• NÃO PENSEM QUE VOU GRITAR Frank Beauvais
4 OUT, 19:00, Teatro Municipal Sala Dois
  • NÃO PENSEM QUE VOU GRITAR

    Frank Beauvais
NE CROYEZ SURTOUT PAS QUE JE HURLE NÃO PENSEM QUE VOU GRITAR
Frank Beauvais, 2019
France, DOC, 01:16:00
Uma relação amorosa terminada e um longo inverno pela frente. Na sequência dos atentados terroristas de novembro de 2015, França encontra-se em choque e em estado de emergência e clima securitário. É este o pano de fundo para um auto-retrato dos meses de reclusão voluntária do realizador Frank Beauvais numa pequena localidade no leste de França, rodeado pela natureza (qualquer relação que os espectadores atuais farão com os acontecimentos mais recentes e com o confinamento geral será pura coincidência). Mas, neste luto pelo final de uma relação afetiva, não há lugar para qualquer retrato bucólico da vida no campo. Apenas alguma raiva contida e impotência, momentos de solidão, depressão e desalento, só interrompidos pelos gestos quotidianos ligados à mera sobrevivência e pelo visionamento de quatro a cinco filmes por dia, meses a fio, devorados de forma compulsiva numa espécie de bulimia cinéfila dos novos tempos da Internet. No total, mais de 400 filmes que nos são devolvidos em pedacinhos, num imenso e excessivo puzzle de imagens heterogéneas, sem hierarquia – filmes chave da história do cinema convivem com raridades quase invisíveis ou filmes de série z – e sem qualquer reconhecimento imediato, mesmo para o cinéfilo mais avisado: Beauvais faz questão de nunca escolher uma imagem relevante de um filme ou mostrar um actor conhecido. Estas imagens são acompanhadas pela voz “off” do realizador, num fluxo incessante de palavras, que aquelas complementam sem nunca se tornarem numa ilustração, funcionando antes como contraponto e metáfora. O texto é um diário pessoal de grande qualidade literária e poderoso simbolismo, lúcido, poético e comovente. Gesto absolutamente singular e obra-prima do cinema contemporâneo, “Ne croyez surtout pas que je hurle” é fruto de uma crise amorosa que é também uma crise de identidade em tempo de dúvidas, mas onde os dias sombrios e o desespero também podem dar lugar à esperança, como nesse belíssimo plano aéreo em que o olhar de Frank Beauvais levanta literalmente voo, como que a acreditar que a cinefilia compulsiva não tem de ser um vício perigoso ou uma forma de não viver as nossas vidas, mas também um modo de as salvar. Esta é a primeira longa-metragem de Frank Beauvais, realizador que o Curtas acompanha desde o início da sua carreira – todos os seus oito filmes anteriores, sem exceção, foram exibidos em competição no festival entre 2006 e 2015, conquistando em 2007 o Grande Prémio da Competição Internacional com “Compilation 12 instants d’amour non partagés”. PS: Curiosidade suplementar para os espectadores do Curtas é a presença de Vila do Conde numa das sequências do filme, para quem conseguir descobrir. (MD)
PRODUÇÃO Justin Taurand - Les films du Bélier; Michel Klein - Les films Hatari, Matthieu Deniau, Philippe Grivel - Studio Orlando, contact@lesfilmsdubelier.fr CONTACTO DE CÓPIA Laura Guyon - Les films du Bélier, laura@lesfilmsdubelier.fr, www.lesfilmsdubelier.fr ARGUMENTO Frank Beauvais EDIÇÃO Thomas Marchand SOM Matthieu Deniau, Philippe Grivel, Olivier Demeaux