A geografia, o ser e o agir

11 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Pedro Henrique

 

Os caminhos que cruzam as localidades de Livingstone, Billings e Belfry, no Montana, Estados Unidos, com as Rocky Mountains a atravessar o estado, criam personagens neste filme de Kelly Reichardt. São as novas figuras à margem de uma sociedade assente noutros valores. Localidades para lá da Frontier, um território muito familiar à cineasta, onde as pessoas se valem umas às outras. Neste filme, encontramos quatro personagens que se intersectam  para quebrar a solidão que vivenciam, mesmo que de uma forma inconsciente: Laura (Laura Dern) é uma advogada que necessita de ‘defender’ o seu cliente (Fuller) da realidade, mantendo um caso com o marido de Gina (Michelle Williams), uma mulher que quer construir uma casa com o recurso à pedra arenito, reminiscência ancestral dos primeiros pioneiros, extraindo com dureza esse mineral à própria natureza envolvente, metáfora de uma necessidade de criar raízes. Elizabeth (Kristen Stewart) é uma jovem advogada que dá formação em horário pós-laboral numa cidade muito distante da sua residência, (4 horas, 370 kilómetros de viagem) onde os alunos são professores de profissão bastante mais interessados nas suas questões laborais ou de disciplina. Elizabeth interrompe a vida solitária de Jamie (Lily Gladstone), uma ajudante de Inverno num rancho de cavalos, criando, sem querer, um evento social que ilumina a sua semana – a aula noturna.

Não estamos, ainda assim,  perante um filme de caminhos bifurcados, mas antes no espaço de habitantes comuns que, devido a uma política económica selvagem, se vão tornando proscritos, os mesmos que Reichardt costuma filmar nas suas ações mais simples e mais vitais. Citando a própria realizadora: «[prefiro] pequenos esforços momentâneos para alcançar coisas como encontrar um sítio para dormir à noite». Neste filme, esses esforços, «gestos minimalistas», são símbólicos de algo muito maior, uma sobrevivência emocional e não física, para criar sentidos de existência, não pela necessidade de alimentação, por exemplo, mas pela exigência de construção de uma identidade, uma pegada que permaneça no gelo enlameado daquele espaço.

A forma como a realizadora nos mostra os dias rotineiros e monótonos de Jamie reforça a atenção a esses comportamentos da vida quotidiana, que rejeita o sensacionalismo e valoriza um ritmo de um tempo que ainda existe, um tempo mais lento, em que o espaço é um ator nessa lentidão pela resistência que apresenta. Um tempo que ainda permite o trote pela noite, a cavalo até ao diner de Belfry,  por duas pessoas que estabelecem uma forte intimidade pela simples necessidade de, montadas a cavalo, se agarrarem a alguém. Esta intimidade obrigada pela realidade é o que Elizabeth oferece a Jamie, mas quando esta procura Elizabeth por sua própria vontade, a solidão será a resposta que vai encontrar na cidade.

Entre Mares: Diferença e Dignidade em Kaurismäki

10 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

 

Por Gisela Leal

 

Desta vez é o Báltico o mar que abre o filme, visto do porto de Helsínquia, na segunda parte da trilogia que Aki Kaurismäki dedica àqueles espaços com O Outro Lado da Esperança (2017), depois de Le Havre de 2011. Aqui, Kaurismäki retoma a temática ali iniciada (embora possamos considerar que O Homem sem passado, 2002, tocasse já nalguns dos pontos centrais): o percurso errante e esperançoso dos migrantes pela Europa. De novo, o confronto entre aquela condição e a de um homem de idade avançada, ele próprio em momento de restruturação de vida. Um à procura de um espaço, em fuga da guerra, depois de ter perdido quase toda a família; o outro a quebrar todos os laços, profissionais e pessoais, incluindo com a companheira alcoólica, também ela a procurar renovação e limpeza, potenciada pela ausência do companheiro.

De facto, todos personagens do filme exalam mutação, processos contínuos de transformação, aspeto central no filme e que é também claramente objetificado no restaurante que os reúne e que muda constantemente de “nacionalidade”. Essa mudança é simbólica do cruzamento cultural que subjaz à temática, quase a dizer-nos que somos todos um pouco de tudo e, ao mesmo tempo, a apontar subtilmente uma arma ao coração do capitalismo e da sua capacidade de se readaptar para cumprir o seu objetivo primordial.

 

É, pois, um filme sobre movimento, sobre mudança – geográfica e psicológica, exterior e interior, forçada e voluntária –, onde se abordam as questões centrais da sociedade e da política contemporânea: o fenómeno da migração e as suas consequências, como a xenofobia, os nacionalismos e a violência associada. Como lidam não os Estados, mas os povos, os indivíduos, consigo próprios e com o outro – o estranho, o diferente – e o incluem ou rejeitam.

 

Poderia não parecer uma tarefa fácil à partida, pois os personagens são desconcertantemente monocórdicos, mas o humor é uma ferramenta utilizada pelo realizador com uma mestria invulgar nestas circunstâncias: podemos estar a partilhar a angústia e a nostalgia dos protagonistas para rir da sua desgraça (que pode também ser a nossa) e do maquiavelismo capitalista. Como exemplo, tanto a sequência de transação de dinheiro de mão em mão, como as relações negociais e de patrão-empregado associadas são transformadas em caricaturas do modelo socioeconómico atual. Mais uma vez, e a cada momento, a preocupação humanista do realizador revela-se no extremo cuidado com que trata a dignidade dos seus personagens.

 

O mesmo mar encerra o filme, que na realidade não tem fim. O refugiado sírio que vemos chegar no início, negro do carvão em que vem escondido, vai sendo lavado pelo humanismo que encontra no seu caminho. Até voltar a olhar o Báltico aonde chegou, já sem medo. Mas na brancura da sua camisa está também a mancha de sangue, marca de um percurso: marca do outro lado da esperança?

Desventuras de um corpo capaz de sorrir

10 Julho 2017
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 2.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 25.º Curtas Vila do Conde - Festival Internacional de Cinema. Este Workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, na página do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

Por Cláudio Azevedo
 
Este é o segundo filme da “trilogia dos portos” de Aki Kaurismaki, um conjunto de três filmes que o autor dedica à temática da migração. Através da sua narrativa, somos confrontados, por um lado, com a vida daqueles que vivem o drama da morte e destruição em territórios de guerra, e do outro, com as questões do acolhimento nos países que os recebem.  

A história mostra-nos as desventuras de Khaled, um refugiado sírio que chega a Helsínquia escondido dentro de um monte de carvão. Ainda com o rosto coberto de negro, Khaled vagueia pela cidade em busca de asilo, enquanto tem o seu pensamento focado em reencontrar a sua irmã, perdida algures na viagem. Wikström é um vendedor de camisas que desiste do negócio e que, num jogo de póquer, ganha dinheiro suficiente para comprar um restaurante. As vidas destas duas personagens acabam por se cruzar e Wikström acolhe Khaled, dando-lhe um espaço para dormir na sua garagem e um trabalho no seu restaurante.

Neste filme, os espaços da cidade tornam-se encruzilhadas onde vêm desaguar as vidas que, apenas numa dimensão aparente, caminham separadas. O realizador desfaz esta aparência e mostra, através de gestos, os elos invisíveis que conectam os corpos ao espaço. O corpo de Khaled movimenta-se desde o monte de carvão no navio até aos cárceres que o aprisionam: as algemas, os albergues, os caixotes de lixo e as casas-de-banho. É nesta imanência, entre corpos e espaços, que a vida acontece. Este ser humano que navega à deriva, entre obstáculos burocráticos e os ódios do costume, vê-se reduzido a uma condição animal similar à de um cão abandonado, mas é também dentro dessa condição que ele consegue resistir, e com isso mostrar-nos a potência humana de habitar, de ser capaz de reconstruir a sua vida num espaço novo.

O brilhantismo da realização é evidente. Isso é visível na forma como a banda sonora se incorpora no filme: o rock ‘n’ roll dos planos das guitarras e das mãos que as tocam. São as mesmas mãos que levam os dedos aos lábios, onde abundam os cigarros e o fumo que, ao misturar-se com a luz, oferece à imagem uma plasticidade que vivifica a forma do filme; porém, a forma ganha ainda mais relevo quando atentamos para a cuidada composição e coloração dos enquadramentos.

No final, fica a pergunta: qual o outro lado da esperança? Talvez seja esse lado mais duro, daquilo que acontece enquanto se espera, o desespero e melancolia que nascem pela realidade das dificuldades que vão tornando mais árido o caminho. Mas, apesar disso, fica sobretudo a genialidade de um artista que consegue vestir as tragédias com um humor desconcertante. Talvez seja esse o rosto da esperança, o riso e o sorriso tão humanos que o realizador consegue introduzir nas personagens e retirar de dentro de nós.

Workshop de Crítica de Cinema: 2ª edição

17 Abril 2017
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Até 31 de maio, estão abertas as inscrições para a 2ª edição do workshop de Crítica de Cinema do Curtas Vila do Conde, que terá lugar durante o festival.

Este workshop vai de encontro à necessidade de formar novos valores da crítica de cinema, permitindo um diálogo entre gerações e uma plataforma para desenvolver uma discussão crítica sobre os filmes que são exibidos no Curtas Vila do Conde.

O workshop será composto por duas fases: a primeira mais direcionada para uma aprendizagem dos diferentes modos de crítica e de diferentes modelos da história do cinema (através de masterclasses e conversas); e a segunda, em modo tutorial, para o acompanhamento do festival e a produção de textos. Este material produzido pelos participantes será publicado nas plataformas web do festival, assim como pelos parceiros de imprensa (Público, À Pala de Walsh, A Cuarta Parede).

As inscrições são aceites até: 31.05.2017

Número máximo de participantes: 10

Preço: 60 Euros

(Inclui Free-Pass; o Free Pass dá direito a assistir a todas as sessões do festival, salvo excepções assinaladas no programa).

 

Programa

Este é um Workshop intensivo, em que os participantes estão ativamente envolvidos no festival, visionando filmes e escrevendo textos para publicação. O Workshop inicia no dia 7 de julho (sexta-feira) e prolonga-se até 14 de julho (sexta-feira seguinte), com orientações tutoriais diárias, visionamento de filmes, participação em debates e uma masterclass diária com convidados.

 

Tutores: Daniel Ribas e Paulo Cunha

Oradores convidados: Jorge Mourinha, Javier H. Estrada, Nicole Brenez, João Tabarra, Filipa César (entre outros).

Tópicos a abordar: técnicas de escrita e de entrevista, modos da crítica, tendências do cinema contemporâneo, cinema experimental, arte cinemática.

 

Os textos produzidos pelos participantes serão publicados no blogue do festival e em três parceiros: Público (publicação diária), À Pala de Walsh e A Cuarta Parede. Os textos produzidos no ano anterior podem ser encontrados aqui: PúblicoÀ Pala de Walsh e A Cuarta Parede.

 

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