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Angélica Salvi + Shoes, Lois Weber

Trocar o piano e os violinos pela harpa não é uma mudança inócua e meramente instrumental. Os instrumentos de cordas mais habituais nas salas de cinema, que sempre ajudaram a trazer ao alto as emoções dos filmes mudos, encontram na harpa uma alternativa própria para “Shoes”. Se os sapatos da personagem Eva Meyer são o “motus” do filme de Lois Weber, a sempre feminina harpa é o “mobile” que leva esta sessão para um universo entre o sonho reprimido e o trabalho forçado da rapariga do filme, a cinematografia da realizadora Weber e ainda o trabalho das mãos da harpista Salvi. Este cruzamento a três – realizadora, atriz e instrumentista-compositora – no palco do cinema acontece no Curtas em estreia absoluta e dá-nos a garantia de que a música irá também ela construir uma atmosfera sensível, emocional e eticamente envolvida. É prática de Angélica Salvi, harpista espanhola radicada no Porto desde 2011, trabalhar improvisações no universo da música contemporânea e eletroacústica e convidar o público a mergulhar nos seus referenciais emocionais, nos seus sonhos espirituais e nas suas forças sensíveis. Esta camada suplementar, quase epidérmica, vem trazer ao momento único da projeção de “Shoes” um contato intimista e uma ligação inelutável ao “eterno feminino”. Nesta viagem, o público será guiado pelas sonoridades ambíguas e multifacetadas das cordas de Angélica Salvi, sem qualquer manipulação, que não seja a da sensibilidade estética. (LL)

  • ANGÉLICA SALVI - SAPATOS Lois Weber
  • Angélica Salvi

  • Angélica Salvi
ANGÉLICA SALVI - SHOES ANGÉLICA SALVI - SAPATOS
Lois Weber, 1916
USA, FIC, , 00:53:00
Calçar os sapatos de Eva Meyer, uma jovem vendedora de um grande armazém, cujo salário sustenta a família inteira, é a proposta da realizadora Lois Weber. Calçar os sapatos de Eva, portanto, entrar na pele do eterno feminino, que vai muito além da sensibilidade e fragilidade do “segundo sexo”, como lhe chamava Simone de Beauvoir, é dar a ver o mundo de Eva Meyer na “primeira pessoa”. Que história nos é contada? A de uma rapariga pobre, cujo pai, lascivo e preguiçoso, passa os dias deitado a ler romances de cordel, a beber cerveja e exalar o fumo do seu cachimbo num quarto cuja porta está sempre aberta. A de uma rapariga que tem três irmãs mais novas e uma mãe que faz das tripas coração para impedir a desagregação total do lar, nem que para isso tenha de proibir os 3 dólares que a sua filha, único sustento da casa, precisa para comprar um mísero par de sapatos. São estes sapatos que calçamos quando o filme começa. São sapatos velhos que contrastam com o corpo jovem de Eva. Sapatos-condenação-anunciada num cartão, no começo do filme, que nos diz que Eva “se vendeu por um par de sapatos”. Sapatos-pobreza, como símbolo, e ao mesmo tempo sapatos-literais, materiais, sapatos cujas sola gastas deixam farpas espetadas nos pés da jovem. Sapatos cuja cartolina com que Eva vai recauchutando as solas se desfaz nas manhãs de chuva. Sapatos-vergonha de uma classe operária que se olha ao espelho, assaltada pela insónia e pelos traços surrealistas de uma mão monstruosa que confirma a condenação: o jovem corpo de Eva será também ele usado. No plano formal, a grandeza dos planos e um apurado sentido de composição, patente desde a abertura do filme, encontram pormenores de um quase-surrealismo que se cruza com um sobre-realismo. Dois momentos: o plano ao nível do chão, a chuva cai forte e os sapatos de Eva avançam de proa feita com o casco abalroado, como um navio prestes a fundar; Eva na cama, a brancura dos olhos contrasta com a noite do proletariado, e uma mão gigante e vampiresca vem sufocá-la; na pele dessa mão, tatuada, a palavra “pobreza”. Mas o formalismo é todo ele político em “Shoes”, e o que hoje se diz serem “questões de género” ou “temas sociais fraturantes” estão bem patentes na brancura dos olhos de Eva: a prostituição como única a saída, sem margem para qualquer “coming-of-age”. Lois Weber é um marco não por ser uma mulher que filma mulheres com um olhar sobre a mulher e sobre questões que afetam diretamente as mulheres do seu tempo: é uma grande cineasta. E Shoes é um filme raro, raramente exibido em Portugal e que aqui surge num encontro único e singular com a música de uma outra mulher, a harpista espanhola Angélica Salvi.
(LL)
PRODUÇÃO Bluebird Photoplays, Universal Film Manufacturing Company ; Lois Weber, Phillips Smalley CONTACTO DE CÓPIA Eye Filmmuseum, info@eyefilm.nl, www.eyefilm.nl ARGUMENTO Lois Weber, Stella Wynne Herron FOTOGRAFIA Stephen S. Norton, King D. Gray, Allen G. Siegler ACTORES Mary MacLaren, Harry Griffith, Jessie Arnold, William Mong, Lina Basquette