A criança-poeta e as obsessões quotidianas da educadora de infância

26 Julho 2018
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 3.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 26.º Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

por Pedro Nogueira


Pouco conhecido no circuito comercial,mas reconhecido pela crítica internacional, Nadav Lapid apareceu-me pela primeira vez quando vi o programa do Curtas para este ano. Sabia então que era um realizador especial, mas surpreendeu-me que se focassesobretudo em questões de natureza mais “existencial” e humana.

Foi com essas premissas que fui ver a sessão com The Kindergarten Teacher(2014)E fui deixando-me surpreender por um israelita que prefere questões humanas a questões políticas pode ser “um pau de dois bicos”, pois a maneira como aborda certos temas e relações no The Kindergarten Teacheré de facto surpreendente.

Um jardim de infância, uma criança prodígio e a sua educadora de infância pode aparentemente ter algo mais indigno que algumas guerras, quiçá potencializadas por pessoas com vidas tão simples quanto o realizador nos sugere.No filme, por parte das personagens, vive-se frequentemente numa tensão que parece agonizante, delineando caminhos opostos: tanto nas várias facetas de personalidade que aparenta ter o ser humano,como indo do ruído quase ensurdecedor de um grupo de crianças eufóricas no pico da energia diária até ao silêncio quase total na hora de uma sestanumdia de sol radiante a uma tempestade intensa (de ideias?). Lapid parece ter muito ciente o quão “poderosa” pode ser a mente de uma pessoa, independente do seu ambiente, idade ou profissão auxiliando-se do som (ou da ausência dele), da edição e da tensão entre as personagens para explorar isso.

Esse parece ser contraponto que nos guia no decorrer do filme e torna as personagens mais indignas através dos extremos que elas são capazes de atingir. Da sonolência à euforia, do nacionalismo ao liberalismo, do roubo à originalidade, da exploração infantil à atenção extrema, dessa atenção ao desprezo e desse desprezo à tensão sexual.

Tensão sexual essa que é permanente no filme e que torna ainda mais difícil perceber o que move as personagens, numa tensão sexual permanente em que o desejo e apetite leviano delas se torna numa espécie de mistura caótica que vai além da tensão. Onde estarão os limites do crime?

Um Homem e o seu País

26 Julho 2018
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 3.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 26.º Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

por Diogo Amaro 

O Polícia 
(2011), de Nadav Lapid, segue duas histórias. A primeira centra-se sobre um policia e seus colegas, membros de uma elite anti-terrorista, ao mesmo tempo que se pode reflectir sobre a sua dedicação ao Estado de Israel. As personagens do filme são bastante simbólicas, como é o caso de Yaron, que vai revelando, ao longo do filme, uma postura egoísta, sendo alguém que demonstra um grande amor pela sua mãe, ao mesmo tempo que espera o nascimento do seu filho. Há algumas cenas muito reveladoras de Yaron, como quando ele segura um bebé em frente a um espelho, como se isso fosse uma espécie de chamamento à sua paternidade. Já a segunda parte do filme mostra um grupo de rebeldes que tenta fazer uma revolução, manifestando-se contra o status estabelecido em Israel, ao mesmo tempo que denuncia a injustiça social prevalecente no país.

O filme tem um lado subtil ao enfatizar a luta de classes num momento em que é dado maior destaque ao conflito israelo-palestino, sendo um filme eminentemente político, servindo, de alguma maneira, por reforçar uma complexa dimensão psicológica na cabeça dos protagonistas, que vai acompanhando uma estimulante fotografia e montagem. Aqui e ali surgem cenas intensas, algumas de cortar a respiração, como a cena do rapto de milionários israelitas por parte dos rebeldes de esquerda que querem, com tudo isso, fazer passar uma mensagem política e social ao Estado de Israel. Eles são jovens idealistas que ambicionam uma profunda mudança na estrutura social do país.

A visão, por parte de Yaron, do corpo da jovem rebelde morta no sequestro mostra como um conjunto de valores pode ser desmoronado, isto é, ao mesmo tempo que Yaron cumpre o seu dever em salvar os sequestrados, não deixa de ter dúvidas sobre se aquilo que fez era o mais correcto, parecendo que Yaron, no final do filme, tem uma perspectiva diferente daquela que tinha anteriormente, daí também alguma ambiguidade moral presente no filme.


O filme não é parcial nos assuntos que aborda, e a sensação com que se fica é a da incerteza de Yaron, ao mesmo tempo que as personagens femininas denotam uma maior voracidade do que as personagens masculinas, sobretudo a rebelde do filme, e O Polícia mostra também como a fé inabalável de Yaron pelo seu país torna-o numa espécie de mártir, pronto a abdicar de tudo pelo zelo a Israel.

O fim dos amores felizes

26 Julho 2018
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O texto seguinte foi produzido por um dos participantes do 3.º Workshop Crítica de Cinema realizado durante o 26.º Curtas Vila do Conde – Festival Internacional de Cinema. Este workshop é formado por um conjunto de masterclasses e debates com convidados internacionais e pela produção de textos críticos sobre os filmes exibidos durante o festival, que serão publicados, periodicamente, no site do PÚBLICO e no blogue do Curtas Vila do Conde.

por Rebeca Bonjour


Morreram os “felizes para sempre”. É esta a sensação que nos fica quando se acende a luz no final da sessão Produções Curtas, onde foram exibidos mais três filmes produzidos ou coproduzidos pelo Curtas através da Curtas Metragens CRL. Este ano foram apresentadas três obras: Náufragos(2018), de Pedro Neves, Rio Entre Montanhas (2018), de José Magro, e Circo do Amor(2018), de Miguel Clara Vasconcelos. Três filmes que, à partida, não parecem ter uma relação entre eles, mas que acabam, de uma forma mais ou menos direta, por ter um denominador comum: todos eles abordam o amor e as relações ambíguas que lhe são, frequentemente, inerentes.

Sob a orientação de Pedro Neves,Náufragos, é o resultado de um workshop de filme documental que se centra nos pescadores vila-condenses que se perdem para o mar. Os relatos são daqueles que ficam: as mulheres que viram os seus maridos partir; os homens que sobreviveram ao mar para viver para sempre aterrorizados pelas imagens dos companheiros a morrer, sobrepõe-se a imagens do mar, ao som das ondas a rebentar na praia, rítmicas, hipnóticas, magnetizantes. A escolha parece clara: apresenta-se-nos aqui a ambiguidade do terror provocado pelo mar, o medo de perder os seus amados, o fantasma presente dos que já se foram, contra a necessidade do mar, ganha-pão das gentes que aqui vivem. Esta dicotomia é acentuada pelo uso do preto e branco e da fotografia feita aos entrevistados: iluminados a lanterna, predominam as sombras, os negros, uma metáfora visual para representar o desconhecido, o perigo, o medo constante que paira sobre estes rostos, as sombras do que já viveram. 

Rio Entre Montanhas 
é, das três, a curta que explora as questões do amor de forma mais explícita. Feito em parceria com o festival chinês de cinema de Jinzhen, propõe-se evitar expor uma visão ocidentalizada desta temática e a explorá-la antes segundo a forma como é percebida e experienciada naquele país. A deliciosa sucessão de imagens em planos abertos, fixos, parecem-se quase como o desfolhar de um álbum de fotografias, através do qual nos são reveladas as relações da personagem Kong. Numa sociedade que atribui ao homem o papel da iniciativa, Kong vive sempre entre a vontade de tentar levar as relações avante e a sua timidez extrema.

Está condenada ao fracasso a relação de Alberto, que em O Circo do Amorse apaixona por uma acrobata de um circo que chega de repente à cidade. Este amor é apresentado como um fator de reviravolta e mudança no quotidiano de Alberto, levando-o a querer deixar tudo para trás. A verdadeira relação de amor que se põe em causa é, no entanto, aquela que existe entre Alberto e a mãe, uma figura autoritária que sabota a liberdade e as opções de vida do filho. Neste sentido, Alberto depara-se perante uma encruzilhada: entre o amor materno, o seu dever de obrigação para com ela, e o peso do despotismo que esta tem para com ele e que o impelem à necessidade de se afastar dela.

São três filmes diferentes que retratam tipos de amor diferentes: aquele ligado às nossas origens, entre casais, e pela família, mas todos eles reforçam a sensação de que não existe relação que não seja ambígua. O medo, a manipulação, a expectativa, a obrigação, acabam sempre por empurrar-nos ao fracasso: não há amores fáceis; os “felizes para sempre” morreram. No entanto, persistirmos em procurar esse amor, em representá-lo insistentemente em canções, livros, filmes. Afinal, o que é a vida sem amor, mesmo em todas as suas formas intrincadas e retorcidas?

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