Cumprindo com um dos seus principais objetivos, o da divulgação do cinema que não é visto noutro lugar, em 2018, o Curtas Vila do Conde volta a apresentar uma programação eclética que cruza os universos dos filmes, da música e das artes plásticas.


Para esta 26ª edição, o festival aposta em realizadores emergentes, cujo trabalho se tem vindo a consolidar, na última década, no panorama internacional do cinema de autor. Falamos de Gabriel Abrantes, que, em co-realização com Daniel Schmidt, traz-nos a estreia nacional de "Diamantino", dando o pontapé de saída do festival; Yann Gonzalez, que apresenta a sua última longa-metragem, "Un Couteau dans le coeur", e uma sessão muito especial, uma ‘carte blanche’ a qual intitulou de “Avant-Garde Midnight Madness”, incluindo filmes iconoclastas e raridades; e Nadav Lapid, realizador In Focus, cuja obra será alvo de uma retrospetiva integral. Para os três, trata-se de um regresso a Vila do Conde, já que o festival acolheu, ao longo dos anos, vários filmes destes cineastas e reconheceu-os com vários prémios.

As Competições Internacional e Nacional permanecem o foco principal do festival, reunindo o melhor da produção de curtas-metragens do último ano numa seleção de filmes que pretende dar a ver as várias vertentes do cinema contemporâneo. Animações, ficções e documentários provenientes um pouco de toda a parte – do Paquistão à Finlândia, da Roménia aos Estados Unidos da América – integram a programação. O programa inclui ainda competições destinadas ao cinema experimental e aos vídeos musicais. O trabalho de seleção, levado a cabo por uma extensa equipa de programadores, resulta numa síntese possível do que de melhor se produz a nível mundial, em matéria de cinema até 60 minutos e, também, como janela para o mundo.

O Curtas Vila do Conde apresenta um programa dentro e fora de fronteiras geográficas mas também disciplinares. O Stereo é uma das secções mais aguardadas do festival, incluindo filmes-concerto e espetáculos inéditos, ora no formato mais habitual, com músicos compondo e tocando para filmes, ora combinando performances musicais e de live video. O festival arranca à boleia dos Black Bombaim, trio de rock psicadélico a que se juntará o escultor sonoro João Pais Filipe, numa composição original para "Dragonflies with Birds and Snake", filme experimental realizado por Wolfgang Lehmann. Joana Gama e Luís Fernandes apresentam o novo álbum "At The Still Point of The Turning World", acompanhados por um ensemble constituído para o efeito e pelo realizador Miguel C. Tavares, que produzirá os elementos visuais ao vivo. Numa parceria algo inesperada, a compositora norte-americana Moor Mother junta-se a Jonathan Uliel Saldanha (HHY & The Macumbas) num projeto audiovisual inédito que terá como base a estética afro-futurista do filme de Sun Ra, "Space is the Place". Os realizadores André Tentugal e Vasco Mendes também acompanham essa viagem. A programação junta ainda dois fenómenos musicais portugueses da última década a dois clássicos do cinema: B Fachada tocará para The Cameraman, do incontornável Buster Keaton, e os Linda Martini para "La Coquille et le Clergyman", de Germaine Dulac, um dos primeiros filmes da vanguarda francesa dos anos 20. Entre os clássicos e as novas formas de cinema, o Curtas aposta na diversidade do Stereo para resgatar as novas gerações para as salas de cinema.

A questão do lugar, de onde se vem e para onde se parte, das imagens do lado de lá, das suas gentes e da sua história ou, até, do fim da história, é também um eixo central na exposição New Spain, patente na Solar – Galeria de Arte Cinemática, com abertura logo no primeiro dia do festival. Comissariada por Nuno Rodrigues e José Manuel Lopez, a mostra reúne obras de sete artistas espanhóis – Carla Andrade, Inés García, Laida Lertxundi, Lois Patiño, Natalia Marín, Samuel M. Delgado e Helena Girón – que exploram as noções de paisagem, intimidade e território, aliando meios tão diversos como o filme, o vídeo, a fotografia e o som, e desafiando os limites do cinema e das artes plásticas. A exposição serve também de ponto de partida para um programa paralelo homónimo que contará com sessões de cinema especiais, visita guiada e um debate. Uma das sessões especiais é inteiramente dedicada ao trabalho de Laida Lertxundi, com a projeção de seis filmes da realizadora numa curadoria de Maria Palácios Cruz. Duas sessões programadas por Gonzalo de Pedro Amatria sob o título "Muchos Símbolos y Ningún Significado", reúnem um conjunto de filmes muito especiais e fora do lugar. De vídeos musicais a trailers, do documental ao experimental, as escolhas arrojadas e singulares de Amatria fogem aos discursos hegemónicos das produções industriais. Através do recurso ao humor, à ficção-científica e de uma aproximação lúdica às ferramentas audiovisuais, os jovens cineastas espanhóis refugiam-se da decepção frente ao estado das coisas criando novas formas de expressão afastadas dos esquemas clássicos. A dupla Adriana Vila e Luis Macías encerra o programa paralelo com a performance de cinema expandido "Even Silence is Cause of Storm", recorrendo à manipulação de película 16mm.

Nadav Lapid é o realizador em foco nesta 26ª edição. O cineasta israelita regressa assim a Vila do Conde, onde, em 2016, venceu o prémio principal do festival com a curta-metragem "From the Diary of a Wedding Photographer". Formado em literatura, filosofia e cinema, Lapid é dos autores maiores do cinema israelita abordando, recorrentemente no seu trabalho, quer a identidade nacional, quer as diferenças culturais. A obra do realizador, de que se destacam "O Polícia" e "The Kindergarten Teacher", será alvo de uma retrospetiva integral. Nadav Lapid apresentará também uma master class, no âmbito da 3ª edição do Workshop de Crítica de Cinema.

Uma das novidades desta 26ª edição passa pelo alargamento da competição Take One!, dedicada a filmes de escola, a um contexto internacional. Assim, o Curtas Vila do Conde irá receber a concurso, pela primeira vez, curtas-metragens realizadas por estudantes das melhores escolas europeias, para além da competição dedicada a jovens realizadores portugueses. Outrora, por esta secção já passaram realizadores como João Salaviza ou Salomé Lamas.

Do trabalho desenvolvido pela cooperativa Curtas Metragens CRL ao longo de todo o ano, resulta uma sessão especial que integra os filmes “Rio Entre As Montanhas”, de José Magro, produzido no âmbito do 72 Hour Film Project, do festival Hancheng Jinzhen; “Circo do Amor”, de Miguel Clara Vasconcelos, filme produzido com apoio do ICA – Instituto do Cinema e Audiovisual para curtas-metragens de ficção, e “Náufragos”, de Pedro Neves, produzido no âmbito dos workshops da Animar 13. Todos muito recentes e os dois últimos com rodagem no concelho de Vila do Conde.

Destaque também para a sessão de encerramento do festival, que contará com a estreia da curta-metragem "Como Fernando Pessoa Salvou Portugal", de Eugéne Green, produzida por Julien Naveau, Luís Urbano, Sandro Aguilar e pelos irmãos Dardenne. O filme parte da relação factual do poeta português, enquanto publicitário, com uma famosa marca de refrigerantes, para criar uma efabulação.

O fomento da cultura visual e do pensamento crítico são dois alicerces do Curtas Vila do Conde que, ao longo de todo o ano, desenvolve um projeto educativo próximo das comunidades escolares locais. Durante o festival, apresentamos três workshops dedicados às imagens em movimento: Crítica de Cinema, com masterclasses de convidados especiais; Cinema Expandido, orientado por Adriana Vila e Luis Macías; e Stereo (‘live video’ em contexto musical), orientado por André Tentugal e Vasco Mendes, numa parceria com a MAD Summer School.

Como já é habitual, o festival reserva ainda um programa para os mais novos. O Curtinhas integra sessões destinadas a crianças entre os 3 e 10 anos, além de workshops e oficinas de brinquedos em papel e pixilação. Para os pais cinéfilos, o Curtas Vila do Conde proporciona as condições ideais para uma ida à sala de cinema: um espaço infantil com monitores onde os seus filhos poderão ficar em conforto e segurança.

Os momentos de debate e reflexão são também momentos habituais no festival. Ao longo da semana, promovemos vários encontros, de entrada gratuita, com os realizadores em competição (Internacional, Nacional, Experimental e Take One!) e os artistas em exposição (New Spain) para pensar os modos de fazer do cinema contemporâneo, numa espécie de estado da arte das artes visuais. No final de cada dia do festival, haverá também tempo fazer a festa dos dois bares oficiais do Curtas Vila do Conde: Cacau e Barcearia.

Um ano depois de ter comemorado um quarto de século, o Curtas continua a quebrar fronteiras. De 14 a 22 de julho, o lugar onde o cinema (não) se esconde, fica no norte, é em Vila do Conde.

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