• BACURAU Kleber Mendonça Filho
6 JUL, 21:00, TEATRO MUNICIPAL SALA 1
  • BACURAU

    Kleber Mendonça Filho
BACURAU BACURAU
Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles, 2019
Brazil · France, FIC, 02:10:00
Para uma estética da sede Bacurau é uma cidade no interior de Pernambuco, num futuro distópico. Dias após a morte de Carmelita, uma matriarca de 94 anos, os habitantes descobrem que a sua cidade desapareceu de todos os mapas. Carmelita é então a ideia de um Brasil que morreu, mas que deixou um legado de afetos e de alegria, tendo gerado muitos filhos que se foram espalhando pelo mundo. A cena do funeral da matriarca é uma espécie de grande celebração catártica coletiva. “Bacurau” será também, parafraseando a canção de abertura do próprio filme, uma canção brasileira para ouvir depois do Carnaval, no fim da festa, ou então um objeto voador não identificado, que parece ter perdido a sua identidade. Ambientado no mítico sertão brasileiro, imortalizado na literatura por João Guimarães Rosa “Grande Sertão: Veredas”, 1956 ou Euclides da Cunha “Os Sertões”, 1902 e no cinema por Ruy Guerra “Os Fuzis”, 1964 e Glauber Rocha “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, 1964; e “António das Mortes”, 1969, “Bacurau” marca um regresso a esse território historicamente esquecido, marginalizado e explorado pelo poder central brasileiro. Inscrito na melhor tradição glauberiana, Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles recorrem à alegoria distópica para falar sobre a sociedade brasileira na atualidade, nesta conturbada fase de transição de Lula para Bolsonaro, um Brasil que parece viver ainda em aparente estado de transe coletivo. A morte da matriarca espoleta uma série de memórias e fantasmas do passado que ameaçam a sobrevivência da comunidade. O filme é povoado por uma série de personagens simbólicas, como a médica Domingas (em mais uma surpreendente interpretação de Sónia Braga), o prefeito sem escrúpulos Tony Júnior ou o DJ Urso (uma espécie de sucedâneo moderno do Cego Júlio de Deus e o “Diabo na Terra do Sol”), que ajudam a compreender a complexidade da sociedade brasileira no momento particular em que vive, acentuada pela mistura de géneros cinematográficos distintos – como o western, a alegoria, a ficção científica, o gore do terror. A música final do filme, um requiem celebrizado por Geraldo Vandré, parece propor uma redenção possível: “Vim aqui só pra dizer/ Ninguém há de me calar/ Se alguém tem que morrer/Que seja pra melhorar/Tanta vida pra viver”. O filme termina assim num momento coletivo em que o bem comum é mais importante que o bem individual, e que só pela união de vontades se poderão ultrapassar as adversidades e derrotar o sistema dos que querem redefinir as regras do mundo apenas em benefício próprio. (PC)
PRODUÇÃO Emilie Lesclaux - CinemaScópio Produções; Saïd Ben Saïd, Michel Merkt - SBS Productions, emirecife@gmail.com CONTACTO DE CÓPIA SBS Distribution; 33145636660, contact@sbs-distribution.fr, www.sbs-distribution.fr ARGUMENTO Kleber Mendonça Filho, Juliano Dornelles FOTOGRAFIA Pedro Sotero EDIÇÃO Eduardo Serrano SOM Nicolas Hallet MÚSICA Mateus Alves, Tomaz Alves Souza ACTORES Sonia Braga, Udo Kier, Bárbara Colen, Thomas Aquino, Silvero Pereira, Thardelly Lima, Rubens Santos, Wilson Rabelo, Carlos Francisco, Luciana Souza, Karine Teles, Antonio Saboia