Dos Limites da Animação

23 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Natália Andrade

Este ano, David O’Reilly, nome regular da Competição Internacional do Curtas, marca presença com Everything (2017), assim como Matthew Rankin, que volta a Vila do Conde para apresentar Tesla: Lumière Mondiale (2017). Julia Pott estreia-se no festival com Summer Camp Island (2016). Se os dois primeiros nomes ganharam o Prémio de Animação em 2008 e 2015, respetivamente, Pott tem tido uma representação assídua em festivais como Sundance, SXSW e Ottawa. Estes três projetos não só nos trazem o que de mais fresco há na produção de animação internacional, como também são indicativos da extensão do campo: O’Reilly, sempre subversivo, mostra um filme que é na verdade o trailer do seu novo jogo (depois de Mountain), mas que vale por si só; Rankin continua na sua exploração experimental que dissolve as linhas entre o cinema de imagem real, as artes visuais e a animação; Pott traz-nos o piloto da sua nova série televisiva, a estrear no Cartoon Network em 2018. Se os três autores não podiam ser mais díspares, o seu gosto pelo absurdo e a posição desafiante perante os limites da animação aproxima-os.

O cinema de animação tem por vezes sido associado a produções mais seguras, consequência de um método de produção caro e lento, e, especialmente nos países ocidentais, associado a um público infantil. Talvez este desdém tenha alimentado a posição sarcástica de O’Reilly, uma atitude que acabou por o destacar no universo do género. Everything é um filme mais contemplativo e maduro, embora mantenha a sua característica estética associada ao glitch e desprovida de floreados. Sempre na vanguarda, O’Reilly dita um novo estilo de jogar e de ver o videojogo, sendo este trailer-filme narrado pelo filósofo e escritor Alan Watts, que inspirou o seu conceito. O movimento dos personagens afasta-se do naturalismo, e é radicalmente rudimentar, sem quaisquer remorsos.

No entanto, se O’Reilly redefine o seu campo de trabalho, Pott parece limitada pelas pressões exercidas sobre as séries televisivas. Tanto a nível técnico como visual, Pott tem utilizado, durante a sua carreira, os atalhos da colagem de técnicas e a naivité de uma animação desprendida a seu favor, mas agora aparece muito mais constrangida e modesta. Ainda assim, Summer Camp Island, explora, de forma sensível, o universo infantil pré-adolescente, contando os percalços de Oscar, que sente saudades dos pais no campo de férias. Embora claramente mais interessante do que a generalidade da animação televisiva, esta curta corre o risco de ser ligeiramente derivativa de Adventure Time (série televisiva do Cartoon Network, da autoria de Pendleton Ward).

Rankin, o menos célebre do trio, regressa com mais um filme nostálgico, obsessivo na exploração do seu conceito: por se focar na personagem de Nikola Tesla, o filme utiliza não só a estética do cinema e do design seu contemporâneo, como é animado com luz, em referência ao papel de Tesla na evolução da eletricidade. Até o som é obtido através de um aparelho chamado Tesla Spirit Radio, construído de raiz pela diretora de som do filme. Rankin lembra-nos ainda como o movimento no cinema mudo, por ter menos fotogramas por segundo, se aproxima da estética da animação stop-motion, e assim filma e anima o seu ator, num ato que dissolve todas as fronteiras entre os campos.

Estas três curtas-metragens demonstram maneiras diferentes de encarar os limites da animação, tanto os impostos culturalmente, como os que advém dos elevados custos de produção. Parece haver uma grande promessa em utilizar as limitações como linguagem, ao invés de moldar a linguagem às restrições.

A eternidade que habita os pequenos gestos

23 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Cláudio Azevedo

A curta O Peixe venceu o prémio Documentário “Manoel de Oliveira” na 25ª edição do Curtas Vila do Conde. O cineasta brasileiro Jonathas de Andrade trouxe a esta edição do festival uma curta que se insere algures entre a dor e a ternura. É dentro dessa dualidade que dançamos por não existir um ponto moral onde nos possamos fixar. A curta mostra-nos vários pescadores que possuem uma forma muito peculiar de levar a cabo o seu mister: abraçam, acariciam e beijam os peixes que vão retirando da água até darem o seu último fôlego.

O filme mostra como pequenos gestos conseguem condensar, de um só golpe, um sentimento tão universal como o amor. Enquanto um braço agarra com força a cauda para não deixar escapar o peixe, o outro aconchega-o e acaricia-o, mostrando que o homem é parte integrante da natureza, pois possui instintos essenciais para a sua sobrevivência enquanto espécie; por outro lado, no ser humano, existe algo que transcende essas forças predatórias capaz de inverter uma lógica de destruição e eternizar a vida para além de si mesmo. Em tempos de hiperconsumo e de matadouros onde a morte é massiva e mecanizada, estes pescadores tornam-se símbolo de uma forma de vida humana perdida por entre uma vontade de domínio cheia de fome de território, de recursos naturais, de armamento e tecnologia.

Por entre este frenesim vertiginoso, de uma vida extremamente acelerada, que facilmente esquece as fontes da vida, é a objetiva de Jonathan que vem desvelar a beleza que se esconde dentro e fora de nós. Ficamos estarrecidos com a fotogenia dos enquadramentos. A paisagem transmite paz, é calma e idílica; os corpos acolhem um brilho que lhes é dado pelo sol quando este se espraia através do reflexo da água pela vegetação circundante, realçando os verdes que predominam na imagem. Mas, o brilho mais intenso e especial é aquele que reflete nas escamas dos peixes, como se o sol também os beijasse e os redimisse nos últimos instantes de vida.

O diário eterno da existência efémera

23 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Teresa Vieira

A compulsão de registo da nossa presença na realidade, a vontade de captura dos momentos (mais ou menos) banais, dos momentos (mais ou menos) ideais da nossa experiência de vida mundana: estes são os impulsos que resultam de uma luta pessoal contra o esquecimento, personificados pelo avô de Luís Costa, que registou os mais diversos elementos que compuseram o filme que foi a sua vida. 

O Homem Eterno (2017) é uma obra que apresenta a vida do avô de Luís: um olhar sobre um outro olhar, uma visão de uma outra visão, uma herança memorial e afectiva que Luís Costa recebeu e que partilha, agora, com todos nós. Assim, com esta partilha, o registo individual e a memória familiar deste contexto específico extravasam os limites do (re)conhecimento e participa na construção da memória colectiva, contribuindo para o esboço da realidade dos tempos vividos e registados, para o retrato - singular e subjectivo - da identidade cultural e nacional.

Este é um filme da vida, da realidade; um ensaio que ilustra a eterna e inquietante questão da efemeridade da memória e da existência. Poderia ser sobre qualquer avô, sobre qualquer neto. Poderia ser sobre o meu avô, sobre mim. Tanto poderia ser, que o é: o (re)conhecimento da vida e do olhar do meu avô sobre ela foi-me transmitido - tal como o será para as vindouras gerações da nossa família - graças às suas gravações de Super 8, graças ao seu impulso de registo do mundo que o rodeava. Graças ao impulso de luta contra o esquecimento, de vontade de captura - ainda que não propriamente de exibição - da sua realidade - que representava, para si, algo da maior importância -, tenho hoje a possibilidade de observar as observações do meu avô, de olhar sobre o seu olhar, de ver o homem que o meu avô era. Assim, tive a oportunidade de (re)visitar as memórias que perdeu e que não teve a oportunidade de partilhar comigo. A sua luta pessoal contra o esquecimento resultou numa herança essencial para mim e para a minha família: a memória de quem a perdeu, a semente da realidade vivida de quem tudo esqueceu, e que germinará, aos poucos e poucos, dentro de todos aqueles que para ela olharem.

As reflexões de Luís Costa são da maior pertinência num momento em que tudo se procura registar, com um intenso medo de não se ser visto, de não se ser lembrado: de nos vermos perdidos e esquecidos num mundo de constantes partilhas, de constantes memórias, mas com um assolador e assustador grau de esquecimento. Dizem que a existência da memória depende do esquecimento. Mas é necessário, acima de tudo, manter viva uma memória à qual nos possamos agarrar. Cada vez mais, esta memória parece fugir da realidade e somos conduzidos a uma vivência superficial, (aparentemente) sem passado, sem ideias de futuro. Neste contexto, precisamos de memórias, precisamos de registos, precisamos de um cinema que nos mostre quem é o avô de Luís, que nos mostre o seu olhar e a sua vida, de forma a que possamos subtilmente construir a noção de quem somos, enquanto indivíduos e enquanto nação.

Este ensaio simples, de reflexão sobre uma vida, é essencial: pelo meu avô, por mim, pelo Luís, pelo avô do Luís, por todos os eles e elas que compõem o "nós" que somos. Pela eternidade do colectivo, necessitamos da eternidade (permanentemente fugaz) do indivíduo: necessitamos de um cinema da vida - no seu estado mais amador, mais simples, mais verdadeiro, mais puro.

A distância entre vários pontos

20 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Gisela Leal

João Pedro Rodrigues regressa ao Curtas Vila do Conde para vencer a competição nacional com um trabalho resultante de um convite lançado pelo Centre Pompidou, a propósito da retrospetiva que lhe dedicou no ano passado: Où en êtes-vous, João Pedro Rodrigues? (2016).

A João Pedro Rodrigues interessa a procura de uma distância justa no plano. Uma distância que respeite o olhar, o modo como nos olhamos e, no caso, como o autor olha para si próprio e como aprendeu a fazê-lo através dos seus filmes. Neste filme, a justeza dessa distância torna-se mais complexa, tratando-se daquela que decorre entre o autor e a sua própria representação. Espaço de dupla subjetividade, tendo em conta que o trabalho sobre essa tensão entre distâncias, que é também estrutural no cinema (o modo como se escolhem e relacionam os planos) é aqui transportado para o nível da intimidade, o da autoexposição declarada.

Partir para o autorretrato num autor cujo cinema é já em grande medida autorreferencial poderia facilmente resultar num exercício redundante, mas aqui estamos perante um retrato polissémico, onde camadas de sentidos se interlaçam para desenhar uma reflexão sobre os modos de filmar, sobre a vida e sua representação. Para responder ao desafio de mostrar onde está, Rodrigues vagueia entre memórias e metáforas para a representação de processos, sentimentos e procuras, seguindo uma linha cronológica, que é a da sua vida e a dos seus filmes, atravessando a sua filmografia, do já longínquo Parabéns! (1997) até ao recente O Ornitólogo (2016).

Não lhe interessa olhar para trás, mas a consciência de ser necessário mostrar um pouco de cada passo dado para chegar aonde está no momento, revela-se de forma comprometida e, ao mesmo tempo, prosaica: o realizador despe-se perante a câmara. Mas a João Pedro Rodrigues parece interessar a ideia de mistério em cinema, em cada filme, onde nem tudo se revela, e ao espectador é deixado um espaço pessoal e livre de interpretação. Em Où êtes-vous João Pedro Rodrigues?, o autor mantém essa orientação. O que eleva o filme a uma zona quase transcendental de relacionamentos – a do autor com o cinema e consigo mesmo, e a do espectador com o seu filme, com as leituras possíveis da sua autobiografia e com o próprio cinema e modos de olhar a representação dos universos, pessoais e interpessoais, internos e externos

O realizador recorre a dois textos – Walden, de Henry David Thoreau, e The Birthmark, de Nathaniel Hawthorne, ambos do século XIX. Enquanto em Hawthorne se fala de transformação e morte, remetendo também para as questões de género, tema igualmente recorrente em Rodrigues, Thoreau é um dos expoentes do transcendentalismo, e Walden a sua obra mais exemplificativa, baseada no autoisolamento do autor criado com o intuito de provocar um processo de autorreferenciação e desenvolvimento humano, assente na relação mais básica com as suas próprias ferramentas de sobrevivência em contacto direto com a natureza. É como se, tal como a imersão de Thoreau na natureza para melhor se compreender a si e ao mundo, JPR imergisse no universo dos seus filmes para se compreender e, em seguida, mostrar.

Será no modo como João Pedro Rodrigues considera que os seus filmes se ligam, nessa zona de mistérios, que assenta também a construção deste autorretrato. Se cada objeto fílmico é já em si mesmo um espelho de um universo particular de um autor – e daí talvez a dificuldade que o próprio tem em falar sobre o filme, está lá tudo o que e como queria dizer – cabe-nos a nós, público, percorrermos a partir de nós, das nossas referências, o caminho pela vida e obra do realizador. Sem esquecer que se trata de uma curta, e que a viagem continua. 

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