25 Anos a Celebrar o Futuro

Para qualquer festival de cinema, quer seja português ou estrangeiro, cumprir um quarto de século de programação sem interrupções é facto assinalável. Durante estes vinte e cinco anos, o Curtas Vila do Conde procurou divulgar e promover o cinema contemporâneo, mostrá-lo e discuti-lo durante a mais cinéfila das semanas à beira-mar. Já não temos conta das sessões, dos realizadores, das noites ou dos espectadores que passaram por cá, mas sabemos que foram imensos e das mais diversas proveniências. Acreditamos que ajudamos a antecipar o futuro do cinema, mostrando as suas diversas facetas ou mesmo as suas contradições: novos espaços, novos formatos, novas experiências. É também por causa dessa diversidade que o programa do 25º Curtas Vila do Conde olha para trás e para a frente, procurando fundir o passado com o futuro.


Como não podia deixar de ser, esta edição reflete a história do festival, a partir de múltiplos olhares, com uma carta branca e um livro partilhados por vinte e cinco individualidades que atuam em diversas áreas artísticas e culturais (serão nove sessões com filmes “clássicos” do festival). Também imergimos na história ao reabrir o Auditório Municipal de Vila do Conde, a casa do festival entre 1993 e 2008, para aí oferecer concertos, sessões de cinema e uma exposição fotográfica retrospetiva de realizadores portugueses. Mas, ao mesmo tempo, o Curtas olha para o futuro, voltando a imaginar uma programação de risco, com filmes-concerto, as suas diversas competições, o Curtinhas para os mais novos, e uma retrospectiva In Focus do cineasta francês F.J. Ossang, um radical livre.

Mais uma vez, o Curtas promove a muito aguardada secção Stereo, onde a música se funde com o cinema, misturando duas artes centrais do tempo contemporâneo. Este ano, o festival recebe espetáculos de Mão Morta, Capitão Fausto, Pega Monstro, Evols, Chassol e Atlantic Coast Orchestra. É um conjunto impressionante de músicos e bandas que se propõem trabalhar com imagens em movimento. Para começar, a Atlantic Coast Orchestra, liderada pelo maestro Luis Clemente, vai interpretar, ao vivo, uma banda sonora escrita pelo compositor Andrew E. Simpson para o clássico mudo de Buster Keaton, The General. O francês Chassol estreia-se em Portugal com um surpreendente espetáculo audiovisual onde vai apresentar um dos seus mais recentes projetos, Big Sun. O seu concerto será um espetáculo multissensorial e uma oportunidade única para testemunhar o génio musical do francês. Os portugueses Mão Morta e Capitão Fausto irão apresentar álbuns acompanhados de espetáculos visuais. No caso de Mão Morta é também momento de celebração: assinalam o 25º aniversário de Mutantes S21, um mítico álbum que tocarão na íntegra. Os Capitão Fausto exibem, em simultâneo ao concerto, o documentário Pontas Soltas, sobre a produção do último álbum. Finalmente, o Auditório Municipal abrirá para concertos das bandas Evols e Pega Monstro que nos mostram os seus novos álbuns. Como o Curtas já habituou, trata-se de uma escolha musical diversificada e entusiasmante.

Para celebrar o cinema e o seu futuro, programamos uma retrospetiva integral do realizador francês F.J. Ossang. Músico, escritor, editor e poeta, o cineasta é um radical livre, praticando, com o seu cinema, um estilo particular, partindo do mundo pós-apocalíptico de ficção científica para se aproximar do punk e do film noir. É o regresso de Ossang a Vila do Conde, por onde já passaram várias das suas curtas e onde foi premiado com Vladivostok, em 2009. Será, certamente, uma descoberta de uma obra particular e que mantém uma especial relação com Portugal.

A exposição que se inaugura na Solar - Galeria de Arte Cinemática representa uma abertura a uma nova geração de artistas que procuram estabelecer, a partir de diversas perspetivas, uma reflexão sobre a Terra, em seis instalações site-specific. Estarão representados nesta exposição: Gabriel Abrantes e Ben Rivers, Priscila Fernandes, Pedro Neves Marques, Joana Pimenta, Lúcia Prancha, Mariana Caló e Francisco Queimadela. Também em 2017, regressa a secção Da Curta à Longa, que mostra longas-metragens de autores que já passaram pelo Curtas. Este ano, temos uma seleção de luxo: Kelly Reichardt (In Focus 2014), Aki Kaurismäki (retrospetiva em 1994), Sandro Aguilar (um dos autores portugueses mais representados no festival), e Abbas Kiarostami (retrospetiva em 1995).

Claro que o festival continuará a ter como polo centralizador as suas diversas competições. Na competição internacional, programamos uma seleção dos melhores filmes de formato curto, procurando sentir o pulsar de um mundo em permanente contradição; na competição nacional, voltamos a selecionar um conjunto de curtas-metragens portuguesas que surpreendem pela persistência e diversidade de olhares, tanto de cineastas consagrados como de realizadores emergentes; na competição experimental, procuramos assumir o risco de experimentar aquilo que é diferente, que desafia as nossas perceções sobre o cinema: este conjunto de filmes mostra, de facto, caminhos insólitos e provocadores; na competição de vídeos musicais, continuamos a celebrar o formato, numa sessão com trabalhos surpreendentes de artistas portugueses; na competição Take One!, voltamos a evidenciar a diversidade dos cineastas que todos os anos produzem cinema a partir da academia; finalmente, na competição Curtinhas, arriscamos a mostrar como o cinema para crianças pode ter um modelo diferente e surpreendente.

O Curtas Vila do Conde voltará com as habituais oficinas para crianças e com o espaço infantil (onde os pais podem deixar as crianças enquanto vão às sessões). Continuará a promover encontros e debates com realizadores, workshops e até “ciné-conversas”, mostrando que é possível pensar e refletir sobre o cinema. Também por isso, este ano apresentamos a 2ª edição do Workshop de Crítica de Cinema, em que um conjunto de formandos estará em processo de formação em crítica de cinema ao mesmo tempo que participa em masterclasses com conceituados jornalistas, críticos, programadores e realizadores nacionais e internacionais.

Um quarto de século depois, continuamos com a mesma energia que, em 1993, nos permitiu pensar e inventar um festival de “curtasmetragens”. Queremos, este ano, de forma especial, celebrar mais esta efeméride com o nosso público de sempre e com os novos cinéfilos que todos os anos se juntam a esta família. Para o nosso público, apresentamos uma programação com múltiplas ofertas, para todos os gostos e idades. De 8 a 16 de julho, todos os caminhos do cinema vão dar a Vila do Conde.

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