o regresso à aldeia da família e a uma ideia de ruralidade “castiça” e sempre muito exótica (atente-se no sucesso em festivais internacionais do filme de João Pedro Plácido).

Ora, é, assim, de alguma forma surpreendente que desde o início a realizadora se tenha afastado um pouco dessa ideia, introduzindo não só a sua avó, que tem, é certo, todos os predicados exigidos para se tornar só e apenas ela o expectável interesse do filme, mas, também, a espaços, questionando, como que a direccionando e ao espectador para o que lhe interessa ou intervindo como uma consciência num confronto entre o rural e o urbano e as suas dicotomias.


Ao longo do filme, avó e tios falam sobre o passado, imaginam o presente, num registo entre saudosismo do lindo António e ressentimento, tentando encontrar as razões para a ausência, normalmente com o trabalho em fundo e só com brevíssimos flashes de festa, pois a vida é trabalho e o trabalho é vida, enquanto a fundo negro, uma voz com sotaque brasileiro descreve o tio, para mais tarde  o que aparentava ser a descrição de alguém que lhe era próximo, ser, afinal, apenas uma leitura de cartas de tarot.


E é nessa mudança do cinzento rural para um musical Rio de Janeiro que a realizadora se solta e ao próprio filme, numa leveza e descontracção que ainda não tinha existido, brincando com entrevistas e com quem se cruza, numa sequência de praia e dança, para, no final, encontrarmos o tio com o  seu acordeão, longe no Brasil mas sempre perto de Portugal. Acordeão que é tocado para a mãe por outros (pensa ela no filho?) ou depois pelo próprio filho regressado, num breve momento final que, num só plano com mãe e filho, consegue traduzir todas as inquietações que uma presença após 50 anos pode desencadear.


Texto editado por Jorge Mourinha. 

Nós já vencemos! - sobre "E do mar nasceu"

16 Julho 2016
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do Workshop Crítica de Cinema realizado durante o Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.


Por Pedro Henrique 


‘Não é no tempo em que os animais falavam’, nem no início das epístolas ‘Naquele Tempo’, mas houve uma era em Portugal na qual se criavam cooperativas para melhor distribuir os lucros e para uma organização mais justa do trabalho. E mais, houve uma equipa de cinema que a pedido da Direcção Geral de Educação Permanente para a Formação de Adultos foi até às Caxinas filmar esse período. A grande questão social da época centrava-se nos pescadores e nessa nova aventura de organização laboral, com o sentido de espalhar a palavra e mostrar ao resto do país, em 1977, depois do PREC, como era possível concretizar o sonho de uma revolução e documentar uma cooperativa de pesca que, com esperança e energia, se constituía com o título “Nós venceremos”.  

Ricardo Costa, autor de longas metragens como Avieiros (1975), Mau Tempo, Marés e Mudança (1976) incluídas na série televisiva Mar Limiar (1975-77) realiza com a colaboração de Acácio de Almeida e Solveig Nordlund, membros da Cooperativa Grupo Zero, um filme que pretendia ajudar a população e mostrar-lhes as potencialidades que então poderiam ter por diante.

A nível cinematográfico, o filme é organizado através de pequenos quadros alegóricos de diversos aspetos que caracterizam a disposição e sensibilidades dos habitantes da paróquia: ora através do humor inusitado pela promessa ao Senhor dos Passos e pela rapariga que namora com o sardinheiro; ora pela superstição das bruxas do mar; ora pela honestidade da divisão dos ganhos monetários após a faina; ou ainda pela liderança mostrada pela Comissão ‘Pó’ Progresso das Caxinas, Poça da Barca e Lugares Anexos, na comunicação dos objetivos alcançados e daqueles que se pretende atingir.


“E do mar nasceu” é um documento essencial para compreender como se desenvolveu a comunidade de Caxinas e como estava organizada durante o PREC, bem como para entender as dificuldades de uma geração que não está muito distante, numa época em que se pretendia incrementar a pesca como atividade económica (mal se sabendo então que uma década e meia depois iria haver um esforço concertado para destruir essa mesma frota). É um filme-manuscrito, no qual estão inscritas as ideias fundamentais de uma população que lutava por sobreviver, mas que não abdicava do quinhão para o Senhor, na divisão dos lucros; que imaginava uma escola de pesca, para os filhos não irem para o mar analfabetos e que lutavam por infraestruturas essenciais como escolas básicas e liceus para o prosseguimento de estudos, por habitação condigna e por acessos e arruamentos que valorizassem a sua paróquia, mais numerosa que a própria localidade de Vila do Conde.


Da mesma forma como termina o filme, com uma canção de embalar, ao longo deste somos encantados com esta melodia, que percorre a sala, de pessoas que acedem a imagens perdidas no Palácio da Memória de Santo Agostinho. Há uma sensação de familiaridade singular nesta sessão, uma fama fugaz como o frame da película. Nós, os que estivemos na sala, já vencemos por este filme ter sobrevivido ao tempo e por sermos espectadores privilegiados desse regresso. 

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